Parlamento dirigido por crianças é exemplo no Congo

Com quase nenhuma supervisão adulta, iniciativa lançada pela ONU em 2002 promove justiça em um dos países mais pobres do mundo

Stephanie McCrummen, THE WASHINGTON POST, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2013 | 00h00

O dia já havia sido longo quando uma mulher entrou no chamado Parlamento Infantil, em Goma. Ela foi atendida por um garoto magro de 14 anos, Eddy Musoke - o Honorável Eddy, para seus colegas parlamentares -, que, com a seriedade de um advogado, anotou sua queixa. "Ela acusa o marido de ser um pai irresponsável", explicou o menino.O Congo é um do países mais ricos da África em recursos minerais, mas seu povo está entre os mais pobres do planeta. Com as instituições prejudicadas por décadas de corrupção e negligência, um dos poucos órgãos que promovem justiça é um parlamento dirigido por crianças, voltado a ajudar outras.Lançada em 2002, essa iniciativa da ONU ganhou vida própria, com 150 membros e pouca supervisão adulta no dia-a-dia. "Atendemos principalmente crianças que acusam os pais de não cuidar delas", disse Arthur Omar Kayumba, de 16 anos, "vice-presidente", como está no papel sobre sua mesa. "Este ano, tivemos mais de 105 casos", desde um menino obrigado a trabalhar para uma milícia a uma mulher acusando o marido de vender ilegalmente as moradias da família.Após registrar o caso, o funcionário convoca as partes para que cada um possa apresentar sua versão da história. Embora o Parlamento não emita decisões judiciais, ele oferece recomendações apoiadas na lei congolesa e nas convenções da ONU sobre os direitos da criança. Segundo Musoke, a maioria dos adultos respeita o órgão. "Se não, chamamos a polícia especial."Os primeiros funcionários foram escolhidos por professores, com base em históricos escolares. Agora, são eleitos pelos parlamentares. Os membros devem ter até 17 anos. Adultos podem ser conselheiros honorários. "Se alguém tem idéias de dominar ou manipular o Parlamento, precisa ir embora", explica Kelvin Batumike, que, com 20 anos, recebeu o título de conselheiro e já pensa em uma carreira política. "Quero ser presidente", afirmou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.