Parisi, o candidato que põe em xeque a política no Chile

Pesquisas indicam que economista pode passar a governista Evelyn Matthei e evitar a vitória de Bachelet no 1º turno

ALEJANDRO TAPIA, ESPECIAL PARA O ESTADO , SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2013 | 02h04

Chamam-no de o "economista do povo", embora viva numa casa estilo bunker no bairro mais rico de Santiago, que foi batizada de "Neverland". Ali, Franco Parisi - o candidato mais badalado do Chile, que virou fator-chave nas eleições presidenciais de 17 de novembro - tem uma pista de Go Kart e uma "creche" para seus filhos gêmeos de 6 anos.

Ele está em terceiro lugar nas pesquisas, com 10% das intenções de voto. No entanto, sua candidatura tem causado tanto alvoroço que ameaça o futuro político de Evelyn Matthei, aspirante oficialista de centro-direita, que tem 14%. Além disso, seus votos podem impedir que Michelle Bachelet, de centro-esquerda, vença no primeiro turno. Parisi, de 46 anos, é o azarão da eleição, que, pela primeira vez, não terá o voto obrigatório. Isto faz o comparecimento ser imprevisível, embora a ex-presidente Bachelet seja a grande favorita, com 47% das intenções de voto.

Parisi, definido por alguns como um "populista" bem apessoado, jovem e com boa oratória, insiste que "vai para o segundo turno". Até o ano passado, ninguém o conhecia, mas um programa de rádio e TV sobre economia catapultou sua candidatura. "Parisi é como Fernando Collor de Mello, mas sem o apoio da direita", diz Patricio Navia, analista político.

"Não sou filho de nenhum dirigente, nem senador, nem deputado. Sou apenas um vizinho da rua e um professor que quer ser presidente", disse o candidato, filho de um ex-capitão do Exército. Parisi concluiu o secundário na Escola Militar, estudou engenharia comercial na Universidade do Chile e fez doutorado em Economia na Universidade de Geórgia, nos EUA. Ele passou a infância em um bairro pobre de Santiago e conseguiu sua fortuna na Bolsa de Valores.

Na semana passada, ele apresentou seu programa de governo, que inclui a convocação de uma Assembleia Constituinte, descriminalizar o aborto em caso de estupro, aumentar o imposto corporativo de 20% para 26% e ampliar a gratuidade nas universidades. Foi o debate sobre a educação que lhe deu notoriedade. No Chile, as manifestações para exigir gratuidade no ensino superior marcaram a agenda política durante o governo de Bachelet.

Segundo Navia, o fenômeno Parisi se explica por quatro fatores: "a fragilidade da candidatura da direita, ele não estar marcado pela sombra de Pinochet, saber comunicar-se bem pela TV e a rejeição aos partidos políticos tradicionais". Para alguns, contudo, trata-se de um novo-rico, alguém sem experiência política que enriqueceu no setor educacional.

Na semana passada, Matthei o acusou de ter dívidas de US$ 200 mil por demissões não pagas da época em que administrou duas escolas secundárias. Isso caiu como uma bomba, mas revelou também o desespero da adversária.

Parisi é apoiado pelos jovens, por setores de baixa renda e por pessoas ambiciosas da classe média. "Ele tem respaldo de quem se sente abandonado pela política tradicional", diz a analista Lúcia Dammert. Os chilenos estão insatisfeitos com o presidente Sebastián Piñera, cuja aceitação não passa de 30%. Nos primeiros seis meses, a economia cresceu 4,3%.

Os críticos de Parisi, porém, lembram que, alguns anos atrás, ele teria traído a mulher com a cunhada de um ator chileno, disputa que terminou em briga num posto de gasolina. "Quer gostem ou não, o Chile vai mudar", prometeu o candidato no debate da semana passada.

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