Paramilitares colombianos decretarão cessar-fogo

As Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), o principal grupo paramilitar do país, formado para combater a guerrilha de esquerda, decretarão um cessar-fogo unilateral em todo o país a partir de domingo, disseram nesta quinta-feira à Associates Press uma fonte do grupo armado e um funcionário do governo; ambos pediram para não serem identicados. O cessar-fogo indefinido, que deve incluir cerca de 8.000 combatentes, poderia levar à desmobilização desta organização armada, que tem sido acusada pelas autoridades de ser uma das principais violadoras dos direitos humanos. Este seria o primeiro sinal claro em anos de que o conflito colombiano poderia começar a diminuir de intensidade, ao desaparecer um de seus mais importantes atores. O cessar-fogo contempla o direito à legítima defesa em caso de os paramilitares serem atacados pela guerrilha. A fonte paramilitar afirmou que o governo se comprometeu a garantir a segurança da população civil nas zonas até o momento ocupadas pelas AUC, prevendo uma possível ofensiva rebelde. O presidente Alvaro Uribe confirmou na segunda-feira que seu governo estava realizando contatos para promover um eventual diálogo de paz com as AUC, sob a condição de que "nem um só colombiano seja mais assassinado".Esta semana, o Congresso também aboliu o requisito de outorgar status político aos grupos armados ilegais antes de iniciar negociações, com o que se eliminou a barreira legal que existia para negociar com os paramilitares. Segundo a fonte estatal, o governo exigiu dos paramilitares o compromisso de eliminarem as plantações de coca e papoula dos territórios sob sua influência, o respeito ao direito internacional humanitário - que protege os não-combatentes -, e disse que as conversações levarão a uma desmobilização do grupo armado. A confederação de autodefesas comandada por Carlos Castaño aceitou estes requisitos. No ano passado, as AUC anunciaram que abandonariam o narcotráfico e poriam fim aos massacres. Apesar deste anúncio, soube-se que algumas facções das AUC não entrarão no acordo. Entre estas, estaria o Bloco Metro, que exerce inluência sobre Medellín - a segunda cidade da Colômbia - e áreas adjacentes. O Bloco Central Bolívar, o segundo maior grupo paramilitar, não aderirá ao cessar-fogo, mas desenvolverá um processo paralelode negociação. Este gesto dos paramilitares é possível em parte devido à chegada ao poder de Uribe, que prometeu usar de pulso firme para restabelecer a paz em seu país, onde a cada ano morrem 3.500 pessoas no conflito. Entre os planos de Uribe está o de aumentar o tamanho das Forças Armadas e criar batalhões de soldados camponeses, o que retiraria dos paramilitares um dos principais argumentos para erguer-se em armas. As AUC sustentam que tiveram de combater a guerrilha porque o Estado não foi capaz de proteger os colombianos.Entretanto, esta nova aposta pela via negociada poderia enfrentar vários obstáculos, entre os quais o das graves violações aos direitos humanos em que incorreram os paramilitares, assim como o fato de que os EUA pediram a extradição, por acusações de narcotráfico, de seus comandantes Castaño e Salvatore Mancuso. Também preocupa o destino dos mais de 8.000 paramilitares que poderiam desmobilizar-se. Sua reinserção social teria altos custos em tempos de ajuste fiscal. Ao mesmo tempo, um êxito no diálogo com as AUC poderia abrir caminho para futuras negociações com as guerrilhas, que sempre exigiram um combate frontal do Estado contra os paramilitares. Os rebeldes acusam o Estado de aliar-se aos paramilitares para promover uma "guerra suja".

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