Denise Chrispim Marin
Denise Chrispim Marin

Paramilitares do chavismo, ‘coletivos’ mantêm opositores longe de Maduro

Em razão da violência que costumam empregar, são temidos pela população venezuelana

Denise Chrispim Marin,

12 de abril de 2014 | 18h07

CARACAS- Ao contrário das manifestações populares da Primavera Árabe e na Ucrânia, os protestos iniciados em fevereiro na Venezuela jamais se aproximaram do Palácio de Miraflores. Segundo dirigentes do partido Vontade Popular, a razão está no fato de a sede do governo venezuelano ser protegida pelos "coletivos" – grupos armados aos quais a oposição e a população temem mais do que às forças militares.

Desde fevereiro, portanto, os coletivos deixaram sua marca de brutalidade em vários episódios. Sempre movimentando-se em motocicletas, que lhes permite mais agilidade no trânsito de Caracas, eles usam capuzes para esconder o rosto e portam armas. Um dirige e outro atira ou golpeia.

Durante as primeiras semanas de protestos, os grupos armados estiveram mais ativos como meio extraoficial de repressão. Em 24 de fevereiro, milhares de seus militantes, em motocicletas, foram recebidos no Palácio de Miraflores pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Atendiam a um "chamado à paz e pelo fim da violência" – não a cometida por eles, mas pela "extrema direita fascista", como Maduro costuma chamar a oposição.

A ação dos coletivos armados nos protestos e passeatas da oposição diminuiu desde meados de março, depois de uma conclamação da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) ao fim da violência e à sua decisão de enviar uma comissão de chanceleres ao país. Mas, acabou retornando em episódios pontuais.

No dia 3, estudantes da Universidade Central de Caracas (UCV) foram surpreendidos no câmpus por um bloqueio da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) quando pretendiam seguir em passeata até a sede da estatal petroleira PDVSA. Castigados por bombas de gás lacrimogêneo pela GNB, os universitários foram atacados com tiros, paus, garrafas e coquetéis Molotov por membros de vários coletivos. Jornalistas foram feridos, ameaçados de sequestro e tiveram seus equipamentos roubados. Um grupo de estudante foi humilhado por membros do coletivo, que os forçaram a tirar toda a roupa.

Os moradores do Petare, bairro onde há favelas e condomínios de classe média alta, foram alvo de um grupo de paramilitares em motocicletas quando faziam uma passeata contra o governo na quarta-feira. O bando disparou para o alto e golpeou os manifestantes. Na semana passada, médicos do Hospital Central de Barquisimeto, que protestavam contra a falta de insumos e remédios para tratar seus pacientes, foram atacados por coletivos dentro das instalações hospitalares.

Os coletivos armados igualmente são acusados de cometer crimes comuns, como roubo, sequestro e extorsão.

Quatro membros do Trés Raíces, da região de Sierra Maestra, foram presos no bairro de Catia, na semana passada, por coagir os comerciante a pagar uma taxa a título de proteção. A extorsão foi denunciada por um grupo de moradores. Os quatro criminosos traziam documentos falsos de agentes da Polícia Nacional Bolivariana.

Ação pelo governo. O líder do coletivo Tupamaros, do 23 de Enero, José Tomás Pinto Marrero, esteve presente na primeira rodada de diálogo entre o governo e a oposição, na quinta-feira, para acusar a tentativa da oposição de criminalizar os grupos. Pinto é dono da construtora, a Albanicop, que presta serviços para o governo. Na semana passada, seu grupo prestou um serviço extraoficial ao governo ao apresentar na Justiça o pedido de anulação do registro do Vontade Popular (VP), uma das legendas mais radicais da oposição.

"Esses grupos, na verdade, são gangues armadas e ligadas ao narcotráfico e não têm nada do espírito original dos coletivos", diz Ismael León, dirigente do VP. "Eles se camuflam como partidos e coletivos. Mas, na favela, fazem desfiles com suas armas e rondam armados todas as noite, em motocicletas, para intimidar e amedrontar os moradores."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.