Alejandro Cegarra/NYT
Alejandro Cegarra/NYT

Paralisação econômica interrompe fonte de renda importante para famílias imigrantes

Analistas preveem que as quarentenas anunciadas por governos e outras respostas à pandemia vão reduzir remessas estrangeiras esse ano

Kirk Semple, The New York Times

26 de abril de 2020 | 16h41

ÁPORO, México - O dinheiro chegava com a regularidade de um relógio: U$ 300 a cada duas semanas, enviados pelo marido, um imigrante não documentado que vive de bicos em Indianápolis, nos Estados Unidos.

Era a única fonte de renda para María Alejandre e seis outros parentes em Áporo, pequena cidade no estado mexicano de Michoacán, no oeste do país.

Mas mais de quatro semanas se passaram desde a última vez que o marido de María mandou dinheiro e, com as oportunidades de trabalho cada vez mais raras para ele em meio à pandemia do coronavírus, María está muito preocupada.

“Se a economia piorar mais", disse ela, “não sei como faremos para comer".

A pandemia - e as medidas do governo para combatê-la - está acabando com essa forma de sustento remoto em todo o mundo. Enquanto milhões de trabalhadores nos Estados Unidos e em outros países veem uma redução nas jornadas e salários (quando conseguem manter o emprego), muitos deixaram de contribuir com o sustento de parentes e amigos em seus países de origem, que dependem dessas remessas para sobreviver.

Imigrantes e outros trabalhadores enviaram para casa cerca de U$ 689 bilhões em remessas globais em 2018, de acordo com o Banco Mundial, ajudando a reduzir a pobreza nos países em desenvolvimento, aumentando os gastos dos lares com ensino e saúde, e ajudando a manter sob controle o descontentamento político e social.

Mas os analistas preveem agora que as quarentenas anunciadas por governos e outras respostas à pandemia vão reduzir muito as remessas esse ano - uma desaceleração que já começou. O Banco Mundial disse na quarta-feira que as remessas globais devem ter queda de aproximadamente 20% este ano, no “declínio mais acentuado da história recente".

Uma queda substancial nas remessas pode ter impactos amplos em alguns países pobres e em desenvolvimento, causando não apenas dificuldades econômicas mas também tensões políticas e sociais, disse Roy Germano, professor de relações internacionais na Universidade de Nova York.

“Acho que os governos não gostariam de ver uma contração nesse dinheiro, pois funciona como uma espécie de sistema de bem-estar social remoto", disse Germano, autor do livro Outsourcing Welfare [Terceirizando o bem estar social], que trata da questão das remessas. “Em um certo sentido, eles aliviam para os governos a pressão de manter um sistema de bem-estar social e garantir certo padrão de vida.”

Ele disse que um colapso das remessas poderia levar certos lugares a um maior risco de instabilidade social e política.

O México foi o terceiro maior destino de remessas entre todos os países em 2018 - perdendo para Índia e China, de acordo com o Banco Mundial - mas o principal destino do dinheiro enviado a partir dos EUA.

E, em meio à desaceleração econômica americana nas semanas mais recentes, milhões de mexicanos sem documentos vivendo nos EUA se veem em situação particularmente vulnerável na ausência de empregos, pensões e seguro desemprego - situação que também afeta outras populações de imigrantes.

Ainda assim, no início do mês, o presidente Andrés Manuel López Obrador, do México, pediu aos mexicanos no exterior que não interrompam as remessas, mesmo reconhecendo que eles também passam por um difícil momento econômico.

“Não deixem de ajudar seus parentes no México", disse ele.

No México, talvez a região mais afetada pelo impacto da queda nas remessas seja Michoacán, estado mexicano mais dependente do dinheiro mandado do exterior, de acordo com o governo.

Nas décadas mais recentes, centenas de milhares de pessoas de Michoacán chegaram aos EUA, trabalhando como ajudantes de obras e lavando pratos, como jardineiros e ajudantes domésticos, enviando parte do seu ganho de volta para casa.

Em 2018, Michoacán recebeu quase US$ 3,4 bilhões em remessas, mais do que qualquer outro estado mexicano, correspondendo a cerca de 11,4% do seu Produto Interno Bruto, de acordo com análise do National Population Council, da BBVA Foundation e da BBVA Research.

