Parlamentares planejam um ultimato a Blair para que deixe o poder

Um grupo de parlamentares trabalhistas britânicos quer dar um ultimato ao primeiro-ministro, Tony Blair, para que apresente, até o fim de julho, um cronograma para a transferência do poder para seu sucessor.A carta, assinada por 50 deputados até agora, inclusive antigos ocupantes de altos cargos em governos anteriores de Blair, pede à direção do partido que assuma o comando no assunto se o primeiro-ministro se recusar a fazê-lo.Enquanto isso, em entrevista ao canal GMTV, o ministro de Economia e possível sucessor de Blair, Gordon Brown, afirmou neste domingo que os trabalhistas não podem ignorar o "aviso" dos eleitores e que o partido "deve se renovar".Brown se referia à derrota sofrida pelos trabalhistas nas eleições municipais realizadas na quinta-feira. O resultado, transportado para um pleito nacional, colocaria o trabalhismo na terceira posição, depois de conservadores e liberais democratas.Brown explicou que, como Blair abdicou de disputar um quarto mandato, está claro que haverá "uma transição para um novo líder, quem quer que seja".A reivindicação também aparece na carta dos rebeldes trabalhistas, que lembram que "um requisito anterior a uma mudança ordenada (à frente do governo) é um calendário claro e procedimentos transparentes".ComplôO ultimato dos deputados é visto pelos aliados do primeiro-ministro como um complô para derrubar o líder, eleito democraticamente há um ano, e para dar uma nova direção ao partido, uma espécie de retorno ao velho trabalhismo.Alguns parlamentares demonstram descontentamento com as hesitações do próprio Brown, que, segundo eles, não se atreve a enfrentar diretamente o premier e parece recuar no último momento várias vezes.A prudência é compreensível, justificam aliados de Brown. O ministro da Economia não deseja herdar um partido trabalhista em guerra civil.Mas os rebeldes ressaltam que, ao desgaste com a impopular Guerra do Iraque, em que morrem cada vez mais soldados britânicos, se somam os últimos escândalos, que contribuem para aumentar a associação dos trabalhistas à "corrupção" e à "ineficácia".Entre os escândalos está a suposta oferta de títulos da nobreza aos empresários multimilionários que cercam o primeiro-ministro, cada vez mais afastado das bases tradicionais do trabalhismo, como os sindicatos. A redução das liberdades civis sob o pretexto da guerra antiterrorista também é criticada pelos setores progressistas.ReformulaçãoEncurralado pelos escândalos e resultados eleitorais ruins, Blair tentou impor sua autoridade na sexta-feira com uma profunda reformulação do governo. O primeiro-ministro descartou, sem piedade, fiéis colaboradores como o ministro de Exteriores, Jack Straw, e o titular do Interior, Charles Clarke.Straw caiu em desgraça supostamente por sua aproximação crescente de George Brown. Mas, de acordo com o The Independent on Sunday, também pesou contra ele ter chamado de "loucura" um eventual ataque nuclear contra o Irã.Blair já afirmou algumas vezes que, no resto de seu mandato, quer aprofundar o programa de reformas dos serviços públicos, como a saúde e a educação. Nessas áreas, o primeiro-ministro quer introduzir mais características de mercado, para irritação do trabalhismo tradicional.O ex-secretário de Estado de Saúde, Frank Dobson, um dos líderes dos deputados rebeldes, declarou neste domingo à BBC que "enquanto Blair continuar sendo primeiro-ministro, o Partido Trabalhista não poderá se recuperar".

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