US MARINE CORPS/ EFE
Foto divulgada pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA mostra os fuzileiros navais em observação no complexo da embaixada dos EUA em Bagdá, no Iraque, nesta sexta, 3 de janeiro de 2020 US MARINE CORPS/ EFE

Parlamento do Iraque aprova retirada de tropas americanas do país

Primeiro-ministro iraquiano pediu 'medidas urgentes' para forçar saída de exércitos do país

Erin Cunningham, The Washington Post

05 de janeiro de 2020 | 12h44

BAGDÁ (AP) E ISTAMBUL - O Parlamento do Iraque aprovou uma medida para expulsar as tropas americanas do país neste domingo, 5, em reação ao ataque que matou o general iraniano Qassim Suleimani. Os legisladores pedem ao governo iraquiano para acabar com o acordo pelo qual Washington enviou forças para o Iraque há mais de quatro anos para ajudar na luta contra o grupo Estado Islâmico.

A retirada de cerca de 5,2 mil soldados americanos pode aleijar a luta contra o Estado Islâmico e permitir o seu ressurgimento. A maioria dos 180 parlamentares presentes votaram a favor da resolução. Ela foi apoiada pela maioria dos membros xiitas do Parlamento, que possuem a maioria das cadeiras. Muitos legisladores sunitas e curdos não apareceram para a votação, aparentemente porque eles se opõem à abolição do acordo.

O primeiro-ministro iraquiano Adel Abdul Mahdi havia pedido ao parlamento que tomasse "medidas urgentes" para forçar a retirada de tropas estrangeiras.

Em discurso no Parlamento, ele recomendou que o governo estabelecesse "em nome da soberania nacional" um calendário para a retirada das tropas estrangeiras, incluindo os integrantes da coalizão liderada pelos EUA para combater o Estado Islâmico. "O que aconteceu foi um assassinato político", disse Abdul.

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Abdul Mahdi disse que tropas estrangeiras estavam no Iraque para treinar suas forças e ajudar a atacar os remanescentes do Estado Islâmico "sob a supervisão e aprovação do governo iraquiano".

"O Iraque não pode aceitar isto", disse ele. "Nenhuma tropa estrangeira está autorizada a conduzir suas próprias ações militares dentro do Iraque."

 declaração do primeiro-ministro vem depois de um anúncio da coalizão liderada pelos EUA, que afirmou ter parado sua missão de treinamento no Iraque devido a "repetidos ataques com foguetes nos últimos dois meses" da milícia apoiada pelo Irã, Kataib Hezbollah. Agora a coalizão se concentraria em proteger suas bases de ataques, informou o comunicado. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) anunciou neste sábado, 4, a suspensão de seus programas de treinamento.

Enquanto isso, o Irã disse neste domingo, 5, que limitaria sua resposta ao ataque contra Suleimani a alvos militares dos EUA.

"A resposta com certeza será militar e contra locais militares", disse Hossein Dehghan, o conselheiro militar do líder supremo do Irã, em entrevista à CNN. "A única coisa que pode acabar com este período de guerra é os americanos receberem um golpe igual ao golpe que infligiram".

Os comentários de Deghan foram divulgados após o presidente Donald Trump ameaçar no Twitter atacar "52 locais iranianos... alguns de nível muito alto e importante para o Irã e para a cultura iraniana" caso Teerã retalie contra os americanos na região. O Irã tem 24 locais na lista da Organização das Nações Unidas (ONU) de patrimônios culturais mundiais.

Dehghan disse que, se Trump levar a cabo suas ameaças, "nenhum militar americano, nenhum centro político americano, nenhuma base militar americana, nenhum navio americano estará seguro".

Na Arábia Saudita, a embaixada dos EUA lançou um alerta de segurança neste domingo aconselhando os americanos sobre "o aumento do risco de ataques com mísseis e drones" contra alvos civis e militares.

Os Estados Unidos culparam o Irã por um duro ataque de drones e mísseis às instalações petrolíferas do estado saudita em setembro, uma ação que derrubou metade da produção de petróleo do país.

No Irã, o corpo de Suleimani foi transportado em um caixão com a bandeira do Irã para a cidade de Ahvaz, no sudoeste do país, após uma procissão fúnebre em Bagdá e nas cidades xiitas gêmeas do Iraque, Karbala e Najaf. Mais tarde, o corpo foi levado para a cidade de Mashhad, lar do santuário do Imã Reza, uma figura venerada no islamismo xiita. O Irã é governado por uma teocracia xiita.

Imagens de Ahvaz transmitidas pela televisão estatal iraniana mostraram dezenas de milhares de pessoas vestidas com capas negras, agitando bandeiras e entoando slogans religiosos. O canal também divulgou um vídeo de Suleimani mais jovem recitando poesia persa. A Agência de Notícias da República Islâmica do Irã descreveu a cena como "gloriosa".

"Todas as escolas e empresas estão fechadas hoje — ele era popular no Irã e ficou ainda mais popular agora", disse Farnaz, de 33 anos, engenheira de computação e residente de Ahvaz. Como outros iranianos contactados pela reportagem, ela falou na condição de que seu nome completo não fosse usado para que pudesse falar livremente.

"As pessoas aqui se sentem inseguras e ameaçadas por outros países há décadas, por isso viam Suleimani como um comandante importante e carismático que estava protegendo nossa segurança", disse ela.

Ainda assim, Ahvaz e outras cidades da província de Khuzestan, rica em petróleo, lar de uma grande minoria étnica árabe, têm um histórico de revolta contra o governo. Em novembro, quando protestos sobre os cortes nos subsídios de combustível dominaram as cidades iranianas, as forças de segurança lançaram uma repressão brutal e abateram dezenas de manifestantes em Mahshahr, ao sul de Ahvaz. No domingo, um vídeo não verificado postado online mostrou jovens mascarados incendiando um cartaz em comemoração a Suleimani.

