Onliner.by/AFP
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Parece a Rússia, mas não é; leia a análise

Perseguição à imprensa livre e à oposição política e a censura dos meios de comunicação são características que aproximam os líderes de Belarus e russo

Roberto Uebel*, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2021 | 20h00

A interceptação de um avião da companhia irlandesa Ryanair por ordem do governo de Belarus trouxe à tona mais uma vez o pequeno país localizado entre a Rússia, Ucrânia, Polônia, Lituânia e Letônia. Com exceção da Ucrânia, todos os demais vizinhos são membros da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A aeronave fazia trajeto entre a Grécia e a Lituânia, dois membros da UE.

Com um território um pouco maior que o Paraná, que recebeu imigrantes de Belarus no século passado, o país também conhecido como Bielorrússia se apresenta como uma das últimas nações europeias sob o comando de um governo autoritário, exercido por Alexander Lukashenko há 27 anos. Lukashenko também é um dos principais aliados do presidente russo Vladimir Putin.

A Belarus de Lukashenko ficou conhecida desde o fim da Guerra Fria e da União Soviética por se colocar como um Estado-tampão entre a Rússia e o restante da Europa Ocidental, e também por estar localizada na fronteira da Otan, aliança militar ocidental que cada vez mais avança sob a zona de influência e hegemonia tradicionalmente russa.

Além disso, durante a pandemia da covid-19, Lukashenko foi um dos representantes internacionais do negacionismo e da perseguição à ciência. Em Belarus, os tratamentos precoces indicados foram a sauna e a vodca. O presidente autoritário também é lembrado como um dos aliados extracontinentais da Venezuela. Lukashenko era aliado de Hugo Chávez e esteve presente com seu filho no funeral do mandatário venezuelano, em 2013.

A perseguição à imprensa livre e à oposição política, assim como a censura dos meios de comunicação não-estatais, são outras características que aproximam os líderes belarusso e russo. Porém, enquanto Putin busca expandir a sua zona de influência, aproximando-se cautelosa e pragmaticamente da União Europeia, do Reino Unido e dos Estados Unidos de Joe Biden, Lukashenko parece se isolar cada vez mais, angariando inclusive a antipatia velada de Moscou.

Em agosto de 2020, Belarus realizou eleições presidenciais, que foram acompanhadas com atenção por Bruxelas e Moscou, já que foram as primeiras nas quais a oposição ao regime apresentava as maiores chances de vitória. Entretanto, a perseguição a opositores e a prisão do candidato Sergei Tikhanovsk, seguidas pelo exílio na Lituânia de sua esposa e também candidata, Svetlana Tikhanovskaya, representaram mais uma dura vitória do autoritarismo ultrapassado sobre os ventos gelados e incipientes da democracia bielorrussa, expressão empoeirada nos dicionários dos idiomas eslavos.

A aproximação entre Minsk e Moscou durante o governo Putin é uma das marcas da política externa de Lukashenko. A Rússia busca manter sob seu guarda-chuva não apenas antigos países soviéticos, como Belarus, mas também outras nações, seja sob a União Econômica Eurasiática, seja por meio de relações comerciais, políticas e econômicas de benefício mútuo, como aquelas com Cuba, Venezuela e a China.

Apesar disso, o líder russo e o establishment político e econômico do país sabem que as pesadas sanções econômicas europeias e americanas, agravadas após a crise da Crimeia, tem um limite do razoável e do tolerável. É neste ponto que Lukashenko e seu jeu de rôle minam os projetos de Moscou para o seu entorno estratégico e para suas relações com o restante do mundo, notadamente com os Estados Unidos. A depreciação do rublo, os impactos da pandemia da covid-19 e as sanções à economia russa, bem como uma aparente mudança de perspectiva de mundo, apegado às suas crenças políticas, são pontos que diferenciam Putin de Lukashenko.

Para a Geopolítica, como uma área das Relações Internacionais, Rússia e Belarus não podem ser confundidas como iguais ou descendentes de um legado soviético homogêneo. Tampouco podemos entender Lukashenko como um fiel escudeiro de Putin. A relação de ambos os países e seus líderes é estratégica e de benefícios mútuos, porém, com poder de decisão quase exclusivo de Moscou. Enquanto um lado renasce pragmaticamente no Sistema Internacional, outro se isola cada vez mais e intercepta aviões com jornalistas e eleições com opositores. Será Belarus uma nova Crimeia?

*Roberto Uebel é Professor de Relações Internacionais da ESPM Porto Alegre

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