Bloomberg photo by Andrew Harrer
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Paralisação do governo dos EUA por 30 dias aumenta agonia de servidores

Impasse político entre presidente Donald Trump e oposição democrata provoca fechamento de parques e museus, afasta turistas e muda a rotina de Washington, cuja economia depende dos funcionários públicos que estão sem receber salários 

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2019 | 05h00

O governo americano chega hoje ao 30.º dia de paralisação em razão do impasse entre a Casa Branca e os democratas sobre a promessa do presidente Donald Trump de construir um muro na fronteira com o México. Além de ser a mais longa da história americana, a paralisação já começa a afetar seriamente os servidores, que ficaram sem receber salários, e a economia americana, que perde US$ 1,2 bilhão por semana.

Em Washington, a população flutua de 700 mil a 1 milhão de pessoas por dia em razão dos funcionários públicos que vão à cidade para trabalhar em setores do governo. Em entrevista, a prefeita, Muriel Bowser, se mostrou preocupada com o efeito da paralisação e da ausência de pessoas na cidade, cuja economia depende dos servidores públicos. “Isso afeta todos os negócios e serviços que essas pessoas utilizam, pelo fato de que os servidores não estão sendo pagos”, afirmou. 

O impasse entre a Casa Branca e os democratas é em torno da previsão de US$ 5,7 bilhões de verba para construir o muro na fronteira com o México – proposta de campanha de Trump. Enquanto não aprovam um orçamento, 800 mil servidores federais estão sem remuneração. Cerca de metade está em licença, enquanto os demais trabalham de graça.

O brasileiro Marcus Vinícius Rosa é motorista do Lyft, aplicativo que rivaliza com o Uber, em Washington. Ele sentiu o impacto da paralisação na sua receita mensal. Segundo ele, nas semanas da paralisação, a busca pelo serviço caiu para menos da metade. “Cerca de 90% das pessoas que atendo na área de Washington é gente que trabalha no serviço público. Aqui, a grande empresa é o governo. Se você corta o salário do funcionário público, isso afeta a cidade”, conta. 

De acordo com Rosa, o faturamento que era de US$ 100 caiu para algo ao redor dos US$ 35. “Se os funcionários públicos estão fora, todos os negócios que giram ao redor deles são afetados”, afirma.

Turismo

Na capital americana, a mudança na dinâmica da cidade deixou as ruas vazias. Não só pelos funcionários federais que estão em licença ou com atividades limitadas, mas pela ausência de turistas. Os museus, gratuitos e em grande quantidade na região do chamado National Mall, fecharam as portas. 

Iná Chaves, moradora de Washington, se frustrou com a falta de opções culturais na cidade em razão da paralisação. “Esperei o inverno chegar para aproveitar os museus da cidade, mas estão todos fechados. Também costumo acompanhar a programação sazonal de filmes da Galeria Nacional, que é ótima. Mas, como o museu fechou, toda a programação foi cancelada.”

A pista de patinação aberta justamente no período de inverno nos jardins da Galeria Nacional está fechada. O museu é um dos 17 espaços culturais da rede Smithsonian afetado pela paralisação do governo.

Em várias partes dos EUA, imagens dos efeitos da paralisação estampam as páginas do noticiário. Nesta semana, servidores do setor de aviação protestaram no Aeroporto Internacional de Sacramento, na Califórnia, pelo fim da paralisação. 

Alertas. Servidores do controle de imigração e segurança dos aeroportos estão trabalhando sem receber os salários para manter os serviços funcionado. Um dos terminais internacionais do Aeroporto de Miami chegou a fechar no fim de semana passado.

Parques nacionais estão fechados ou com serviços limitados. Em Washington, a coleta de lixo no National Mall, coração da cidade, fica a cargo de servidores federais. A prefeitura, no entanto, decidiu incluir o local na rota de coleta para evitar que a principal região da cidade fique suja. A coleta de lixo na área tem custado US$ 70 mil por semana para a prefeitura da cidade.

Outra consequência foi o alerta dos bancos americanos aos clientes. As instituições começaram a enviar avisos aos correntistas para que procurem a agência caso estejam afetados pela paralisação do governo. 

A maior parte dos servidores públicos relata, em protestos, que não tem condições de pagar as contas básicas, como aluguel ou hipoteca. Para piorar o cenário, as famílias mais pobres poderão ficar sem receber a ajuda alimentar no fim de fevereiro, caso o impasse político entre Trump e os democratas não se resolva até lá. 

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