A procissão em homenagem ao comandante morto continuará na segunda-feira para a cidade sagrada de Qom e seguirá para a capital, Teerã, onde o Líder Supremo Ali Khamenei liderará as orações na cerimônia. Suleimani será enterrado na sua cidade natal, Kerman, na terça-feira. /COM INFORMAÇÕES DA AP

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Trump diz que já tem 52 alvos no Irã para bombardeios se o país atacar americanos

General iraniano declarou que 'duvida' que o presidente dos EUA tenha 'coragem' para realizar ataque ao país

Redação, O Estado de S. Paulo

04 de janeiro de 2020 | 20h34
Atualizado 05 de janeiro de 2020 | 10h53

WASHINGTON - O presidente Donald Trump disse no último sábado, 4, que os Estados Unidos já possuem 52 alvos para futuros bombardeios no Irã, caso o país insista em vingar o assassinato do comandante da Guarda Revolucionária Qassim Suleimanimorto na última sexta-feira, 3. As declarações foram feitas pelo Twitter.

Trump voltou a citar supostos ataques planejados por Suleimani como uma das justificativas pelas ações da última sexta, no aeroporto de Bagdá. Na declaração, o presidente disse que "por muitos anos, o Irã nunca foi nada além de um problema". Ele também afirmou que já tem "52 alvos iranianos na mira", caso o país continue com suas ameaças de vingança.

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O presidente dos EUA advertiu que irá atacar o Irã "rapidamente e de forma muito dura", se o Teerã investir contra pessoas ou propriedades americanas. O presidente dos Estados Unidos disse ainda que o país "não quer mais ameaças".

 

 

 

"O Irã está falando muito corajosamente sobre atingir alguns alvos americanos como vingança, por nós termos varrido do mundo o seu líder terrorista que matou um americano e feriu muitos outros, sem falar de todas as pessoas que ele matou ao longo de sua vida, incluindo, recentemente, centenas de manifestantes iranianos. Ele estava atacando a nossa embaixada, e preparando ataques adicionais em outros locais. Por muitos anos, o Irã nunca foi nada além de um problema. Que isso sirva como um AVISO, de que se o Irã atacar mais americanos, ou alvos americanos, nós temos 52 alvos iranianos na mira (em homenagem aos 52 americanos que o Irã fez reféns há anos atrás), alguns com um nível muito alto de importância para a cultura do Irã e dos iranianos e esses alvos, e também o próprio Irã, serão atingidos rapidamente e de forma muito dura. Os Estados Unidos não querem mais ameaças".

Assim como informado por Trump, os 52 americanos citados são uma referência direta aos funcionários da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, que foram feitos reféns em 1979, no auge da Revolução Iraniana, após militantes islâmicos invadirem e tomarem o controle do complexo diplomático.

Por meio da agência estatal islâmica Irna, o general iraniano Abdolrahim Musavi declarou que "duvida" que o presidente dos EUA tenha coragem de atacar os 52 alvos iranianos. "Eles dizem esse tipo de coisa para desviar a atenção da opinião pública mundial de seus atos odiosos e injustificáveis, mas duvido que tenham coragem".

Crime de guerra

Colin Kahl, um ex-oficial de segurança do governo Obama, escreveu no Twitter que " acha muito difícil acreditar que o Pentágono iria oferecer opções de alvos a Trump, que envolvessem locais importantes para a cultura iraniana. Trump pode não se importar com as leis de guerra dos Estados Unidos, mas os estrategistas e advogados do Departamento de Defesa se importam... e atingir locais de importância cultural é um crime de guerra".

 

A informação citada por Kahl pode ser consultada no site da Cruz Vermelha Americana, e se refere a um protocolo adicional da Convenção de Genebra, de 1949. No adendo, fica explícito que "objetos culturais e locais de culto não podem ser atacados". Ele ainda acrescenta que serão considerados crimes de guerra os "ataques indiscriminados contra populações civis".

Em campanha no estado de Iowa, o futuro candidato à presidência Joe Biden foi questionado por jornalistas sobre o que achava da atitude de Trump e se, na sua opinião, o atual presidente já tinha elaborado uma estratégia e organizado seus aliados. "Não faço ideia se ele tem algum tipo de plano", respondeu prontamente.

Biden também acrescentou que "quando Trump faz declarações como essa, parece-me que ele está escrevendo uma enxurrada de tweets por conta própria, o que é incrivelmente perigoso e irresponsável".

O Pentágono se recusou a comentar sobre os 52 alvos e encaminhou as perguntas à Casa Branca, que não respondeu.

A série de tweets foi acompanhada de uma notificação oficial sobre o Ato de Poderes de Guerra, enviada pela Casa Branca para o Congresso. A lei americana exige uma notificação oficial, dentro de 48 horas, após a introdução formal das forças americanas em um conflito armado ou em uma situação que poderia levar à guerra, como no caso da morte de Suleimani por meio de um drone.

