Paris chega às eleições sem definição

A eleição para a prefeitura de Paris será decidida de forma parecida com o pleito presidencial americano: por apenas um punhado de votos entre os candidatos da direita e da esquerda, lembrando o que ocorreu na Flórida entre o republicano George W. Bush e o democrata Al Gore. Pelo menos essa era a previsão poucas horas antes do início do processo de votação que deverá designar amanhã os 163 grandes eleitores - os conselheiros de Paris que vão eleger o prefeito da capital no dia 25. A coligação de partidos de esquerda formada por socialistas, comunistas, verdes e radicais ainda mantém um ligeiro favoritismo. Mas uma vitória da coalizão de direita - constituída pelos gaullistas, centristas e liberais - mesmo sendo difícil - não pode ser inteiramente descartada. Isso depois dos resultados do primeiro turno, que deram ao atual prefeito da cidade, Jean Tiberi, gaullista dissidente, uma votação superior à esperada. Atualmente, os partidos de direita controlam 100 cadeiras no Conselho de Paris e os de esquerda apenas 63, mas uma simples projeção feita a partir dos resultados do primeiro turno permitiria uma vitória confortável da esquerda: 91 cadeiras em comparação a 72 da direita conservadora. Essa situação, entretanto, pode ter mudado nos últimos dias. Afinal, bem ou mal, os partidos de direita - que se enfrentaram durante toda a campanha, a ponto de o partido gaullista, o RPR, ter expulsado o dissidente Tiberi de seus quadros - acabaram concluindo um acordo de desistência de candidaturas e fusão de diversas listas na maior parte dos 20 arrondissements (setores administrativos) de Paris. Não se sabe, porém, até que ponto essa aliança heterogênea, e de última hora, poderá sensibilizar o eleitorado mais conservador para manter o controle direitista da capital, que dura quase 25 anos. Apesar da evolução, essas forças não conseguiram criar uma dinâmica de união na fase final da campanha. Todos os esforços para que Philippe Séguin, candidato oficial dos partidos de direita, e o dissidente Tiberi se encontrassem para um simples aperto de mão foram nulos, revelando a existência de uma aliança artificial e puramente eleiçoeira. Séguin continuou até o fim solicitando que Tiberi retirasse suas listas em seis outros arrondissements da capital, afirmando que "Paris estaria perdida sem essa retirada", com o que não concordou o gaullista dissidente, mantendo esquemas triangulares que poderão comprometer o resultado final. Os socialistas, comunistas e verdes poderão eleger um maior número de conselheiros - grandes eleitores - em 12 arrondissements: o 2.º, 3.º, 4.º, 9.º, 10.º, 11.º, 12.º, 13.º, 14.º, 18.º, 19.º e 20.º. Já a chamada direita clássica deve vencer no 1.º, 5.º, 6.º, 7.º, 8.º, 15.º, 16.º, e 17.º. Mesmo uma derrota da esquerda no 9.º e 12.º arrondissements de Paris no segundo turno de amanhã - em razão de uma união da direita obtida quase a fórceps - a perda de seis conselheiros (grandes eleitores) não seria ainda suficiente para decretar a derrota do socialista Bertrand Delanoë. Fora de Paris prevalece também um forte equilíbrio entre forças de esquerda e direita - pelo menos em grandes centros como Lyon e Toulouse e uma centena de cidades com mais de 30 mil habitantes. Os partidos da aliança conservadora têm praticamente garantidas vitórias em cidades como Marselha e Nice, enquanto a esquerda deve vencer em Lille com a ex-ministra Martine Aubry, e a cidade de Dijon pode passar da direita para a esquerda. Essa eleição está sendo caracterizada também pelo declínio dos grupos de extrema direita, os partidos de Jean-Marie le Pen e de Bruno Megret, punidos por graves cisões internas e também em razão de discursos fundamentados no desemprego e na imigração que não mais sensibilizam o eleitorado.

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