Rodrigo Antunes Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Antunes Cavalheiro/Estadão

Parentes de colombianos ainda reféns queixam-se do abandono de Bogotá

Diminuição do número de sequestros teria desestimulado o governo a combater esse tipo de crime com o mesmo vigor com que fazia nas décadas passadas

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Bogotá, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2014 | 23h52

BOGOTÁ - No quarto de Enrique Márquez "Kike" Díaz, advogado de 45 anos, há um aparelho de som 3 em 1 preto brilhando como novo. Ao lado do toca-discos, estão fitas k-7 e alguns LPs de cantores colombianos do anos 90. Kike foi levado por guerrilheiros em 10 de fevereiro de 1999, quando na Colômbia havia 3 mil sequestros por ano e o drama dos reféns era "o tema" de segurança pública no país.

A redução drástica desse tipo de crime - em 2013 foram 292, apenas 32 pela guerrilha -, paradoxalmente, golpeou a esperança dos parentes dos cativos. As campanhas contra sequestro minguaram. Predominam nas rádios e nas TVs o estímulo à deserção e reinserção dos integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Os candidatos na eleição de domingo mencionam o tema depois de outros pontos na negociação de paz em vigor desde setembro de 2012.

"Com menos sequestros, as pessoas esqueceram dos sequestrados. Esta é uma queixa dos parentes", diz Ismael Enrique Márquez Correal, pai de Kike e presidente da Associação Nacional de Sequestrados e Desaparecidos.

Aos 78 anos, ele comanda as reuniões com dezenas de famílias na mesma situação. Há pelo menos 13 mil sequestrados ou desaparecidos registrados hoje - segundo as Farc, nenhum em seu poder. Kike foi capturado no centro de Bogotá aos 32 anos. Era um dos diretores de uma cooperativa de crédito em que as Farc tinham depósitos em nome de testas de ferro. Na primeira semana apos o sequestro, a família manteve contato por telefone com a guerrilha, que impôs uma condição para sua liberação: que o gerente da cooperativa negociasse a "devolução" do dinheiro. "Acreditamos que ele trabalhe a força para as Farc, que tem uma equipe de engenheiros, advogados e mão de obra qualificada", afirma Ismael.

Durante 14 anos, o quarto de Kike permaneceu intocado. Há 7 meses, Ismael e a mulher deixaram o apartamento com três suítes, para morar na periferia de Bogotá. Ismael teve um infarto, que ele credita ao estresse dos 15 anos durante os quais o filho ficou preso, e gastou as economias no tratamento.

Na nova casa, Kike continua tendo um quarto com as coisas de que gosta mais. O 3 em 1, entre elas. "Tenho certeza de que ele está vivo. Pelo menos meu coração tem", diz a mãe, Amalia, que limpa e organizar semanalmente o lugar.

Nos últimos 15 anos, Ismael acompanhou as mudanças de tática no combate à guerrilha. Logo após o sequestro do filho, o governo colocou como meta a liberação de oito reféns, Kike entre eles. Um mediador recebeu autorização para ir às prisões e negociar informações em troca de privilégios, como banho de sol prolongado e melhor alimentação. Não houve resultado.

O governo de Álvaro Uribe (2002-2010) será lembrado pelos ataques-surpresa em busca de líderes da guerrilha. Na época, Ismael diz ter sofrido com a possibilidade de o filho ser morto como mais um guerrilheiro, já que havia relatos de que usava uniforme. "Era uma estratégia radical, mas estavam tentando algo. Agora, vemos que os projetos com desaparecidos logo são abandonados."

Ele cita uma iniciativa nos moldes das Mães da Praça de Maio, que logo foi abandonada "porque ninguém dava bola". Os "gols pela paz", em que jogadores comemoravam mostrando fotos de sequestrados sob a camiseta, também "saíram de moda". "A verdade é que há reféns de primeira e segunda classe. O esforço para libertar políticos e membros do Exército é maior", reclama.

"É uma questão de política de governo, que passou a ter outras prioridades. As Farc por compromisso, e outros grupos armados por outras razoes, deixaram de depender dos sequestros. Elas se sustentam do narcotráfico, contrabando e extorsões", afirma o cientista político Alejo Vargas, da Universidade Nacional da Colômbia.

Um levantamento do governo colombiano, de 2003, indica que os pedidos de resgate variavam entre 140 e 160 milhões de pesos, o que rendeu à guerrilha cerca de 88 bilhões de pesos naquele ano. No total, estima-se que as Farc conseguiram US$ 620 milhões com esse tipo de crime.

Os últimos a insistir no tema dos sequestrados parecem ser os programas de rádio que enviam mensagens a sequestradores e vítimas. O mais conhecido é o Las Voces del Sequestro, conduzido por Herbin Hoyos, aos sábados, há 20 anos. Por atacar esse tipo de crime, Hoyos foi vítima dele em 1994. "As Farc entraram no meu estúdio e me levaram. Fiquei no cativeiro por 17 dias. Senti o que as pessoas para quem acredito que falo sentem. Por isso, continuo falando de Kike e de outros", diz.

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