A notificação foi classificada e seu conteúdo segue sob sigilo absoluto. Ainda não se sabe se uma versão pública será lançada. A presidente da Câmara Nancy Pelosi disse que o documento "ultrassecreto" apenas "sugere que o Congresso e o povo americano estão sendo deixados no escuro, sobre nossa segurança nacional". / REUTERS e AP

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Sob ameaças de Trump, corpo de Qassim Suleimani chega ao Irã

Multidão acompanha de perto o cortejo do general; em meio ao seu funeral, o presidente americano disse já ter '52 alvos iranianos na mira'

Redação, O Estado de S. Paulo

05 de janeiro de 2020 | 03h15
Atualizado 06 de janeiro de 2020 | 12h21

TEERÃ - O corpo do general da Guarda Revolucionária Qassim Suleimani chegou neste domingo, 5, ao Irã, em meio a uma multidão crescente de pessoas. A cerimônia de homenagem à sua morte acontece apenas algumas horas após Donald Trump ter ameaçado bombardear 52 alvos iranianos

Depois de milhares lamentarem no sábado, 4, a morte de Suleimani em Bagdá - e de outros líderes mortos no ataque -, as autoridades levaram o corpo do general para a cidade iraniana de Ahvaz, no sudoeste do país. O funeral vai durar quatro dias.

Em um gesto de honra e homenagem, militares têm ficado o tempo todo ao lado do corpo de Suleimani, saindo de perto apenas para os presentes carregarem os caixões cobertos com bandeiras para fora das pistas do aeroporto local.

O corpo saiu da capital do Iraque, Bagdá, em um avião. Ele também passou pelas cidades de An-Najaf e Karbala, consideradas como sagradas pelos mulçumanos xiitas. Enquanto estava sendo velado no país, três morteiros foram lançados na Zona Verde, bairro iraquiano ultraprotegido que abriga a embaixada e bases dos Estados Unidos.

A Isna, rede de televisão estatal do Irã, está acompanhando desde cedo a chegada do corpo do general ao país. Nas imagens, é possível ver uma multidão reunida na Praça Mollavi, agitando bandeiras vermelhas para representar o sangue derramado; verde, em homenagem a cor do Islã; e brancas, com frases religiosas. Eles também abraçam fotos de Suleimani.

Enquanto isso, uma maré humana quase sem fim caminha rumo ao local da cerimônia. Além de Ahvaz, o corpo ainda deverá passar pelas cidades de Teerã, Mashhad e Qom. Ele será enterrado apenas na terça-feira, 7, em Kerman, cidade natal do general.

A morte de Suleimani na última sexta-feira, 3, aumentou ainda mais as tensões entre Teerã e Washington, após meses de ataques comerciais e ameaças que, até o momento, não pareciam tão possíveis de serem concretizadas.

No entanto, Donald Trump parece não estar buscando uma saída pacífica para a situação. No sábado, ele foi ao Twitter e escreveu em uma sequência de posts que já tem "52 alvos iranianos na mira", se o país continuar com suas "ameaças de vingança".

Trump também acrescentou que "por muitos anos, o Irã nunca foi nada além de um problema" e que alguns desses alvos têm um "nível muito alto de importância para a cultura do Irã e dos iranianos". Ele também prometeu agir "rapidamente e de forma muito dura".

A série de tweets foi acompanhada de uma notificação oficial sobre o Ato de Poderes de Guerra, enviada pela Casa Branca para o Congresso. A lei americana exige uma notificação oficial, dentro de 48 horas, após a introdução formal das forças americanas em um conflito armado ou em uma situação que poderia levar à guerra, como no caso da morte de Suleimani por meio de um drone.

A notificação foi classificada e seu conteúdo segue sob sigilo absoluto. Ainda não se sabe se uma versão pública será lançada. A presidente da Câmara Nancy Pelosi disse que o documento "ultrassecreto" apenas "sugere que o Congresso e o povo americano estão sendo deixados no escuro sobre nossa segurança nacional".

A mesma linha segue o exército iraniano, que neste domingo disse a Trump, por meio da agência estatal islâmica Irna, que "duvida" que ele tenha coragem de atacar os 52 alvos iranianos. "Eles dizem esse tipo de coisa para desviar a atenção da opinião pública mundial de seus atos odiosos e injustificáveis, mas duvido que tenham coragem", disse o general Abdolrahim Musavi.

O presidente Hassan Rohani também prometeu pessoalmente à esposa e à filha de Suleimani que a morte do general não passará impune./ AFP AP

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À espera de vingança iraniana, EUA entram em alerta contra ciberataque

Enquanto multidão que vela Qassim Suleimani exige vingança, especialistas acreditam que Irã possa retaliar por meio de ações cibernéticas, nas quais são considerados uma potência

Redação, O Estado de S. Paulo

05 de janeiro de 2020 | 06h00

BAGDÁ - Uma multidão acompanhou neste sábado, 4, em Bagdá, aos gritos de “morte aos Estados Unidos”, o caixão do general iraniano Qassim Suleimani, executado na sexta-feira, 3, por ordem do presidente americano, Donald Trump. Pedidos de vingança ressoaram no Irã, onde o comandante deve ser enterrado, e em outros países da região. Foguetes atingiram ontem a Zona Verde, região da embaixada americana e de outras sedes diplomáticas, sem deixar vítimas, mas especialistas temem que no curto prazo a revanche se materialize numa área em que o Irã é potência, a dos ciberataques.

As tropas cibernéticas iranianas estão há muito tempo entre as mais capazes e agressivas do mundo – atrapalhando bancos, invadindo empresas de petróleo e até tentando assumir o controle de uma represa à distância –, dizem especialistas.

“Nesse momento, um ciberataque deve ser esperado”, disse Jon Bateman, ex-analista sobre as capacidades cibernéticas do Irã da Agência de Inteligência de Defesa e agora membro do think tank Carnegie Endowment for International Peace.

O leque de possíveis táticas é amplo: os iranianos podem sobrecarregar sistemas computadorizados para atrapalhar operações comerciais, como  fizeram com bancos americanos de 2011 a 2013. Podem também usar softwares maliciosos para destruir dados, como supostamente fizeram em 2014 com o Las Vegas Sands Casino, cujo dono, firmemente pró-Israel, Sheldon Adelson, sugeriu aos EUA que jogassem bombas nucleares no Irã.

