Paris e sua política africana

Há mais de dois séculos, a França comemora, com grande festa, a Revolução Francesa, que teve início em 14 de julho de 1789 com uma revolta popular e a tomada de uma prisão simbólica, a Bastilha. Este ano, uma novidade: a França compartilhará sua festa nacional com 14 Estados da África Ocidental que foram colônias francesas e conquistaram sua independência graças ao general Charles de Gaulle, a partir de 1958.

Gilles Lapouge, gilles.lapouge@wanado.fr, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2010 | 00h00

Contingentes de 14 Exércitos africanos terão a honra de desfilar ao lado das unidades francesas na Champs Elysées. No entanto, essa participação desencadeou uma polêmica. Tanto a Federação Internacional dos Direitos Humanos como personalidades francesas e africanas se disseram chocadas.

Algumas das tropas africanas que desfilarão em Paris ainda estão manchadas com o sangue de opositores. Em 1999, no Congo, 353 pessoas foram mortas pelo Exército no massacre de Beach. No Togo, 500 morreram durante a eleição presidencial de 2005. Em Camarões, em 2008, o Exército matou cerca de cem amotinados. Nos países africanos, opositores se manifestaram. "Os militares desfilarão em Paris e, em seguida, retornarão para extorquir as populações africanas", afirmou o filósofo Elois Anguimate, da República Centro-Africana.

Nicolas Sarkozy não tem sorte com a África. No início de seu mandato, ele visitou a África francesa para anunciar que o tempo do neocolonialismo havia acabado. Uma iniciativa indispensável e louvável. Entretanto, em um discurso canhestro e absurdo, o presidente francês afirmou que os países da África "ainda não tinham entrado na História".

Essa frase estúpida foi recebida na África como uma ofensa. Demorou meses para a confiança se restabelecer entre Sarkozy e as ex-colônias. Este ano, o "cinquentenário da independência" da velha África francesa foi considerado por Paris uma bela ocasião para acabar com rancores e ódios de um passado tumultuado e controvertido.

Durante as duas últimas guerras, de 1914 a 1918 e a de 1939 a 1945, soldados africanos foram enviados à frente de batalha para defender o país que os oprimia. Essas duas guerras bárbaras mataram, feriram e mutilaram milhões de senegaleses, nigerianos e outros africanos.

Muitos desses soldados estão enterrados em cemitérios militares da França. Outros voltaram para seu país, com frequência mutilados ou inválidos para o restante de suas vidas. No entanto, como a França tem um "grande coração", ela paga uma pensão para esses infelizes. E quanto? Uma esmola. Em 2006, enquanto a um soldado francês ganhava 460 por mês por seus anos de guerra, um senegalês ou um argelino recebia 193 e um vietnamita 38.

Depois de anos de polêmica, o Estado francês decidiu corrigir a injustiça. Todos os que lutaram pela França deverão receber pensões equivalentes. Mesmo que a sua pele seja negra.Uma bela iniciativa. Nobre, justa e humana, além de não arruinar o orçamento francês.

Os velhos combatentes, de 1939 a 1945, estão agora com idades que variam entre 84 e 95 anos. Talvez não vivam muito além dos cem anos. Evidentemente, Paris poderia esperar que todos esses ex-combatentes morressem para aumentar sua pensão, mas não. Somos generosos ou não? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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