Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Parceiro de Greenwald denuncia confisco

Detido por 9h em Londres por lei antiterror, brasileiro acusa polícia de apreender dados

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2013 | 22h56

Dois pen drives e um HD externo que contêm documentos sigilosos a serem analisados pelo jornalista americano Glenn Greenwald, e estavam sendo trazidos da Europa por seu companheiro, o brasileiro David Miranda, foram confiscados por agentes britânicos no Aeroporto de Heathrow, no domingo.

Após sua chegada ao Rio, nessa segunda-feira, ele disse acreditar que vem sendo monitorado pelo governo da Grã-Bretanha. "Era muita informação, documentos importantes para o trabalho dele. Os agentes estavam atrás disso", declarou Miranda, que mora no Rio com Greenwald.

Ele desembarcou na segunda vindo em um voo da British Airways. Em Londres, Miranda passou nove horas sendo interrogado por sete agentes e teve seus objetos pessoais confiscados – segundo a BBC, o material deve ser devolvido em até sete dias.

Miranda voava de Berlim, onde passou uma semana, e ficaria apenas duas horas em Heathrow, até pegar a conexão para o Rio. Ele foi identificado e abordado imediatamente depois de sair do avião. "Já sabiam quem eu era, estavam me monitorando. Com certeza grampearam meu celular. Fiquei em uma sala durante nove horas, sem acesso a ninguém, com sete agentes me fazendo perguntas o tempo inteiro. Fizeram muitas ameaças de me prender, um ataque psicológico enorme. Eu falo inglês, mas perguntei se poderia ter alguém para fazer tradução, caso eu ficasse estressado, e não chamaram. Pedi para entrar em contato com meu parceiro e demoraram mais de três horas para dizer que tinham conseguido falar com ele", disse ao Estado.

O material foi passado a Miranda em Berlim pela documentarista Julia Poitras, que trabalha com Greenwald na análise de documentos da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) que revelam o esquema de espionagem americano. Passados para Greenwald pelo ex-funcionário da CIA Edward Snowden, os arquivos do programa de vigilância da NSA foram revelados em reportagens de Greenwald no jornal The Guardian.

Miranda foi detido com base no Artigo 7 da Lei de Terrorismo, de 2000, que dá poder a autoridades aeroportuárias de deter suspeitos de entrada e saída da Grã-Bretanha por até nove horas. A lei é considerada vaga e, por isso, arbitrária, por não estabelecer critérios para identificação de quem é suspeito.

Não havia nada formal contra Miranda, o que confirma que a prisão foi uma retaliação em razão das reportagens de Greenwald. Ele foi liberado para seguir viagem sem explicações, depois de ficar detido pelo período máximo que a lei permite – na maioria das vezes, a detenção dura menos de uma hora.

"Utilizaram uma lei para poder pegar documentos que não conseguiram pelos métodos convencionais, abusando de poder. É exatamente o que o meu parceiro vem escrevendo há anos", criticou Miranda, que disse ter ficado o tempo todo sem beber água, com medo de os agentes terem "batizado" o copo que lhe ofereciam.

Em seu blog no Guardian, Greenwald informou que o agente que lhe telefonou não permitiu que ele falasse com o parceiro nem com os advogados enviados a pedido dele pelo Guardian, nem mesmo com representantes da Embaixada do Brasil em Londres. Ele disse que seu trabalho ganha força com o episódio.

"Obviamente, eles não suspeitavam que David tivesse associação com alguma organização terrorista. Eles o interrogaram em razão das investigações da NSA e do conteúdo do material que trazia. Foi uma mensagem de intimidação para quem está investigando a NSA e o serviço de inteligência britânico. Até a máfia tinha regras éticas que vetam ameaças a parentes", disse o jornalista.

A Anistia Internacional classificou a detenção de Miranda de "ilegal e indesculpável". "Simplesmente não há base para acreditar que David Miranda apresente qualquer ameaça para o governo da Grã-Bretanha", afirmou a ONG, em nota.

Segundo a Casa Branca, Washington não pediu a prisão Miranda. O porta-voz do governo americano, Josh Earnes, reconheceu, porém, que os britânicos avisaram os EUA que o deteriam – um sinal de que os britânicos conheciam a relação de Greenwald com os EUA.

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