A gigante do petróleo Aramco, da arquirrival Arábia Saudita, teve destino similar em 2012, quando um ciberataque provavelmente vindo do Irã destruiu a memória de dezenas de milhares de computadores, incapacitando a produção de petróleo. Os esforços frenéticos da empresa para se recuperar foram associados à elevação no preço de discos rígidos mundo afora.

Hackers com laços com Teerã têm potencial para sequestrar maquinário pela internet. Em 2003, eles penetraram nos sistemas de controle de uma represa do Estado de Nova York. Podem também mirar em alvos com sensibilidade política ou diplomática enquanto acumulam informações sofisticadas de operações pelo Facebook, Twitter e outras plataformas de mídias sociais.

Em outubro passado, a Microsoft acusou um grupo ligado ao governo do país de tentar identificar, atacar e violar contas de e-mail pessoal associadas à campanha presidencial dos EUA, a membros do governo e a jornalistas.

Embora os alvos mais atrativos possam estar em solo americano, pode ser mais fácil atingir alvos militares ou diplomáticos dos EUA no exterior ou de nações aliadas.

O especialista em cibersegurança James Lewis recentemente compilou uma lista de ataques suspeitos de terem sido feitos por iranianos, ciberataques e incidentes de espionagem, e ficou surpreso por achar 14 só no ano passado. A lista incluía ações direcionadas à campanha de Trump, sistemas de telecomunicações no Iraque, Paquistão e Tajiquistão e invasões nas contas de funcionários de empresas que fabricam e operam sistemas de controle industrial.

Os iranianos também são suspeitos de usar o LinkedIn para atingir usuários subordinados a governos do Oriente Médio e trabalhadores dos setores financeiro e de energia. “Eles têm tanta capacidade que eles não precisam perguntar ‘podemos fazer isso?’”, disse Lewis, um vice-presidente sênior do Centro de Estratégia e Estudos Internacionais. “É ‘queremos fazer isso?’”

 

Pistas

Especialistas rastreando desinformação online disseram na sexta-feira ter visto sinais precoces de contas se movendo para enviar mensagens simpáticas ao governo iraniano. Algumas contas no Instagram, por exemplo, começaram a alvejar a Casa Branca com imagens de caixões com bandeiras, de acordo com o Laboratório de Pesquisa Forense Digital do Atlantic Council. Enquanto isso, reivindicações aparentemente falsas de um ataque aéreo na base de Ain Al-Asad, que hospeda forças dos EUA no oeste do Iraque, estavam se espalhando em manchetes nos meios de comunicação iranianos, assim como em serviços como Twitter e Telegram.

“Essa é uma nova era”, disse Ali Soufan, ex-agente do FBI que presidiu o subcomitê de influência estrangeira do conselho consultivo do Departamento de Segurança Interna. “Sempre controlamos a política de escalada com os iranianos. Agora, essas regras não existem, e os iranianos vão inaugurar uma era de respostas irrestritas – uma era que será preenchida com ainda mais caos.”

Essas respostas, Soufan acrescentou, provavelmente incluirá atividades cibernéticas assim como desinformação, que já saturam conflitos políticos e militares no Oriente Médio. “Eles têm ferramentas para colocar nossa existência no Oriente Médio, os nossos interesses e os interesses de nossos aliados realmente sob ameaça”.

Quase um ano antes de o presidente Donald Trump ordenar o ataque a Suleimani, as autoridades federais emitiram uma avaliação sóbria das proezas cibernéticas do Irã: um relatório de inteligência de janeiro de 2019 destacou o país como uma “ameaça de espionagem e ataque”, com habilidade para atingir os funcionários dos EUA, roubar informações e interromper “a rede corporativa de uma grande empresa por dias e semanas”.

A capacidade cibernética do Irã está abaixo da Rússia e da China. Mas eles avançaram significativamente desde 2010, ano da descoberta de uma operação americana-israelense que instalou um software malicioso conhecido como Stuxnet, que destruiu centrífugas cruciais para as ambições nucleares do Irã.

Desde então, funcionários culpam o Irã por ciberataques a “dezenas de redes do governo saudita e do setor privado no fim de 2016 e começo de 2017”.

Um Irã inclinado a uma forma visível e dolorosa de vingança poderia tentar várias ações de retaliação no ciberespaço, possivelmente como parte de uma campanha mais ampla para expulsar as forças americanas do Iraque.

“O foco será a infraestrutura central de petróleo e gás no Oriente Médio, e talvez de outros lugares”, disse o diretor de análises de inteligência de cibersegurança da companhia FireEye, John Hultquist, adicionando que operações passadas tiveram como alvo o setor financeiro americano.

No Departamento de Segurança Interna, um alto funcionário disse na sexta-feira que empresas e outras entidades deveriam se "aprimorar" nas táticas cibernéticas iranianas. Christopher Krebs, que lidera o chefia o trabalho de cibersegurança do departamento, apontou para os avisos anteriores da agência de que o Irã "está procurando fazer muito mais do que apenas roubar dados e dinheiro". O departamento não respondeu a novos pedidos de comentários, nem a Casa Branca.

"Sempre que há tensões geopolíticas, você aumenta as operações de desinformação", disse o diretor de investigações da Graphika, uma empresa de análise de mídia social, Ben Nimmo.

Nos últimos dois anos, o Facebook anunciou seis grandes quedas de site relacionadas ao Irã, envolvendo mais de 1.800 contas, páginas e grupos em sua página e no Instagram, atingindo 5 milhões de usuários em todo o mundo. Enquanto isso, o Twitter derrubou milhares de contas vinculadas ao Irã que violaram suas regras.

