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Lourival Sant'Anna
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Parceria estratégica

Chineses veem no longo prazo, mas agem no curto

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2021 | 05h00

A declaração infeliz do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que os chineses “inventaram” o vírus, mas desenvolveram vacinas menos eficazes do que os americanos, acabou servindo de oportunidade para a China reafirmar o desejo de parceria estratégia com o Brasil.

Na manhã seguinte, o chanceler Carlos França telefonou para o embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming, para tentar superar o constrangimento. Logo depois desse telefonema, Yang entrou em um seminário virtual do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

O embaixador contou que ambos reiteraram o desejo de continuar a colaboração no campo das vacinas. Yang acrescentou que a China considera o Brasil “um parceiro estratégico na pandemia”, e “vai honrar o compromisso de tornar a vacina um bem público global e de fornecê-la ao Brasil”. 

Os dois manifestaram o desejo de manter boas relações, disse Yang, acrescentando: “Agora temos um diálogo muito fluido”, numa referência à saída do ex-chanceler Ernesto Araújo, que no Fórum Econômico Mundial de Davos propôs uma aliança do Brasil com os Estados Unidos para combater o “tecno-totalitarismo” chinês.

No mesmo seminário, Xu Bu, presidente do Instituto de Estudos Internacionais da China, que assessora o governo chinês, observou: “China e Brasil são economias muito complementares. Temos muito o que nos beneficiar dessa relação. O potencial é enorme. Temos que abandonar preconceitos ideológicos. Não temos que escolher entre países”.

Com essa última frase ele estava concordando com o que tinha dito antes o embaixador e ex-ministro Sérgio Amaral, para quem o Brasil não tem de escolher entre Estados Unidos e China. “Estamos todos no mesmo barco”, continuou Xu. “Temos que trabalhar juntos contra os desafios globais. Nenhum problema global pode ser resolvido por um único país.”

O assessor deslocou sua reflexão do Brasil para o governo Joe Biden: “Começar uma nova Guerra Fria, intimidar outros países, falar em decoupling (descolamento das cadeias de produção), isolamento, só empurrará o mundo para a divisão e o confronto”. 

Uma aula de paciência estratégica. Os chineses costumam olhar em perspectiva. “Eles veem as relações com o Brasil no longo prazo, para além do atual governo”, me disse Henrique de Moura Reis, gerente de Relações Internacionais do China Trade Center.

O Brasil foi o primeiro país declarado pelo governo chinês “parceiro estratégico global”, em 2012, durante visita do então primeiro-ministro, Wen Jiabao, no contexto da Rio+20. 

A complementaridade é total: o Brasil precisa de investimentos em infraestrutura e de importar produtos industrializados. A China tem US$ 3,2 trilhões em reservas e precisa de alimentos e matéria-prima. Outros países, que poderiam se encaixar nesse papel, como Índia, Austrália e EUA, mantêm disputas geopolíticas com a China.

Os chineses veem no longo prazo, mas agem no curto. O chanceler fez um relato na Comissão das Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados de sua conversa telefônica com o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi.

França pediu apoio na aquisição de 30 milhões de doses da vacina da Sinopharm, para entrega ainda no segundo trimestre deste ano, e de ingredientes para a produção no Brasil de 60 milhões de doses da vacina da AstraZeneca. Segundo ele, Wang se comprometeu a fazer todo o possível para que as entregas ocorram a partir deste mês, já que em abril a China estava focada em vacinar a própria população.

Em mandarim, os caracteres da palavra “crise" (“weiji”) estão presentes em “perigo” (“weixian”) e “oportunidade” (“jihui”). O Brasil é indiferente ao perigo, como atestam, tragicamente, as 400 mil mortes por covid, muitas delas evitáveis. Seria bom se começasse a ser mais atraído pelas oportunidades.

* É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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