Paramilitar prescinde de amigos

Eveida García, de 31 anos, escapou do grupo paramilitar Autodefesas da Colômbia (AUC) em 2004, após trabalhar ao lado do marido, segurança dos líderes do movimento em Santa Rosa do Sul, município de 30 mil habitantes no Departamento de Bolívar, na fronteira com a Venezuela.

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Cúcuta

31 Maio 2014 | 18h18

Eveida não andava fardada, não vivia em acampamento, nem se encaixava aos outros estereótipos ligados aos grupos armados colombianos. Sabia aprontar uma arma e disparar, mas se dedicava a preparar a comida dos chefes e acompanhar o marido em algumas missões. A mais comum era controlar, nas entradas e saídas da cidade, dinheiro de caminhoneiros que transportavam gasolina contrabandeada da Venezuela. 

“Se não pagassem, era preciso consultar o comando e perguntar o que fazer com a pessoa. Sempre havia que esperar ordens. Eles decidiam. Se tiravam a mercadoria e o liberavam sozinho. Ou se o matavam”, lembra.

Eveida teve dois anos de vida confortável em Santa Rosa, até que o marido usou uma moto do grupo sem autorização e foi punido com um período “no monte” (modo como se referem ao trabalho nas montanhas). Decidiram desertar, aproveitando um acordo feito pelo governo de Álvaro Uribe (2002-2010) com o grupo. 

Ambos vagaram por várias cidades na tentativa de despistar possíveis perseguidores. Os integrantes das AUC que não aceitaram a desmobilização criaram ou aderiram a grupos criminosos. O mais temido é o Las Águilas. “Em geral, foram aqueles que estavam ligados diretamente ao lucro do narcotráfico, a quem não convinha deixar tudo por uma bolsa de até 480 mil pesos (R$ 550 por mês) do governo”, afirma o coordenador do programa de desmobilização em Cúcuta, Tyrone Rodríguez.

Embora soubesse montar e disparar um fuzil, Eveida nunca puxou o gatilho. Ainda assim, adotou a discrição após abandonar o grupo, por saber quem eram os chefes, como chegavam armas e gasolina da Venezuela e como era processada a cocaína nas plantações que tinham sob domínio e financiavam o movimento.

“No meu bairro, ninguém sabe que pertenço ao processo. Muitos perguntam ‘como você consegue se manter sozinha, com as quatro crianças?’ Digo que recebo uma pensão pela morte de meu marido. Não é algo de que eu tenha de me orgulhar. Além disso, já não faço questão de ter amigos.” / R. C.

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