Os esforços do Irã diferem dos da Rússia, que buscou provocar distúrbios sociais e políticos nos EUA durante as eleições de 2016. A Rússia “pretende se envolver e se infiltrar nas comunidades online” e é politicamente independente, mirando usuários e causas de todo o espectro, disse Graham Brookie, líder do laboratório do Atlantic Council. O Irã “apresenta uma visão de mundo muito específica e tende a buscar persuadir os outros para seu lado”, disse ele, particularmente com mensagens anti-Israel e anti-EUA, e anti-sauditas.

O governo americano tem um punhado de opções para lidar com a ameaça, disseram especialistas. Isso inclui rastrear e interceptar operações cibernéticas enquanto elas estão se desenvolvendo. Outro imperativo, disseram eles, é compartilhar informações com o setor privado, o que pode acabar suportando o impacto do risco.

Mas eles apontaram para alguns precedentes, incluindo os ciberataques de 2017 mirando ministérios, bancos e empresas na Ucrânia. A operação, atribuìda à Rússia por governos ocidentais, teve ramificações globais e foi descrita pela Casa Branca como a “o mais destrutivo e custoso ciberataque da história”.

Enquanto os EUA têm as mais extensivas defesas, elas permanecem sem testes contra táticas agressivas iranianas.

“O Irã usou suas capacidades digitais de um jeito um tanto contido”, disse Robert Knake, um ex-cibersegurança do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, agora no Conselho de Relações Estrangeiras. “Se isso se mantém depois desse ataque (dos EUA), é difícil dizer.”/ WASHINGTON POST

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Morte de Qassim Suleimani terá mais impacto que a de Bin Laden

Ataque contra o mais importante líder militar do Irã tornará difícil a própria presença de tropas americanas no Iraque e pode revigorar Estado Islâmico

The Economist*, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2020 | 06h00

Talvez ele acreditasse em seu próprio mito, na aura de invencibilidade que se esforçou tanto para criar. Na manhã de sexta-feira, o general Qassim Suleimani, mais famoso e temido comandante do Irã, desceu de um avião no aeroporto de Bagdá. Ele entrou em um comboio com o líder de uma milícia aliada – o fato de os dois viajarem juntos configura uma falha de segurança e sugere que o general se sentia seguro no Iraque. Minutos depois, ele estava morto: seu veículo fora explodido por um drone americano.

Poucos acreditaram na notícia. Em poucas horas, porém, os dois lados confirmaram os rumores. Foi uma escalada vertiginosa, pondo fim a uma semana vertiginosa. Em 27 de dezembro, dezenas de foguetes atingiram uma base militar iraquiana perto de Kirkuk, matando um contratado americano. Os EUA reagiram bombardeando cinco bases das Brigadas Hezbollah, milícia xiita apoiada pelo Irã. Pelo menos 25 de seus homens foram mortos. O grupo logo tentou invadir a embaixada americana em Bagdá.

Depois, veio o ataque que matou Suleimani e outras oito pessoas, entre elas Abu Mahdi al-Muhandis, fundador das Brigadas Hezbollah e chefe de um conjunto de milícias pró-iranianas. O longo conflito entre EUA e Irã vem sendo travado por meio de terceiros, espiões e sanções. A morte do general corresponde a um ato de guerra – um raro ataque explícito, com consequências profundas para a região.

O general Suleimani liderava a Força Quds, braço da Guarda Revolucionária que opera fora do Irã. Ele era o principal interlocutor do Irã com o Hezbollah libanês. Em 2006, durante a guerra contra Israel, o general estava no Líbano para supervisionar a campanha. Tempos depois, ofereceu apoio a Bashar Assad, o acuado ditador sírio, e aos houthis, milícia iemenita que trava uma guerra brutal contra uma coalizão liderada pela Arábia Saudita

Seus apoiadores o viam como o rosto da chamada “resistência” contra EUA e Israel. Já seus detratores o viam como um vice-rei, um emblema da profunda e destrutiva influência do Irã na região. Na Praça Tahrir, de Bagdá, onde os iraquianos há meses protestam contra a intromissão do Irã em seu país (entre outras coisas), a notícia da morte do general foi recebida com celebração.

Os americanos o conheciam como o homem que atormentou suas tropas durante a ocupação do Iraque. O general Suleimani treinou milícias xiitas e lhes forneceu minas de estrada capazes de perfurar a blindagem dos veículos americanos. Essas bombas mataram centenas de soldados (uma em cada seis fatalidades americanas no Iraque seria atribuída ao Irã, diz o Pentágono). No entanto, George W. Bush não permitiu ataques contra Suleimani e oficiais detidos no Iraque foram libertados. Israel teve oportunidades de matar o general, mas as dispensou após pressão americana. Trump, como é de seu feitio, rompeu com esse longo precedente.

Muitos analistas temem que Trump esteja começando uma guerra. Mas o Irã não buscará um confronto aberto, no qual certamente perderia: suas forças militares antiquadas não são páreo para os americanos. 

Até agora, Trump hesitou em responder (ao mesmo tempo, muitas vezes, se ofereceu para se reunir com os líderes do Irã). Ele ordenou ataques aéreos depois que o Irã derrubou um drone americano, em junho, mas chamou os aviões de volta quando decidiu que a resposta seria desproporcional. Em setembro, um ataque de míssil a dois campos de petróleo na Arábia Saudita, que os EUA atribuíram ao Irã, ficou sem resposta. Com sua maneira tipicamente caótica de agir, o presidente agora passou da inação para uma grande escalada.

 

Riscos

Isso aumenta a chance de um ciclo descontrolado de retaliações. O regime de Teerã se preocupa com sua preservação. Mas, nos últimos tempos, também pareceu confiante, até mesmo arrogante. O ataque à companhia Saudi Aramco, um golpe sem precedentes no suprimento mundial de petróleo, abriu um período de meses em que o Irã acossou petroleiros e navios de guerra no Golfo Pérsico. Se Teerã reagir com força, é impossível prever o que Trump fará.

