Paris diz que reconheceria governo rebelde sírio

Hollande defende formação de gabinete anti-Assad; na França, Patriota silencia

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2012 | 03h02

O presidente da França, François Hollande, pediu ontem que grupos de oposição ao regime de Bashar Assad formem um governo provisório, o qual seria reconhecido como legítimo representante da Síria por potências e países árabes. Hollande indicou que, caso os rebeldes constituam o gabinete paralelo, a região em que ele tiver sede pode vir a ser considerada "área liberada", sob proteção internacional.

Em visita a Paris, o chanceler Antonio Patriota deixou claras as diferenças entre as posições francesa e brasileira. Questionado ao lado do ministro do Brasil sobre a crise na Síria, o chanceler da França, Laurent Fabius, voltou a dizer que Paris estuda alternativas como a imposição de uma zona de exclusão aérea ou de uma "zona-tampão" dentro do território sírio. "Há diferentes fórmulas", disse.

Após ouvir o colega, Patriota defendeu um cessar-fogo e "um processo político que responda às aspirações do povo sírio e ao respeito das minorias". Sobre a zona de exclusão, foi dúbio. "Não sei se os ataques aéreos constituem a principal fonte de violência e de morte na Síria. Creio que os combates em terra continuam extremamente ameaçadores", afirmou o ministro. "Mas nós somos a favor de qualquer iniciativa que possa levar ao fim dos combates."

O chanceler brasileiro, mais tarde, recusou-se a comentar a disposição francesa em reconhecer e colocar sob proteção um governo rebelde na Síria.

Apoio externo. Hollande falou em formalizar os laços com a oposição síria durante uma conferência a diplomatas franceses reunidos em Paris. No evento, a mensagem foi clara: "Assad deve partir", "não há solução política com ele" e "deve-se intensificar os esforços para que a transição aconteça o mais rapidamente possível".

"A França pede à oposição síria que constitua um governo provisório, inclusivo e representativo, que possa se tornar o representante legítimo da nova Síria", afirmou. "Impulsionaremos nossos parceiros árabes a acelerar esse passo. E a França reconhecerá o governo provisório assim que ele for formado".

Para tanto, o presidente comprometeu-se a "auxiliar aqueles que organizam zonas liberadas no território sírios". O governo francês defenderia a região controlada pelos insurgentes de qualquer ameaça, a começar por aviões e helicópteros de Assad. "É a iniciativa das zonas-tampão proposta pela Turquia, na qual nós trabalhamos, em acordo com nossos mais próximos parceiros", revelou Hollande.

O problema da iniciativa é que uma zona de exclusão aérea precisa, em tese, passar pela aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Bloqueada pelos vetos da Rússia e da China a qualquer resolução, a instituição foi criticada pelo presidente. "Rússia e China impuseram seus vetos a três projetos de resolução que abririam o caminho a sanções", lembrou, protestando contra "o bloqueio do sistema", que "conduz ao seu contorno ou a sua impotência".

Nos bastidores do Conselho de Segurança, porém, diplomatas afirmam que a proposta da zona-tampão não tem chances de ser aprovada. "É muito difícil de pensar em uma zona de exclusão. Não é preciso só abater aviões, mas destruir toda a cadeia de comando, os sistemas de defesa. É uma medida tecnicamente muito difícil de aplicar", disse ao Estado um diplomata envolvido nas negociações em Nova York. "Quando se decreta uma zona de exclusão, é guerra."

Hollande também deu apoio à posição anunciada pelo presidente dos EUA, Barack Obama, na semana passada, segundo a qual o eventual uso de armas químicas na Síria levaria a uma intervenção militar. Para Hollande, se Assad apelar para seu arsenal clandestino, dará à "comunidade internacional uma causa legítima de intervenção direta".

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