Parlamento iraquiano critica resolução da ONU

Parlamentares iraquianos condenaram hoje uma nova resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) durante uma sessão especial, na qual o presidente da Comissão de Relações Exteriores recomendou que ela seja rejeitada - o que provavelmente provocaria uma guerra. Os parlamentares alegaram que a resolução é repleta de mentiras e más intenções. O presidente Saddam Hussein, entretanto, tem utilizado ações do Parlamento para encobrir decisões difíceis. Além disso, a dura retórica não significa necessariamente que o Parlamento venha a rejeitar a proposta. Depois dos discursos de abertura, os parlamentares entraram em sessões fechadas para novas discussões.Saddam ordenou ao Parlamento que recomende uma resposta formal do Iraque, mas os legisladores só deverão promover uma votação amanhã. O Iraque tem até sexta-feira para aceitar ou rejeitar a resolução, aprovada por unanimidade pelo Conselho de Segurança da ONU. O presidente da Comissão de Relações Exteriores, Salim al-Koubaisi, recomendou aos parlamentares que rejeitem o texto, o último de vários esforços para conseguir que o Iraque elimine suas armas de destruição em massa."A comissão recomenda a rejeição da Resolução 1.441 do Conselho de Segurança e não concorda com ela, em resposta à opinião de nosso povo, que confia em nós", disse al-Koubaisi aos parlamentares.A recomedação do Parlamento a respeito da nova resolução - segundo qual o Iraque deve cooperar com os inspetores de armas da ONU ou enfrentar "sérias conseqüências" - será enviada ao Conselho do Comando Revolucionário, o mais alto órgão executivo do Iraque, encabeçado por Saddam.Caso o Parlamento recomende a aceitação, como é esperado, Saddam poderá apresentar a decisão como desejo do povo iraquiano e recuar com mais tranqüilidade das objeções anteriores a qualquer nova resolução estabelecendo regras das inspeções de armas.O Parlamento é dominado pelos aliados de Saddam. A sessão aberta foi televisionada ao vivo pela tevê via satélite iraquiana. Os parlamentares aplaudiam toda vez que o nome de Saddam era mencionado.Ao abrir a sessão, o presidente do Parlamento, Saadoun Hamadi, afirmou que a resolução era repleta de "más intenções", "falsidades", "mentiras" e "desonestidades".Ele disse aos parlamentares que ela "não tem o mínimo de justeza, objetividade e equilíbrio" e viola o direito internacional."As más intenções nessa resolução são flagrantes e insiste em ignorar todo o trabalho que foi feito nos últimos anos", avaliou.A resolução da ONU dá aos inspetores acesso irrestrito a qualquer local suspeito de abrigar armas de destruição em massa e o direito de entrevistar cientistas iraquianos fora do país e sem a presença de nenhuma autoridade do Iraque - duas questões que podem ser alvo de disputa.O Iraque tem insistido no respeito à sua soberania, um argumento usado no passado para restringir o acesso a palácios de Saddam.Saeed Mousawi, um alto funcionário do Ministério do Exterior iraquiano, destacou que a resolução mudou as regras e considerou que ela tem como base uma denúncia hipotética, sem substância, de que o Iraque dispõe de armas de destruição em massa. "A decisão cria um vasto campo para uma crise, e não para uma solução", disse ele ao Parlamento.Se Saddam não cumpri-la inteiramente, autoridades dos EUA têm dito que um plano do Pentágono prevê a invasão do Iraque por mais de 200.000 soldados.O diário estatal iraquiano al-Jumhuriya exortou hoje governos e povos árabes a "resistirem aos esquemas agressivos dos EUA" contra o país e os árabes em geral. Num editorial de primeira página, o jornal pediu aos governos árabes para usar o petróleo como forma de pressão sobre Estados Unidos e Grã-Bretanha.Saddam já pediu anteriormente aos exportadores árabes de petróleo para boicotarem o Ocidente, mas produtores do Golfo Pérsico afirmam que tal medida seria impraticável e iria contra seus interesses.No Cairo, ministros do Exterior da Liga Árabe concluíram uma reunião de dois dias com um comunicado final exortando que seja evitado um confronto entre os EUA e o Iraque.Eles pediram a Bagdá e às Nações Unidas para trabalharem juntos a fim de implementar a resolução e que cobrem dos EUA uma promessa feita à Síria, de que a resolução não seria usada para justificar uma ação militar."Em nossas deliberações, o consenso foi por lidar com a resolução do Conselho de Segurança, aceitando suas direções, e isso cabe ao governo do Iraque decidir", disse a repórteres o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa.Os ministros árabes apresentaram uma posição unida de "absoluta rejeição" a qualquer ação militar contra o Iraque, considerando que isso representaria uma ameaça à segurança de todas as nações árabes - uma posição que autoridades iraquianas têm defendido em recentes reuniões com líderes árabes.Eles exigiram também que especialistas árabes sejam incluídos na equipe de inspeção, mas não especificaram números, nem nacionalidades. Também pediram que o Conselho de Segurança exija de Israel que se livre de suas armas de destruição em massa. Em Damasco, o oposicionista Partido Comunista Iraquiano no exílio exigiu do governo que aceite a resolução, qualificando-a como "a última chance para uma solução diplomática e pacífica".

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