No curto prazo, pode ser que o regime iraniano espere um pouco e use o assassinato do general para estimular o fervor nacionalista. Suleimani era uma figura popular em um regime com pouco apoio da população. Apenas Khamenei aparecia em mais cartazes que ele nas ruas de Teerã. Mas o sentimento de admiração não era universal: o general fazia parte de um aparato de segurança que esmaga cruelmente os dissidentes. Ainda assim, um funeral oficial e o luto público serão uma distração diante da economia em ruínas, situação que provocou uma semana de protestos em todo o país em novembro.

Os EUA terão de repensar sua posição na região. Talvez seja impossível manter as tropas americanas no Iraque, onde elas treinam o Exército iraquiano e controlam os jihadistas do Estado Islâmico. O governo de Bagdá pode ordenar a saída dos americanos, um velho objetivo dos parlamentares pró-iranianos. Mesmo se isso não acontecer, talvez o Pentágono decida que é muito difícil proteger as tropas americanas em terreno hostil. 

A retirada do Iraque também pode acabar com a presença dos EUA na Síria, cuja logística depende do Iraque. Com a saída das tropas americanas, o EI teria mais espaço para se reagrupar. Diplomatas e espiões americanos enfrentam ameaças de sequestro e assassinato. As empresas podem ter preocupações semelhantes com os funcionários que trabalham nos campos de petróleo iraquianos e em outros lugares.

O general Suleimani era um comandante singular, tanto em competência quanto em posição. Ele parecia estar em toda parte, surgia em campos de batalha de todo o Oriente Médio. Alguns o viam como o futuro líder do Irã – o verdadeiro poder por trás dos clérigos. Sua morte é um golpe na ambiciosa política regional que ele supervisionava, muito mais significativa que os ataques que mataram Osama bin Laden, da Al-Qaeda, ou Abu Bakr al-Baghdadi, do EI. Quando morreram, esses homens eram figuras decorativas no comando de organizações encolhidas. Suleimani foi morto em ascensão, no momento em que o Irã ainda exerce grande poder na região.

Não está claro se o ataque fará os EUA avançarem rumo a seu objetivo de criar um Irã menos beligerante e mais controlado. Embora hoje pareçam pertencer a um passado distante, as tensões atuais começaram em 2018, quando Trump se retirou do acordo nuclear com o Irã. Qualquer esperança de renegociá-lo provavelmente morreu com Suleimani. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

*© 2019 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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Novo general está saindo das sombras para assumir o lugar de Qassim Suleimani

Esmail Ghaani, de 62 anos, tem longa trajetória de trabalho - e amizade -, com o líder morto; ele será o encarregado de guiar o plano de vingança do Irã

Redação, O Estado de S. Paulo

05 de janeiro de 2020 | 04h26

TEERÃ - Um novo general iraniano está saindo das sombras para liderar a Força Quds, grupo da Guarda Revolucionária do Irã, após a morte do general Qassim Suleimani. Ele será o responsável por levar adiante o plano de vingança contra os Estados Unidos.

Esmail Ghaani, de 62 anos, cuja história ainda permanece nas sombras, vai ser o próximo a assumir o controle da força, que conta com um efetivo de mais de 125 mil homens. Eles respondem diretamente ao Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. A sua nomeação foi feita na sexta-feira, 3, pelo próprio Khamenei.

Tudo o que se sabe é que na Força Quds, ele era o vice-comandante, uma posição abaixo da de Suleimani, do qual era amigo de longa data. "Somos filhos da guerra", descreveu Ghaani uma vez sobre seu relacionamento com o general. "Somos camaradas no campo de batalha e nos tornamos amigos de combate".

"O comandante está olhando para seus soldados como olha para seus filhos e, do ponto de vista dos combatentes, parece que ele recebeu uma ordem de Deus para fazê-lo", comentou recentemente Ghaani sobre a morte de Suleimani.

A Guarda viu sua influência crescer cada vez mais forte militar e politicamente nas últimas décadas. Um dos principais fatores dessa influência vem diretamente da Força, que trabalha em toda a região do Oriente Médio com parceiros para combater o armamento avançado dos Estados Unidos e de seus aliados regionais.

Esses parceiros incluem milicianos iraquianos, além do Hezbollah, do Líbano e dos rebeldes xiitas Houthi, do Iêmen.

Ao anunciar Ghaani como substituto de Suleimani, Khamenei chamou o novo líder de "um dos comandantes mais importantes" a serviço do Irã. A Força Quds "permanecerá inalterada em relação ao tempo de seu antecessor", disse.

Suleimani se tornou o rosto do grupo de elite. Sua fama aumentou depois que as autoridades americanas começaram a culpá-lo por bombas mortais na estrada, que atacavam as tropas americanas no Iraque. Sua imagem, antes uma manifestação de orgulho altamente compartilhada pelos iranianos, agora estampa cartazes pedindo por vingança.

No entanto, enquanto as façanhas de Suleimani no Iraque e na Síria chegaram ao alcance do grande público, Ghaani sempre permaneceu nas sombras, com aparições ocasionais nas mídias ocidentais ou mesmo iraniana. Mas sua história pessoal em muito se assemelha a de Suleimani.

Nascido em 8 de agosto de 1957 na cidade de Mashhad, no nordeste do Irã, Ghaani cresceu durante a última década da monarquia. Ele se juntou à Guarda Revolucionária do Irã um ano após a Revolução de 1979. Como Suleimani, ele primeiro se mobilizou para conter a revolta curda no Irã.

