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Gilles Lapouge
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Paris procura uma mulher

A França busca uma mulher. Qualquer uma. Primeira condição: ela deve estar morta. Em segundo lugar, deve ter se distinguido a serviço da França e da humanidade. Uma "campeã" que mereceria ou o Prêmio Nobel de Literatura, o de Ciências ou o Prêmio Nobel da Paz. E o que faremos com ela, quando for encontrada? Nós a enterraremos. Não em qualquer lugar, mas no Panteão, o monumento que domina o Quartier Latin, não muito distante da Sorbonne, e está destinado a receber as cinzas dos "grandes homens".

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2013 | 02h13

O problema é exatamente esse: os "grandes homens" são quase sempre "grandes homens" e raramente "grandes mulheres". A lei que estabelece a igualdade entre homens e mulheres, que nos esforçamos para aplicar há alguns anos, não é absolutamente respeitada "pelos mortos".

Dos 71 corpos enterrados no Panteão, 69 são de homens. Aleatoriamente, podemos citar Mirabeau, Voltaire, Rousseau, Saint-Exupéry, Alain Fournier, Charles Péguy. Perdidas nessa corte viril, duas mulheres. E uma delas entrou ali às escondidas. Quase como contrabando. Trata-se de Madame Berthelot, que não se distinguiu por nenhuma grande proeza, mas por ser mulher do químico Marcellin Berthelot. E, como o casal jurou jamais se separar, nem mesmo na morte, a república respeitou esse voto e reuniu marido e mulher.

Belo gesto. Um pouco sexista, acham as feministas (e com razão). De fato, foi apenas por ser mulher de um grande homem que a senhora Berthelot teve direito a tal honra. Como se a existência de uma mulher dependesse do marido, de ser a sua sombra.

Felizmente, a outra mulher que está no Panteão deve tal honra a ela mesma. Trata-se da Madame Curie, física genial. Só que o desequilíbrio entre o alvoroço dos homens e a solidão das mulheres é chocante.

Esse é o problema que o presidente François Hollande pretende atacar de frente. E, para isso, nomeou o "Monsieur Panteão", cuja função é encontrar novos candidatos, com a esperança de que o próximo eleito seja uma mulher.

Algumas mulheres entusiasmadas já iniciaram consultas à internet. E foram recolhidas 30 mil propostas. Claro, as mulheres que responderam são, na maior parte, "feministas". Ora, essas mulheres têm um temperamento revolucionário. Não assusta, portanto, que na multidão prevaleça um grande número de mulheres subversivas, violentas e provocantes, pouco conformes à imagem da mulher, companheira e mãe, devota, meiga, respeitosa e, se possível, cristã e burguesa, que foi o modelo nos séculos 19 e 20.

Entre as eleitas na internet, encontramos Olympe de Gouges, a primeira feminista, também engajada na luta pela emancipação dos "negros", que morreu na guilhotina de Robespierre durante a Revolução Francesa. Uma boa candidata.

Infelizmente, ela não é muito conhecida. Uma outra mulher está bem posicionada. Louise Michel, que é mais conhecida, contudo, nas barricadas de Paris, em 1871, trazia sempre a bandeira negra dos anarquistas. Um pouco molesto para o Panteão.

Há também Simone de Beauvoir, a grande escritora, com certeza. Mas, também ela, tem alguns pequenos inconvenientes: como seu amante Jean-Paul Sarte, Simone era próxima da extrema esquerda. Além disso, recomendava e praticava o amor livre e o sexo em grupo.

Portanto, não é fácil eleger a próxima hóspede do Panteão. Talvez seja por isso que Monsieur Panteão, encarregado dessa escolha delicada, pretenda transportar para lá não uma mulher, mas duas, sem dúvida, para equilibrar as exaltações demoníacas de uma revolucionária com as virtudes silenciosas de uma dama tranquila. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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