Parlamentar árabe e mulher mais odiada de Israel

Haneen Zoabi, de 43 anos, candidata à reeleição na Knesset, é uma pedra no sapato dos extremistas judeus

LARRY DERFNER - FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2013 | 02h01

Sentada no escritório da campanha, cheirando a bolor, perguntei a Haneen Zoabi, representante árabe da Knesset (o Parlamento israelense), como é ser a deputada mais odiada do país. "Isso não me afeta", respondeu. É fácil acreditar. Haneen gosta de estar no olho do furacão. Portanto, embora seja uma figura odiada pela maioria dos judeus, é amada pela minoria árabe.

Haneen busca a reeleição na terça-feira. Mas, para chegar até esse ponto, a luta foi árdua. A direita do Knesset procurou desqualificá-la, afirmando que ela havia "minado os alicerces do Estado de Israel" e "incitado" a população contra o governo.

Apenas uma decisão da Suprema Corte, em dezembro, derrubou a proibição. Uma pesquisa do jornal Haaretz indicou que sua vitória na Justiça pode permitir que ela conquiste mais uma cadeira para seu pequeno partido, composto só por árabes.

Haneen, de 43 anos, que vem de uma destacada família da sociedade árabe-israelense, tem uma posição critica ao governo, que comete sistematicamente injustiças contra a minoria árabe. Certa vez, quando um entrevistador da TV israelense questionou se ela poderia fazer um comentário positivo sobre Israel, ela sorriu e disse: "Não posso".

Por outro lado, ela não tem nada a ver com a sinistra ameaça à existência de Israel. Ela não defende o terrorismo nem a expulsão dos judeus. Haneen representa uma minoria de cidadãos de segunda classe que, com raras exceções, não são violentos. Ela rejeita Israel como país que se fundamenta na "limpeza étnica" dos palestinos. Defende o direito de milhões de refugiados e seus descendentes regressarem a Israel e quer transformar o país, um "Estado explicitamente judeu", com todas as suas discriminações, em um "Estado de todos os seus cidadãos", totalmente igualitário.

Guinada à direita. Não é apenas Haneen que está sendo atacada. Os árabes-israelenses, que são 21% da população de 8 milhões de habitantes de Israel, tornam-se cada vez temidos, olhados com desconfiança e marginalizados pela sociedade tradicional judia. A guinada para a direita dos israelenses, desde a Intifada de 2000, principalmente durante os quatro anos do governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, afetou a coexistência em Israel.

Nada menos do que 67% dos judeus israelenses nem sequer entram numa cidade ou aldeia árabe-israelense, concluiu, no ano passado, o professor Sammy Smooha, da Universidade de Haifa, um dos mais importantes pesquisadores das atitudes árabe-israelenses.

É quase certo que Netanyahu vencerá e fará um governo ainda mais nacionalista do que o atual. O Likud, seu partido, concorre numa coalizão com o Yisrael Beiteinu, do ex-chanceler Avigdor Lieberman, ex-membro do movimento racista Kach, que declarou esperar que, algum dia, os árabes sejam executados.

Ao mesmo tempo, o astro em ascensão da campanha é Naftali Bennett, que defende a anexação da maior parte da Cisjordânia a Israel e a restrição da possibilidade de a Suprema Corte moderar o governo e o Exército. Haneen é um barômetro desse espírito antagônico. Ela se tornou a inimiga número 1 no dia 31 de maio de 2010, como ativista a bordo do Mavi Marmara, navio fretado por uma ONG de ajuda muçulmana turca à frente da flotilha que desafiou o bloqueio a Gaza.

Comandos israelenses desarmados entraram no navio e foram atacados com bastões e barras de ferro. Em seguida, soldados israelenses armados invadiram o navio e balearam nove turcos. Uma comissão da ONU entrevistou mais de cem ativistas e concluiu que "vários passageiros foram feridos ou mortos enquanto tentavam se proteger".

Israel minimizou o relatório e a população foi convencida de que os comandos agiram em defesa própria. O Exército israelense, que confiscou horas de vídeo do incidente, divulgou um único segmento que mostra a multidão atacando os comandos desarmados.

Essa é a única imagem que os israelenses têm do incidente - e foi o que determinou o clima que Haneen encontrou ao voltar para casa. Chamada de traidora, ela perdeu seus privilégios de deputada no Knesset. Certa vez, enquanto discursava em plenário, Anastassia Michaeli, do partido de extrema direita de Lieberman, avançou contra ela berrando e teve de ser contida por seguranças.

Os ataques continuaram. Quando ela foi à Suprema Corte, em dezembro, teve de ser protegida pela polícia contra radicais de direita.

A política israelense tornou-se inóspita para a minoria árabe. Nos dois últimos anos, colonos judeus têm incendiado mesquitas e igrejas. Além disso, foi aprovada uma lei que impede as prefeituras árabes e outras instituições mantidas pelo Estado de consagrar o termo árabe "nakba", de 1948, com o sentido de "catástrofe", para designar o exílio e a destruição durante a Guerra de Independência de Israel - e outras leis contra as minorias. Há até mesmo um projeto que impede as mesquitas de usarem alto-falantes no chamado à oração.

Inicialmente, Netanyahu apoiou o projeto, mas alguns moderados o convenceram a mudar de ideia. Haneen percebe um aumento do "orgulho nacional árabe" na campanha. No entanto, o racismo também cresceu. "Essa campanha tem sido mais racista do que as anteriores", disse. "Por outro lado, do ponto de vista político, nenhum dos partidos sionistas fortes apresenta uma alternativa a Netanyahu."

Segundo Smooha, vem sendo registrado um comparecimento cada vez menor dos árabes-israelenses nas eleições nacionais, porque são cada vez mais marginalizados. O que não surpreende. Não só Haneen Zoabi, mas a minoria árabe, em geral, encontra uma recepção muito fria no país. E com os partidos de direita cada dia mais radicais e populares, é provável que a agressividade aumente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É EX-COLUNISTA DO 'JERUSALEM POST' E CORRESPONDENTE DE VÁRIOS VEÍCULOS AMERICANOS EM ISRAEL

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