No ano seguinte, em 1980, quando se deu início a Guerra Irã-Iraque, Ghaani estava entre os combatentes que viram de perto, a morte de mais de 1 milhão de pessoas, dentre as quais estavam soldados voluntários da Guarda.

Anos após, quando questionado sobre a guerra. O atual comandante da força Quds disse que os voluntários "estavam vendo que todos estavam sendo mortos, mas quando ordenamos para que fossem, eles não hesitaram". 

Ele sobreviveu ileso da guerra para prontamente se juntar à Força Quds. Ao lado de Suleimani, ele liderou grupos de inteligência. Analistas ocidentais acreditam que enquanto o comandante se concentrava nas relações exteriores a oeste do Irã, seu vice estava mais focado em manter o diálogo com as nações do leste, como Afeganistão e Paquistão

Em 2012, o Tesouro dos Estados Unidos sancionou Ghaani, descrevendo-o como sendo o responsável por "fornecer provisões" aos soldados aliados à Força Quds. As sanções diziam que ele estava ligado a um carregamento de armas apreendido em 2010, em um porto de Lagos, na Nigéria.

Ao todo, foram revistados 13 contêineres, que tinham chegado até lá sob o rótulo de "pacotes de lã, vidro e paletes de pedra". No entanto, o que eles encontraram foram foguetes Katyusha de 107 mm, balas de fuzil e outras armas. Dois homens, um iraniano e outro nigeriano, foram sentenciados a cinco anos de prisão.

O destino da carga nunca foi definido com certeza. Na época, o governo da Nigéria disse que as armas seriam utilizadas pelos líderes do país, para ajudar na eleição. Já Israel disse que o conteúdo dos contêineres seriam encaminhados aos palestinos da Faixa de Gaza, para combater os israelenses.

Também em 2012, Ghaani recebeu críticas do Departamento de Estado dos EUA, depois de dizer que "se a República Islâmica não estivesse presente na Síria, o massacre de pessoas teria acontecido em uma escala muito maior". Eles treinaram homens para ajudar Bashar al-Assad na guerra civil síria, que já matou mais de 300 mil pessoas.

"No fim de semana, tivemos o vice-chefe da Força Quds dizendo publicamente que estavam orgulhosos do papel que desempenharam no treinamento e assistência às forças sírias - e veja o que isso causou", disse o Departamento de Estado dos EUA.

Já em 2015, Ghaani disse indiretamente que o Irã usualmente envia mísseis e armas aos palestinos, para que estes possam combater Israel. "Os EUA e Israel são pequenos demais, para se considerarem alinhados ao poder militar do Irã", comentou na época. "Esse poder agora apareceu ao lado do povo oprimido da Palestina e da Faixa de Gaza, na forma de mísseis e armas". A fala, vai de encontro a carga apreendida na Nigéria.

Agora, Ghaani está oficialmente no controle da Força Quds. Enquanto os líderes do Irã dizem ter um plano para vingar a morte de Suleimani, nada ainda foi oficialmente anunciado, em respeito aos três dias de luto oficial.

No entanto, qualquer que seja o plano de vingança, ele certamente estará envolvido. "Em todos esses anos, Ghaani sobreviveu em posições de alto escalão da Guarda, onde foi por um longo período o vice de Suleimani. Isso diz muito sobre a confiança que Khamenei e Suleimani tinham nele", disse Afshon Ostovar, autor de um livro sobre a história da Guarda Revolucionária do Irã.

"Suspeito que ele tenha pouca dificuldade em ser o estepe de Suleimani, quando se trata de operações e estratégias", escreveu. Enquanto isso, os Estados Unidos parecem já estar se precavendo contra o novo líder. Na última sexta-feira, 3, o país já proibiu que qualquer empresa americana, faça negócios com Ghaani, sua mais nova ameaça./ AP e REUTERS

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Eliane Cantanhêde: E o Brasil com isso?

No maior teste da nova política externa, Brasil adota neutralidade ou assume lado?

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2020 | 03h00

O conflito dos Estados Unidos com o Irã é o maior teste do governo Jair Bolsonaro e já exibe duas claras guinadas, não apenas em relação aos governos petistas, mas à própria política externa tradicional do Brasil. E o pior está por vir, pois a vingança do Irã é certa, mas não se sabe quando, como e com que grau de ferocidade. O que fará o Brasil?

As duas mudanças perpassam as discussões de cúpula do governo e podem ser identificadas na nota do Itamaraty. A primeira é que o foco no Oriente Médio não é mais o conflito Israel-Palestina e sim o Irã. A segunda é que o Brasil deixa de tratar o terrorismo como uma questão distante, dos países desenvolvidos e do Oriente Médio. O terrorismo passa a ser problema nosso, sim.

No “novo Brasil”, alinhado incondicionalmente não só aos EUA, mas ao governo Trump, o Irã é a maior ameaça internacional, com seu projeto audacioso de hegemonia na região e insinuando-se até como novo líder mundial a partir do seu programa nuclear. Persa, não árabe, é o Irã quem assume a dianteira no enfrentamento a Israel, negando até o holocausto e o próprio Estado de Israel, como já se esgoelava Mahmoud Ahmadinejad, homem forte do país entre 2005 e 2013.

Tanto Trump quanto Bolsonaro têm forte base política entre judeus e evangélicos, que estão na linha de frente pró-Israel. Não por acaso, o primeiro compromisso e a segunda manifestação de Trump após o ataque que matou o principal líder militar iraniano foram em Miami, num evento evangélico.

Agregue-se à ascensão do Irã a sua proximidade com a Venezuela de Nicolás Maduro e tem-se a suspeita de apoio iraniano à instalação de células do Hezbollah na América do Sul. Bom pretexto para a mudança da posição brasileira sobre terrorismo. Não é mais “coisa dos outros”.