A pequena cidade rural de Áporo, como muitos outros assentamentos do tipo no México, é ligada a cidades americanas de pequeno e médio porte pela imigração rumo ao norte e o fluxo de dinheiro enviado ao sul.

De acordo com as estimativas do prefeito de Áporo, Juan José Mendiola, mais de 1.000 dos 4.200 residentes do assentamento vivem nos EUA, concentrados particularmente em Lansing (Michigan) e Los Angeles.

Ele disse que a imigração para os EUA é tão comum, especialmente entre os homens mais jovens, entre os quais se tornou “um estilo de vida".

Várias dezenas de famílias da cidade disseram às autoridades que as remessas diminuíram, causando-lhes dificuldade no próprio sustento. Pode ser apenas o começo, disse Mendiola.

“Temos consciência da atual impossibilidade de medir os efeitos dessa crise", disse ele.

María, 49 anos, o marido e os dois filhos mais velhos deixaram Áporo há cerca de duas décadas, seguindo para os EUA em busca de trabalho. A família se instalou em Phoenix, onde María trabalhava como faxineira em um motel enquanto o marido era ajudante de obras.

Tiveram três outros filhos nos EUA e enviavam periodicamente dinheiro para ajudar os parentes em Áporo e financiar a construção de uma casa onde esperavam um dia viver.

Esse momento chegou mais cedo do que o esperado. María perdeu o emprego após a crise financeira global do fim da década de 2000, e o marido teve dificuldade para encontrar trabalho fixo. Assim, voltaram a Áporo com os filhos e se mudaram para o sobrado construído com o dinheiro das remessas.

Em 2018, atraído novamente pela promessa de uma economia americana próspera, o marido imigrou para Indianápolis.

A remessa de dinheiro que ele mandava para casa a cada duas semanas parecia uma soma expressiva depois do salário de até US$ 20 por dia que ele ganhava nas construções mexicanas de Michoacán. Mas agora esse envio foi interrompido abruptamente.

“Ele contou que, se a crise piorar, ficará sem trabalho", disse María em uma tarde recente, sentada à mesa da cozinha com duas das filhas nascidas nos EUA e o cunhado, Salvador Ponce, 47 anos.

Recentemente, a família esgotou a modesta poupança cuidando da saúde da sogra de María, e eles tentavam fazer a última remessa de dinheiro durar o máximo possível.

“Se não tivermos essa remessa, ficaremos sem nada", disse Ponce.

A incerteza enfrentada pela família ecoa por todo o México.

Martha Sánchez, que vive com os dois filhos pequenos em Ciudad Hidalgo, município situado no nordeste de Michoacán, disse que o marido foi demitido no mês passado em Louisville, no Kentucky, onde trabalhava como faxineiro de hotel. Ele não encontrou outro emprego e não manda dinheiro para casa há seis semanas.

Martha disse que talvez seja obrigada a vender algumas de suas posses para pagar o aluguel e a alimentação. O carro, um Volkswagen Jetta de 18 anos, pode ser o primeiro da lista, disse ela.

Enquanto isso, ela e os garotos seguem as ordens de ficar em casa no seu pequeno apartamento, tentando manter-se a salvo.

“Quando não é o vírus, é a economia", suspirou ela.

A culpa pesa para os imigrantes que viram seus empregos evaporarem e agora precisam explicar aos parentes em casa que não há nada para mandar-lhes.

César, 42 anos, imigrante mexicano que vive em Nova York com a mulher e cinco filhos, perdeu o emprego de ajudante de cozinha há mais de um mês.

Ele, as duas irmãs e o irmão que também vivem nos EUA sustentam a mãe no estado mexicano de Puebla. Mas as irmãs também perderam o emprego, e agora resta pouco dinheiro para mandar para casa.

“Sinto-me mal por causa dos parentes", lamentou César, que pediu para não ser totalmente identificado por ser imigrante ilegal. “É algo que afeta todos que vieram morar aqui.”

Diante das sombrias perspectivas de emprego, alguns imigrantes decidiram voltar para casa; María disse que o marido pensa em voltar também.

“Do ponto de vista da família, seria ótimo se ele estivesse aqui, mas, do ponto de vista econômico, seria péssimo", disse ela, acrescentando que eles esperam uma rápida recuperação da economia americana.

“Ele vai esperar mais alguns dias e ver o que acontece.” /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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