Parlamento dividido pode resultar em três perdedores na Grã-Bretanha

Em caso de partilha do Legislativo em três forças e coalizão com liberais, chanceler trabalhista seria nome forte para liderar o governo

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2010 | 00h00

A quatro dias da eleição que definirá o novo primeiro-ministro da Grã-Bretanha, uma conjunção de fatores pode fazer com que a votação de quinta-feira tenha "três derrotados". Com a perspectiva cada vez mais concreta de que o Parlamento acabe dividido por trabalhistas, conservadores e liberais, a hipótese de que nem Gordon Brown, nem David Cameron, nem Nick Clegg seja escolhido premiê se tornou uma possibilidade real.

O cenário de começou a ser avaliado pela imprensa na última semana. A confirmação depende da divisão do legislativo em três forças políticas e do veto dos liberais à continuidade de Brown no poder. O primeiro quadro vem se desenhando há duas semanas em todas as sondagens de opinião realizadas desde a ascensão de Clegg.

Amparada em pesquisas eleitorais realizadas nos últimos 20 dias, a organização não-governamental independente UK Polling Report concluiu que, pela média das pesquisas, Cameron está na frente, com 34% das intenções de voto. Clegg é o segundo, com 29% da preferência, deixando Brown em terceiro, com 27% de apoio. Se essa conjuntura se concretizar, o Partido Conservador obterá a maior bancada, com 265 congressistas, contra 260 dos trabalhistas. Liberais somariam 94 cadeiras.

A partir das estatísticas, restam duas alternativas: a primeira, um governo conservador de minoria, que enfrentaria dura resistência da oposição no legislativo; a segunda, uma coalizão entre trabalhistas e liberais - chamada de Lab-Lib pelos ingleses -, liderada pelos primeiros. Nick Clegg afirmou que poderia se aliar aos trabalhistas, mas não com Brown.

A posição de Clegg provoca até mesmo especulações sobre quem poderia, em caso de coalizão Lab-Lib, ser o premiê, já que, pelo sistema eleitoral britânico, o partido que assume o poder pode substituir seu líder sem necessidade de novas eleições. Três nomes são recorrentes: David Miliband, de 44 anos, atual secretário das Relações Exteriores, seu irmão, Ed Miliband, 41 anos, secretário de Energia e Mudanças Climáticas, e Alan Johnson, secretário do Interior.

Dos três, David é o nome mais lógico. Entre o final de 2009 e o início de 2010, chegou a ensaiar a derrubada de Brown e a tomada do controle do Partido Trabalhista, sem sucesso. "David Miliband seria uma alternativa", afirma Christopher Bickerton, cientista político da Universidade de Oxford. "Não é muito conhecido. Tem fama de competente e ares de funcionário público. Não acho que ele capture muito a atenção do eleitorado, mas é alguém popular no partido."

Além do desempenho crescente de Cameron, o maior obstáculo para a escolha de um "quarto homem" seria a falta de tradição britânica em governos de coalizão. Para evitá-lo, o Partido Conservador faz campanha batendo pesado na fraqueza de uma eventual aliança Lab-Lib. Essa análise é refutada por especialistas como Françoise Boucek, pesquisadora do Departamento de Política da Londres University. "Várias democracias competitivas na Europa já provaram que coalizões não são nem instáveis, nem pouco efetivos", ensina. "Governos de coalizão são mais abertos, estáveis e marcados por políticas mais moderadas."

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