Parentes coreanos se reencontram após 60 anos

Na chegada ao local, parentes se abraçavam em meio a lágrimas, alegria e descrença. Alguns nem conseguiam reconhecer os parentes

Reuters

20 de fevereiro de 2014 | 12h51

SEUL - Mais de cem sul-coreanos, muitos deles em cadeiras de rodas, atravessaram na quinta-feira a mais vigiada fronteira do mundo para se reunirem com parentes que vivem na Coreia do Norte, aos quais não viam desde a Guerra da Coreia (1950-53).

As reuniões foram realizadas depois que o Norte desistiu de exigir a suspensão de um exercício militar anual conjunto da Coreia do Sul com os Estados Unidos. Antes, Pyongyang chegou a ameaçar com o cancelamento das reuniões familiares no monte Kumgang, uma estância montanhosa logo ao norte da fronteira.

Na chegada ao local, parentes se abraçavam em meio a lágrimas, alegria e descrença. Alguns nem conseguiam reconhecer os parentes que não viam havia mais de seis décadas.

Entre os sul-coreanos estava Jang Choon, um cadeirante de 81 anos, que vestia terno bege e gravata marrom, comprados especialmente para o encontro com um irmão e uma irmã que moram na Coreia do Norte.

"Meu irmão caçula, Ha-choon, nem havia começado a escola quando eu o vi pela última vez", disse Jang, mais velho de quatro irmãos (um já morreu). "Mas agora ele é um velho como eu."

Os seis dias de reuniões familiares ocorrem sob a sombra de um relatório da ONU apontando abusos aos direitos humanos na Coreia do Norte - equiparados por investigadores às atrocidades nazistas. Esses investigadores disseram que os chefes de segurança norte-coreanos e possivelmente até o líder Kim Jong-un deveriam ser submetidos à Justiça internacional.

Pyongyang rejeitou o relatório, descrevendo-o como uma invenção dos Estados Unidos, do Japão e da União Europeia.

Mas o Norte parece estar disposto a manter sua aproximação com a Coreia do Sul, o que pode ser crucial na busca por alimentos para seu povo.

"Agora é quase março, quando a nova safra agrícola deve começar, e Kim Jong-un não tem meios de alimentar seu povo", disse Kim Seok-hyang, professora de Estudos Norte-Coreanos na Universidade Feminina Ewha.

"Ele precisa de ajuda externa. Mas, olhando ao redor, os EUA não vão lhe dar nada, a China não parece disposta a lhe dar nada, e há o relatório de direitos humanos da ONU pressionando-o. A cartada das reuniões familiares é o seu último recurso, porque ele não pode negligenciar o seu povo."

Reuniões desse tipo costumavam ser realizadas mais ou menos todos os anos, mas estavam interrompidas desde 2010, por causa de tensões e incidentes que levaram as duas Coreias à beira de um novo conflito armado.

Para muitos coreanos que viajaram ao monte Kumgang, essa pode ser a última chance de rever seus parentes.

Das 128 mil pessoas registradas na Coreia do Sul como oriundas de famílias separadas pela guerra, 44 por cento já morreram, e mais de 80 por cento dos sobreviventes tem mais de 70 anos, segundo o ministério sul-coreano da Unificação.

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