Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

Parlamento vota saída de Berlusconi

Disputa política com ex-aliado Fini deixa governo à beira da dissolução na Itália; premiê tenta convencer deputados a não derrubá-lo, denuncia ''loucura'' da oposição e propõe pacto a moderados para renovar ''do programa à coordenação da administração''

, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2010 | 00h00

O primeiro-ministro italiano, Silvo Berlusconi, será submetido hoje a um voto de confiança que pode derrubar seu governo de centro-direita. Após cinco meses de impasse político, Berlusconi pode ser forçado a deixar o cargo para a convocação de eleições antecipadas. Para manter-se no poder, o premiê tenta seduzir direitistas e moderados e alerta que uma nova crise seria uma "loucura política" que colocaria a estabilidade da Itália em risco.

Disputas no interior da coalizão, denúncias de corrupção e escândalos sexuais minaram a aprovação de Berlusconi no Parlamento. O premiê precisa de 316 votos, mas só tinha garantido o apoio de 314 deputados até ontem à noite. Para defender a sua permanência, Berlusconi afirmou que seu governo salvou a Itália da crise econômica que atinge a Europa, e sua saída pode ameaçar o país.

O líder de 74 anos perdeu a maioria na Câmara depois que rompeu, em setembro, com seu principal aliado nos últimos 16 anos, o ex-líder fascista Gianfranco Fini. Até então, Berlusconi mantinha maioria confortável no Parlamento. Presidente da Câmara, Fini fundou um novo partido e levou consigo mais de 40 parlamentares da base governista. Na última moção de confiança, em setembro, Berlusconi permaneceu no cargo graças ao apoio do grupo de Fini.

Ontem, o premiê disse estar disposto a firmar um pacto legislativo com a centro-direita "renovando o que for necessário, desde o programa até a coordenação do governo".

Segundo ele, a queda de seu governo levaria o país à instabilidade política e agravaria a crise econômica na Itália, aproximando-a da situação da Grécia ou da Irlanda. "Hoje, a Itália não é parte dos problemas econômicos na Europa - ela se tornou parte da solução."

O premiê disse ainda que aqueles que tentam derrubá-lo serão incapazes de formar um novo governo. "Para que serve uma crise da qual suas consequências e objetivos não são conhecidos?", questionou.

Apesar de ter uma das dívidas mais pesadas do mundo, de cerca de 120% do PIB, a Itália vem escapando das turbulências que atingem grande parte da Europa por causa do forte controle dos gastos públicos e de um sistema bancário conservador, que evitou excessos durante o período de aquecimento do mercado.

Prognóstico arriscado. Berlusconi deve obter o voto de confiança no Senado, onde tem maioria, mas a votação na Câmara deve ser apertada e pode ser decidida por apenas um ou dois votos.

Se o governo conseguir superar a moção, Fini passará para a oposição e Berlusconi deverá tentar o apoio dos democratas-cristãos, apesar dos conflitos políticos entre os dois partidos, em troca de muitas vantagens para a Igreja Católica. / REUTERS e EFE

PARA ENTENDER

O futuro do governo está em xeque desde que Berlusconi expulsou o ex-aliado Gianfranco Fini do Partido Povo da Liberdade, fundado por eles em 2008 como para unir a centro-direita do país. Fini acusa Berlusconi de administrar o governo "como uma de suas empresas" e usar o cargo para manter sua imunidade. Fini também tem sido um crítico da onda de escândalos que envolve o premiê e seus aliados. Berlusconi, por sua vez, acusa Fini, presidente da Câmara, de traição e diz que ele é movido apenas pela ambição pessoal. A ruptura entre Berlusconi e Fini também afetou o Parlamento e parte dos deputados e senadores deixou de apoiar o premiê, formando um novo partido. Se Berlusconi cair, o presidente Giorgio Napolitano deve iniciar consultas para a formação de um novo governo. Se isso não for possível, o presidente terá de convocar novas eleições num prazo de até 70 dias.

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