AFP / MATTHIEU ALEXANDRE
AFP / MATTHIEU ALEXANDRE

Paris cria órgão para frear financiamento externo do islamismo

Fundação é resposta do governo de Hollande à crescente influência de movimentos fundamentalistas

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2016 | 05h00

Em meio à polêmica sobre a proibição do “burkini” por prefeituras da França, o governo francês confirmou nesta segunda-feira que recriará a Fundação para o Islã da França, uma entidade destinada a bloquear o financiamento estrangeiro de mesquitas, salas de culto e instituições muçulmanas em atividade no país. 

Sua função será buscar recursos nacionais em substituição aos estrangeiros e, com isso, conter a influência de movimentos considerados fundamentalistas, como o salafismo, cuja expansão é financiada pela Arábia Saudita. 

A fundação será financiada pelo Estado, com € 1 milhão, mas terá de buscar entre € 5 milhões e € 6 milhões em recursos privados franceses para prestar apoio a associações muçulmanas. Uma das hipóteses é a de que o governo crie um imposto sobre alimentos e bebidas halal – preparados segundo a tradição islâmica. O valor seria direcionado à formação de imãs, líderes religiosos, e obras de construção e manutenção de mesquitas, centros de cultos e associações islâmicas.

A reunião desta segunda-feira foi realizada em Paris teve a presença de membros do Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM), que apoiam a iniciativa. “A fundação dará às instituições muçulmanas os meios financeiros para reforçar seus papéis na prevenção da radicalização, em especial na habilitação de imãs” afirmou Anouar Kbibech, presidente do CFCM.

O anúncio da reformulação da fundação, que existe apenas no papel desde 2005, foi feito no mesmo dia em que o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, recebeu líderes religiosos e das comunidades muçulmanas para tentar pôr um fim à polêmica sobre o uso do “burkini”. O traje de banho, usado por muçulmanas, foi proibido por mais de 30 cidades litorâneas francesas do Mediterrâneo e do Atlântico, incluindo Nice e Cannes. Na sexta-feira, o Conselho de Estado, mais alta corte administrativa do país, julgou os decretos municiais inconstitucionais, liberando o uso das vestes.

Presidente nomeado da fundação, o ex-ministro do Interior, Jean-Pierre Chevènement, reiterou o objetivo de lutar contra o fundamentalismo islâmico na França. Usando o exemplo do burkini, Chevènement afirmou que via mulheres andando nas ruas do Cairo, no Egito, ou de Argel, na Argélia, nos anos 40 e 50, com vestes ordinárias, e hoje são constrangidas a usarem véus islâmicos. "O burkini visa a definir um lugar para a mulher na sociedade que é claramente distinto e subordinado aos homens", argumentou. "Creio que podemos tolerá-lo, porque é lícito, mas não podemos aprová-lo."

Horas depois, o primeiro-ministro da França, Manuel Valls, afirmou que seu objetivo é combater o "novo totalitarismo". "Um novo totalitarismo surgiu, o totalitarismo islâmico, com uma vontade: fraturar as democracias e esmagar as liberdades individuais, instalar uma ordem social, uma sociedade de dominação dos homens sobre as mulheres", afirmou.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.