Paris tem madrugada de violência

Morte de jovem que tentava fugir da polícia transforma periferia da capital francesa outra vez em praça de guerra

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

11 de agosto de 2009 | 00h00

A morte de Yacou Sanogo, 18 anos, entregador de pizza que fugia de uma blitz policial, causou novos confrontos na madrugada de hoje na periferia de Paris. Um ônibus turístico e pelo menos meia dúzia de veículos foram incendiados por jovens, que também lançaram pedras contra a polícia.Na madrugada de ontem, cerca de 40 jovens lançaram coquetéis molotov, atiraram contra policiais, queimaram 29 carros e quebraram as janelas de uma escola e de uma loja. Uma pessoa foi presa.Os distúrbios ocorreram em Bagnolet, no Departamento de Seine-Saint-Denis. Para fugir de uma blitz policial, Sanogo acelerou sua moto e chocou-se contra um muro. A morte ocorreu pouco depois das 21 horas de domingo, na esquina das Avenidas Stalingrad e Raspail, em Bagnolet, cidade de 34 mil habitantes a leste de Paris. Sanogo chegou a ser atendido em um pronto-socorro, mas não resistiu a um "traumatismo torácico profundo", conforme detalhou, em entrevista, o procurador do caso, Philibert Demory. A confirmação da morte - e a incerteza sobre suas circunstâncias - detonou a violência na região, situada no mesmo departamento onde ocorreram rebeliões em 2005 e 2006. Após a morte de Sanogo, os jovens depredaram tudo o que viram pela frente: abrigos de ônibus, telefones públicos e placas de sinalização. A polícia respondeu com balas de borracha e bombas de efeito moral. Apesar da violência, o Ministério do Interior disse que não houve feridos. CALMANa manhã de ontem, as carcaças de automóveis incineradas ainda cheiravam a cinzas. O clima na região era de calma, até que um cinegrafista de uma rede de TV de Paris foi agredido no rosto por uma dupla de jovens que passou em uma motocicleta. A presença de agentes da polícia não impediu a hostilidade contra a imprensa. Na comunidade, supostas testemunhas - que pediram para não ser identificadas - afirmaram que Sanogo teria sido derrubado por uma viatura da polícia. A versão não é endossada pelo procurador do caso, que se baseou em informações da perícia científica. "Até aqui, nada permite concluir que houve um impacto entre a viatura e o jovem", disse Demory. A nova onda de violência na capital francesa fez voltar à tona a preocupação com a tensão entre a polícia e os jovens na periferia de Paris. Brice Hortefeux, ministro do Interior, convocou uma reunião entre associações e líderes políticos para o dia 31, quando serão discutidas medidas para reaproximar as comunidades carentes das forças de ordem. Esforçando-se para demonstrar transparência, Hortefeux garantiu que os principais elementos da investigação serão publicados tão logo haja conclusões precisas. "Vamos trazer à luz as circunstâncias da morte deste jovem", disse o ministro. PROTESTOSDe acordo com Hortefeux, Sanogo "é conhecido dos serviços de polícia, com uma ficha corrida desfavorável". Falando à rádio RTL, de Paris, o prefeito de Bobigny, o comunista Marc Everbecq, disse temer que os protestos continuem nos próximos dias. "Nós compreendemos a mensagem de emoção que se seguiu à morte de um companheiro. Agora, é preciso tempo de recolhimento", pediu Everbecq.

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