As primeiras manifestações do presidente Jair Bolsonaro foram bem-vindas. Ele admitiu o impacto da crise sobre o preço do petróleo, mas descartou tabelamento. Ponto com o mercado e com o Ministério da Economia. E lembrou que o Brasil não tem armamento nuclear e não pode assumir um lado, ficando sujeito a retaliações. Ponto com os militares e com a diplomacia responsável.

A nota do Itamaraty, porém, é toda em cima do combate ao terrorismo e embica para a condenação ao Irã e o apoio aos EUA, deixando em aberto qual será a posição brasileira se, ou melhor, quando o Irã retaliar. Nesse momento, Trump cobrará posição e ação. O que o Brasil responderá? 

A nota não condena a ação americana e o assassinato do general Suleimani, mas sim, além do “terrorismo”, os ataques à embaixada dos EUA em Bagdá. E diz que o Brasil está pronto para participar de “esforços” para evitar uma escalada. Participar como? Como mediador neutro ou a favor de um lado?

Ouçam-se os generais e estrategistas militares e eles responderão: “não é coisa nossa”. Ouçam-se embaixadores e especialistas em política externa e eles farão coro: “não temos nada a ver com isso”. E, juntos, concordam com a primeira avaliação de Bolsonaro: o Brasil não tem tamanho para entrar nessa guerra. Melhor seguir o exemplo da França: pedir cautela e fim da escalada. Ponto.

Além da questão geopolítica e dos riscos para o planeta, a crise envolve questões internas. Trump convive com o impeachment e a reeleição neste ano. O Irã sofre rejeição em parte do Iraque e do Líbano. Logo, arrumar “inimigos externos” é conveniente a ambos, assim como Hugo Chávez recorria ao “demônio” EUA a toda hora para unir a Venezuela.

Objetivamente, o Brasil pode muito pouco num conflito ou numa guerra assim e tem de se preocupar com a ameaça imediata: o preço do petróleo. Isso, sim, tem reflexos diretos no País. Inclusive, na política interna.

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Análise: Trump achou que ação reelegeria Obama. Mas e ele?

Em meio ao risco do impeachment, o presidente americano pode estar se valendo da atual ameaça de segurança nacional, para buscar sua permanência no cargo

Aaron Blake*, Washington Post

05 de janeiro de 2020 | 06h00

Desde a controvertida decisão de matar um oficial militar iraniano de alto escalão em Bagdá, os críticos de Donald Trump lembram seus comentários antigos sobre uma política de guerra com o Irã. Em 2011 e 2012, Trump previu que Barack Obama atacaria o Irã porque era a única maneira de ele ser reeleito. O ataque nunca veio e mesmo assim Obama venceu confortavelmente. Vale a pena considerar se Trump pode estar fazendo um cálculo semelhante para si mesmo – por mais cínico que esse pensamento possa ser.

Há poucas razões para acreditar que isso ajudaria. Pesquisadores e analistas políticos costumam falar sobre um efeito de “manifestação em torno da bandeira” que ocorre quando os Estados Unidos são atacados ou lançam campanhas militares. E há algo nisso. Mas geralmente é de curta duração, e há poucas evidências de que tenha ajudado qualquer presidente recente a ganhar a reeleição.

O exemplo mais recente seria a Guerra do Iraque, que George W. Bush lançou em março de 2003. Segundo dados da Gallup, seu índice de aprovação aumentou de 58% antes da invasão para 71% imediatamente depois. Mas voltou a 58% apenas quatro meses depois e, apesar da captura de Saddam Hussein no final de 2003, na véspera das eleições de 2004, era de 48%. Quando Bush ganhou a reeleição, a guerra não foi vista como um trunfo e acabou se tornando uma marca negra em seu legado.

Após o início da Operação Tempestade no Deserto, em janeiro de 1991, a aprovação de George Bush pai subiu de 64% para 82% – e chegou a impressionantes 89%. Na época, isso afugentava potenciais adversários democratas, com uma pesquisa mostrando Bush à frente do então governador de Nova York Mario Cuomo, a então grande esperança democrata. A crise acabou em outubro de 1991 e Bush estava abaixo de 50% em janeiro de 1992, um ano após o início da guerra. Ele ficou lá até perder a reeleição para Bill Clinton.

Combine isso com a quantidade de tempo até a eleição e a imprevisibilidade da guerra com um país desenvolvido como o Irã, e a história sugere que Trump pode querer refletir sobre o quão errado ele estava em 2011 e 2012.

*É JORNALISTA

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Família de Qassim Suleimani diz que Hezbollah se vingará de sua morte

Em entrevista concedida à TV libanesa, filha do general disse que Donald Trump 'não foi corajoso' ao ter comandado ataque por drone de longa distância

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2020 | 10h49

BEIRUTE - A filha do general iraniano Qassim Suleimani, morto na última quinta-feira, 2, após ataque de drone ordenado por Donald Trump, disse neste domingo, 5, que a morte de seu pai "não vai nos quebrar" e os Estados Unidos devem saber que o sangue de seu pai “não foi derramado em vão”.

Zeinab Soleimani disse à TV Al-Manar, do Líbano - que está ligada ao grupo Hezbollah, apoiado pelo Irã - que o "imundo" presidente Donald Trump não será capaz de aniquilar as realizações do líder iraniano morto.

Na curta entrevista, exibida neste domingo, Zeinab afirmou que Trump não é corajoso porque seu pai foi alvo de mísseis de longa distância, e que o presidente dos EUA deveria ter ficado "cara a cara" com ele. 

A jovem, que falou em farsi com narração em árabe, disse saber que o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, vingará a morte de seu pai. / AP

 

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