''Paras'' e políticos firmaram pacto em 2001

Acordo de Ralito, que veio à tona em 2006, previa a ?refundação? do país

O Estadao de S.Paulo

26 de abril de 2008 | 00h00

O escândalo da "parapolítica", que na semana passada chegou ao pescoço do governo colombiano, veio à tona em 2006, quando foram encontrados no computador do líder paramilitar "Jorge 40" indícios de contatos com diversos políticos. Na época, 30 mil "paras" haviam abandonado as armas como parte de um programa que exigia que eles confessassem seus crimes. Pouco a pouco, os depoimentos foram pintando um quadro do que havia sido o cenário político colombiano nos anos em que grupos armados fizeram a lei em muitas regiões do país. O resultado foi assustador. Os "paras" se infiltraram em quase todas as instâncias do Estado colombiano. Eles começaram pelos órgãos regionais, mas seu objetivo, ao que parece, era o governo central. Entre as revelações que deram fôlego à crise está o Acordo de Ralito - um documento assinado em 2001 por 32 políticos e líderes paramilitares, em que eles se comprometiam a "refundar o país". Desde que ele foi divulgado, em 2006, a parapolítica já provocou a queda de uma chanceler (María Consuelo Araújo, cujo pai e o irmão foram envolvidos) e a prisão de dois governadores, além da devassa do Congresso.Segundo a cientista política Elizabeth Ungar, "é difícil acreditar" que o presidente Álvaro Uribe não tenha tido contato com paras se todos a sua volta estão envolvidos. "Ele possui terras numa área de grande influência desses grupos", diz. Outro dado que alimenta as suspeitas contra Uribe é que, numa época em que era difícil fazer política na Colômbia sem o aval de paras ou guerrilheiros, ele governou o Departamento de Antioquia, onde apoiou a criação das Convivir - cooperativas de segurança que deram respaldo institucional ao paramilitarismo. "A verdade, porém, é que até agora nada foi provado contra o presidente", diz Elizabeth. Os grupos paramilitares foram criados nos anos 80 para proteger fazendeiros e combater guerrilhas em lugares onde o Estado não chegava. Inicialmente, contavam com certa anuência da população, mas aos poucos entraram nos mesmos ramos de atividades que hoje financiam as Farc: seqüestros, narcotráfico e extorsão. "O fato de crimes cometidos nesse período negro da história colombiana serem revelados dá alento a uma grave crise política", diz o cientista político Gabriel Murillo. "Ao mesmo tempo é um processo saudável para a democracia do país - porque, afinal, conhecer a verdade é melhor do que ignorá-la"

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