Paralisação obriga argentinos a fazer dieta

Isabel Gimenez não pode mais comerfrutas e legumes --a escassez provocada por 19 dias deparalisação dos produtores fez com que esses produtos ficassemcaros demais. Por isso, ela e seus cinco filhos terão de comergelatina e purê instantâneo. Na segunda-feira, vários supermercados estão com asprateleiras vazias, devido à recusa dos produtores emabastecê-los, em protesto contra a elevação de um imposto sobrea exportação de soja. A carne, item tão caro aos argentinos, é o produto maisescasso. Leite, ovos, frango e produtos frescos também sumiramou estão a preços proibitivos. "É um pouco assustador ver tudo meio vazio, especialmentepara quem tem crianças", disse Gimenez, uma mãe solteira de 45anos, frequentadora de um supermercado popular. "Tanto ogoverno quanto os agricultores estão sendo caprichosos, e nóstodos temos de pagar o preço." As negociações para o fim dos protestos foram suspensas nasemana passada, mas o governo deve anunciar na noite desegunda-feira medidas para ajudar pequenos produtores. Para impedir o abastecimento das cidades, os produtorestambém bloqueiam rodovias no interior. Em alguns lugares,caminhoneiros irritados brigaram com piqueteiros. Frigoríficos dizem que a continuidade da greve patronalpode os obrigar a fazer milhares de demissões. No fim de semana, houve entrega de mercadorias podres noprincipal mercado atacadista da capital, e os comerciantesameaçaram processar os produtores rurais por suas perdas,segundo a imprensa. O açougueiro Luis Medina diz que em 20 anos de trabalhonunca viu tanta falta de carne. Seu açougue só vende lingüiça esalsicha. "Não temos carne nem para levar para a nossa casa",contou. Os argentinos são o povo mais carnívoro do mundo, com umconsumo médio anual de 69 quilos por ano de carne bovina. Na churrascaria Desnivel, o gerente Tito Portillo contavaque o número de pessoas almoçando caiu proporcionalmente aoaumento dos preços no cardápio. O preço do suculento "bife de chorizo" saltou 40 por cento,e o filé mignon aumentou 45 por cento, custando agora 32 pesos(10 dólares) por prato -- um valor razoável para turistasestrangeiros, mas não para muitos argentinos, segundo Portillo. Pablo Grima, carnívoro convicto de 21 anos, disse que suamãe só faz frango com macarrão desde o início do locaute. "Àsvezes estou morrendo de vontade de uma costeleta ou um bife,mas não posso falar nada para minha mãe, a culpa não é dela."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.