Paris coordena com EUA ação contra Damasco

Presidente François Hollande diz que veto do Parlamento britânico não altera posição do país, que 'está pronto' para uma aliança com Washington

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2013 | 02h03

O veto do Parlamento britânico à participação de Londres em um ataque contra a Síria não mudou a posição da França, que "está pronta" para uma aliança contra Damasco. O presidente francês, François Hollande, disse ontem que negocia com os EUA uma coalizão para "punir" o regime de Bashar Assad pelo uso de armas químicas contra a população civil.

As declarações de Hollande foram feitas em entrevista ao jornal Le Monde. Segundo ele, a intervenção não ocorrerá antes do fim dos trabalhos realizados pelos inspetores das Nações Unidas na periferia de Damascos, que termina hoje.

A decisão considera relatórios de inteligência que indicam que o ataque com armas químicas em localidades da periferia de Damasco de fato ocorreu. O presidente ressaltou que a França dispõe "de uma gama de indícios que vão no sentido da responsabilidade do regime" no uso de armas químicas em 21 de agosto, noite do massacre.

"A questão não é mais saber se armas químicas foram utilizadas. É um fato estabelecido. Mesmo as autoridades sírias não o negam mais. A questão é conhecer os autores desse ato horrível", disse Hollande, referindo-se ao episódio, que pode ter deixado mais de mil mortos conforme a contagem da Coalizão Nacional Síria (CNS), ligada aos rebeldes. "Sabe-se que a oposição não detém nenhuma dessas armas (químicas) e todos os estoques estão sob controle de Bashar Assad", disse Hollande.

O presidente francês lembrou ainda que a região atacada é a "chave" para o controle das vias de comunicação em direção a Damasco, que nas horas que se seguiram à ofensiva, tudo foi feito para apagar os traços dos bombardeios.

Diante das evidências que diz ter, Hollande manteve a convocação do Parlamento para discutir a intervenção. No entanto, ao contrário da Grã-Bretanha, os deputados e senadores franceses não terão poder de veto sobre a ofensiva.

Hollande revelou ainda que a França não espera o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Cientes do veto da Rússia e da China, uma coalizão vem sendo preparada com base na proteção de populações civis e no Protocolo de 1925, que proíbe o uso de armas químicas.

"Se o Conselho de Segurança for impedido de agir, uma coalizão se formará", antecipou Hollande. "Ela se apoiará na Liga Árabe e terá o apoio dos europeus. Mas há poucos países com a capacidade de infligir uma sanção pelos meios apropriados. A França faz parte deles e está pronta."

Questionado sobre se agirá sem o apoio de Londres, Hollande não deixou dúvidas. "Sim. Cada país é soberano para participar ou não de uma operação", afirmou o presidente, que voltou a falar ontem com seu colega americano, Barack Obama, por telefone, para articular a ação. Para Hollande, a missão não terá como objetivo "liberar a Síria ou derrubar Assad".

Enquanto o Ocidente se prepara, China e Rússia mantêm suas posições contra o ataque. Ontem o ministro chinês das Relações Exteriores, Wang Yi, conversou por telefone com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e pediu que a investigação dos inspetores internacionais seja levada ao fim sem pressões.

"Antes que a investigação aponte o que realmente ocorreu, todas as partes deveriam evitar prejulgar os resultados e, por certo, não deveriam pressionar o Conselho de Segurança a tomar uma atitude", afirmou Wang, de acordo com a agência Xinhua.

O chanceler chinês voltou a pedir, mais uma vez, que a comunidade internacional não abandone as negociações diplomáticas - que, em 29 meses, não deram nenhum resultado. "Uma resolução política ainda é a única saída", disse Yi. / COM AFP e REUTERS

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