AFP PHOTO / RICHARD TOWNSHEND /UK Parliament
AFP PHOTO / RICHARD TOWNSHEND /UK Parliament

Parlamentar britânico é morto a facadas em encontro com eleitores; caso é tratado como terrorismo

Ataque ocorreu durante uma reunião com eleitores na Igreja Metodista de Belfairs; polícia prendeu homem de 25 anos e destacou 'potencial motivação ligada ao extremismo islâmico'

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 11h49
Atualizado 15 de outubro de 2021 | 21h10

LONDRES - O assassinato do parlamentar conservador David Amess, de 69 anos, que morreu nesta sexta-feira, 15, após ser esfaqueado várias vezes em uma reunião  aberta para seus constituintes no sudeste da Inglaterra, foi declarado como um incidente terrorista. Em um comunicado, a polícia metropolitana informou que o vice-comissário assistente Dean Haydon havia declarado formalmente o incidente como terrorismo. A investigação inicial revelou “uma potencial motivação ligada ao extremismo islâmico”, disse a força.

Um homem de 25 anos, que se acredita ser um britânico de ascendência somali, está sob custódia suspeito de assassinato. Fontes disseram ao jornal britânico The Guardian que ele tem os mesmos detalhes de alguém que já havia sido encaminhado para o esquema Prevent, o programa oficial para aqueles que estão sob risco de radicalização.

Amess era um representante do Partido Conservador, mesma legenda do primeiro-ministro Boris Johnson. Ele recebia eleitores em uma igreja em seu distrito eleitoral, Leigh-on-Sea, a leste de Londres, no momento do atentado. Casado e com cinco filhos, foi eleito pela primeira vez ao Parlamento em 1983, e nomeado cavaleiro pela rainha Elizabeth II por seus serviços públicos em 2015. O site do parlamentar lista como seus principais interesses o "bem-estar animal e questões pró-vida".

O ataque aconteceu por volta do meio-dia (8h em Brasília), enquanto o parlamentar atendia presencialmente eleitores - em um processo chamado no Reino Unido de "constituency surgery" - na Igreja Metodista de Belfairs. Um homem foi detido pela polícia de Essex e uma faca foi apreendida com ele. Amess chegou a ser atendido por serviços de emergência no local, mas não resistiu aos ferimentos.

Apesar da prisão do suspeito ter sido realizada pela polícia de Essex, o serviço de contraterrorismo britânico assumiu a investigação sobre a morte do parlamentar na tarde desta sexta-feira.

A identidade do suspeito não foi confirmada pelas autoridades, contudo, uma fonte do governo britânico citada em anonimato pela BBC afirmou que, de acordo com as apurações iniciais, o suspeito seria um cidadão britânico de origem somali.

Paul Gardiner, um barbeiro de 41 anos, cujo estabelecimento fica a cerca de 250 metros do local do ataque, explicou o deslocamento da polícia à France-Presse. "Há alguns helicópteros sobrevoando o local e havia uma ambulância", disse ele. “Eu estava dirigindo para o trabalho e estacionei por volta das 12h30 (8h30 em Brasília), havia muitos carros da polícia passando por lá”, acrescentou.

Outra testemunha, Ashley Curtis, um homem de 49 anos que mora a 200 metros da igreja, disse que duas horas depois a rua ainda estava bloqueada por carros de polícia e uma ambulância.

"Ninguém poderia pensar que algo assim aconteceria por aqui", disse ele à France-Presse. "David Amess é um cara bom. Eu o conheço e me relacionei com ele no passado", explicou ele, considerando que o agressor teve que guardar muito rancor para entrar na igreja metodista enquanto o parlamentar recebia pessoas e realizar o atentado.

Classe política reage ao assassinato do parlamentar

Logo após a confirmação pelas autoridades da morte do parlamentar, representantes do Partido Conservador e do Partido Trabalhista, principais legendas da política inglesa, expressaram pesar pelo crime. Bandeiras tanto do Parlamento quanto de Downing Street - sede do governo britânico - foram colocadas a meio-mastro, sinalizando luto.

No fim da tarde (começo da tarde em Brasília), o primeiro-ministro britânico divulgou um vídeo em suas contas nas redes sociais, em que afirma que a morte de Amess enche o coração de todos de "choque e tristeza", e que o Reino Unido perdeu um de seus políticos mais gentis. "David era um homem que acreditava apaixonadamente neste país e em seu futuro. Nós perdemos hoje um bom servidor público e muito amado amigo e colega. Nossos pensamentos hoje estão principalmente direcionados a sua esposa, filhos e família", disse Johnson, que também destacou a atuação parlamentar de Amess em temas como a proteção ao direito dos animais e temas sociais.

Ex-primeiros-ministros conservadores também se manifestaram sobre a morte do parlamentar pelas redes sociais. David Cameron, que ocupou o cargo entre 2010 e 2016, afirmou que o assassinato de Amess era "a notícia mais devastadora, horrível e trágica". "David Amess era um homem gentil e totalmente decente - e ele era o parlamentar mais comprometido que você poderia esperar conhecer. Palavras não podem expressar o horror do que aconteceu hoje. Agora, meu coração está com a família de David", escreveu.

Sucessora de Cameron, Theresa May (primeira-ministra entre 2016 e 2019) também destacou a decência do Amess ao lamentar a morte do parlamentar e afirmou se tratar de "um dia trágico para nossa democracia".

Figuras ligadas ao Partido Trabalhista, rival histórico dos Conservadores, também prestaram suas homenagens ao parlamentar. O líder do partido, Keir Starmer, solidarizou-se com a família de Amess e destacou o reconhecimento conquistado por ele entre os parlamentares.

"Acima de tudo, hoje estou pensando em David, no servidor público dedicado que ele foi e no profundo impacto positivo que ele teve para as pessoas que representou. Guiado por sua fé, David tinha um profundo senso de responsabilidade, que testemunhei em primeira mão no Parlamento. Seu catolicismo era central em sua vida política e ele era altamente respeitado em todo o Parlamento, dentro da igreja e na comunidade cristã."

 

Violência contra parlamentares no Reino Unido

O uso de violência contra políticos britânicos é raro, mas a preocupação aumentou nos últimos anos com a polarização cada vez maior na política do país. Várias pessoas foram presas nos últimos anos por ameaçarem legisladores britânicos - e um homicídio foi registrado recentemente.

O assassinato de Amess acontece cinco anos depois da morte de outro parlamentar, a deputada trabalhista Jo Cox, assassinada com tiros e golpes de faca de um ativista neonazista enquanto atendia a eleitores, em 2016, uma semana antes do referendo do Brexit ser votado.

A Fundação Jo Cox comentou o caso e se disse "horrorizada" ao ouvir a notícia do ataque a Sir David Amess. "Pensamos nele, em sua família e em seus entes queridos neste momento angustiante", disse a instituição em um comunicado. O viúvo da deputada, Brendan Cox, também se manifestou, e afirmou que "atacar nossos representantes eleitos é um ataque à própria democracia. Não há desculpa ou justificativa. É a coisa mais covarde que pode haver".

Dois outros legisladores britânicos foram atacados nas últimas duas décadas em meio a reuniões abertas. Em 2010, o legislador trabalhista Stephen Timms foi esfaqueado no estômago por um estudante que teria  adquirido ideias radicais após manter contato on-line com um pregador ligado a Al-Qaeda; e o liberal democrata Nigel Jones e seu assessor Andrew Pennington, em 2000, foram atacados por um homem empunhando uma espada. Pennington foi morto e Jones ferido, no ataque que ocorreu em Cheltenham, Inglaterra. /AFP, REUTERS e AP

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