Paris quer oficializar na ONU acordo com sírios

França se dispõe a amenizar texto após rejeição da Rússia; plano aceito por Damasco tem destino incerto, assim como intervenção militar

Andrei Netto, Correspondente - O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2013 | 02h01

PARIS - Com o apoio dos EUA e da Grã-Bretanha, a França apresentará ao Conselho de Segurança da ONU uma proposta de resolução que obriga o regime de Bashar Assad a entregar seu arsenal químico para desmantelamento. O texto é uma resposta à oferta formalizada na segunda-feira pela Rússia, que prevê o controle das armas em troca da suspensão do debate sobre a intervenção militar.

Após a ameaça da Rússia de vetar a versão original do texto, Paris se dispôs a amenizá-lo, mas mantendo a exigência de um compromisso "claro" do regime sírio de neutralizar seu arsenal químico. De acordo com o ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, o objetivo é obter o aval para "o controle e o desmantelamento" das armas químicas por parte da Organização de Proibição de Armas Químicas. Segundo o governo americano, a Síria dispõe de cerca de mil toneladas de agentes químicos que podem ser usados como armamento.

Além disso, uma investigação seria aberta pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) para apurar a responsabilidade pelo ataque do dia 21 na periferia de Damasco. Se aprovada, a resolução também incluiria o recurso legal à força por parte da comunidade internacional caso uma das cláusulas seja desrespeitada.

"É pela aceitação dessas condições precisas que nós julgaremos a credibilidade das intenções que foram expressas", sentenciou Fabius, referindo-se à proposta russa. O chanceler advertiu ainda que a iniciativa da Rússia, aceita pela Síria, "é muito difícil de ser aplicada" e por isso foi recebida com cautela pelo Ocidente. Na sua análise, há risco de que seja uma medida destinada a perturbar o voto no Congresso americano que autorizaria o presidente Barack Obama a lançar a ofensiva militar.

A proposta foi acertada quando Obama falou por telefone com o presidente francês, François Hollande, e com o primeiro-ministro britânico, David Cameron. Depois disso, os três países passaram a empregar um discurso afinado. "Aceitar a resolução faz parte dos elementos que nos permitirão determinar se trata ou não de uma oferta séria e verídica", afirmou Cameron.

Recusa. À noite, o chanceler russo, Sergei Lavrov, demonstrou contrariedade com a reação ocidental: "A proposição da França de aprovar uma resolução no Conselho de Segurança, conferindo às autoridades sírias a responsabilidade por uma possível utilização de armas químicas, é inaceitável."

Horas depois, Vladimir Putin disse esperar o fim das discussões sobre o eventual bombardeio da Síria. "Tudo isso só faz sentido e pode funcionar se ouvirmos que os EUA e todos os que os apoiam abandonaram a ideia de usar a força."

Para analistas internacionais ouvidos pelo Estado em Paris, o debate diplomático se assemelha a uma partida de pôquer, na qual a Rússia obteve uma primeira vitória na segunda-feira, causando ontem a reação do Ocidente. Para Jean-Pierre Maulny, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), a proposta de resolução francesa é uma resposta pouco factível neste momento.

"Não vejo como se poderia destruir apenas as armas químicas em meio a uma guerra civil. Seria impossível construir um parque industrial para destruir as armas neste momento", lembra Maulny. "Colocar essas questões em uma mesma resolução a torna fadada a um veto russo." Segundo Maulny, a hipótese de um acordo diplomático poderia servir para tornar a posição de Obama e Hollande mais confortável, já que a opinião pública dos dois países se mostra avessa ao conflito.

A opinião é compartilhada por Philippe Moreau Defarges, cientista político do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI), que faz uma ponderação: Obama e Hollande saem enfraquecidos até aqui. "A Rússia deu um golpe diplomático muito inteligente", entende. "Todos os países gritarão vitória, mas os vitoriosos são a Rússia e a Síria. Durante várias semanas nada vai acontecer, e a perspectiva de bombardeios foi por ora neutralizada."

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