The Washington Post / Alice Martins
The Washington Post / Alice Martins

Parteira trouxe à luz milhares de bebês de extremistas do EI

Forçada a trabalhar para o Estado Islâmico, parteira viveu momentos de ternura e crueldade

Tamer El-Ghobashy, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

27 Abril 2018 | 05h00

A parteira  Samira al-Nasr trouxe milhares de bebês ao mundo nas últimas quatro décadas na cidade de Raqqa, Síria. Mas nada foi como o parto que fez dois anos atrás quando trabalhava, coagida, para o Estado Islâmico (EI).

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Os pais, um casal turco - um combatente do EI sua jovem mulher –  tentaram pôr no recém-nascido um uniforme militar que haviam encomendado especialmente para o momento. O pai orgulhosamente declarava que a criança seria criada para se tornar um militante islamista. Samira ficou revoltada. Conseguiu  persuadir o pai a desistir, dizendo-lhe que o tecido era áspero demais para a pele delicada do bebê.

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Samira, de 66 anos, está entre os milhões que viveram sob o domínio violento e austero do EI na Síria e Iraque. Ela, porém, testemunhou um lado da militância que talvez nenhum outro não militante tenha visto. Samira trouxe à luz incontáveis bebês de famílias do Estado Islâmico, acompanhando os momentos mais íntimos de suas vidas reclusas.  

Encarregada pelo Estado IslâmicoI do nascimento de “crianças do califado”, logo após o EI ocupar Raqqa, em 2014, e fazer da cidade sua capital, Samira começou a atender a chamadas dométicas quase ininterruptamente. Durante os três anos em que era levada de táxi por homens armados para casas de famílias do EI, na maioria estrangeiras, as emoções de Samira iam do medo à raiva e ao desamparo. Não havia nada da alegria e orgulho que experimentava ao fazer os partos de uma geração de famílias de Raqqa.

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“Eles não tinham o melhor respeitopor minha profissão”, disse ela sobre os militantes e suas mulheres. “Eu era considerada uma simples ferramenta, não alguém encarregada de vidas. Após fazer o parto, era quase que enxotada da casa.” Os próprios  filhos do “califado” também eram tratados meio como acessórios. Eram personagens centrais dos vídeos de propaganda do EI, que frequentemente mostravam crianças de procedência europeia, asiática e africana estudando textos islâmicos, ou brincando e treinando com armas. Outros, adolescentes, apareciam executando pessoas consideradas  inimigas ou apóstatas.

As jovens clientes ficavam na maioria eufóricas após se tornarem mães e, numa prática que Samira desconhecia, mas é cada vez mais forte no Ocidente, insistiam em abraçar apertadamente os bebês e dar-lhes o peito antes mesmo de o cordão umbilical ser cortado. Elas também murmuravam algumas palavras de prece louvando as mães no Islã, enquanto apertavam cada vez mais os filhos no peito.

Com os maridos, as regras eram. Eles proibiam Samira de dar às mulheres analgésicos ou outros medicamentos durante o parto. Algumas passavam dez horas em trabalho sem ajuda de opioides ou do relaxamento muscular que Samira rotineiramente proporcionava às clientes. “Não me deixavam dar nada. Havia  muita dor.”

Os homens alegavam que medicamentos violavam sua tradição religiosa e em seu lugar recitavam platitudes sobre como as mullheres seriam recompensadas por Deus por seu sofrimento. As esposas, obedientemente, concordavam. Samira desconfiava que eles temiam que ela podesse envenenar as parturientes.

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“Eles simplesmente não confiavam nos remédios oferecidos por mim, alguém de fora de seu círculo”, disse ela. “Não me deixavam dar um um copo de água se o próprio marido não enchesse o copo.” Ao se recordar das mulheres estrangeiras repetindo as platitudes dos maridos sobre recompensas na outra vida, Samira imitou o forte sotaque com que falavam árabe e riu até seu olhos azuis se encherem de lágrimas.

Ela disse que na maioria das vezes fazia os partos comraiva e  revolta. Sentia-se humilhada pelo modo como era tratada. Samira é uma mulher orgulhosa, que conhece sua profissão e é acostumada a merecer respeito. Gosta de dar orientação e ordens, não de recebê-las.

Na parede externa de sua casa, em grande parte poupada da devastação sofrida pelos vizinhos, há uma placa anunciando seus serviços. Três buracos de bala adornam o cartaz, uma lembrança da feroz batalha do ano passado em que forças aliadas dos Estados Unidos expulsaram o Estado Islâmico da cidade.

Samira disse que inicialmente tentou resistir a trabalhar para o EI, mas as consequências de não cooperar eram claras: prisão ou mesmo execução em praça pública. Seu marido, professor de árabe aposentado, foi preso por tentar mediar um conflito entre a temida polícia de costumes e um vizinho acusado de violar o estrito código moral do EI.

“Que escolha eu tinha?”, perguntou Samira. “Mesmo que estivesse com medo, ou contrariada, isso era irrelevante. Fui forçada a colaborar.” Serviços de maternidade eram oferecidos gratuitamente pelo governo da Síria, mas os administradoresdo EI começaram a cobrar por eles no hospital local para levantar fundos para sua nascente cidade-Estado. Um parto regular custava o equivalente a US$ 20; um por cesariana ficava em US$ 50.

Os militantes, porém, tinham um problema com o hospital, lembra Samira. Não confiavam nos médicos e enfermeiras para atender suas mulheres, temendo que parturientes e recém-nascidos pudessem ser envenenados pela equipe hospitalar, hostil a seu domínio.

Um militante do EI, Abu Walid, viu a placa na parede de Samira e convidou-a para trabalhar com o EI. Ela alegou que estava velha e frágil e havia se aposentado. Abu Walid, que estava obviamente armado, não aceitou a recusa.

Ao chegar ao local ao qual Walid a levou, chamado Casa da Viúva, Samira encontrou um impressionante número de nacionalidades. Havia mulheres tunisianas, sauditas, egípcias, iemenitas, somális, marroquinas. Irlandesas, francesas, alemãs, russas, turcas, caucasianas, africanas.

Samira ficou chocada quando se deparou com as esposas sírias. As mais jovens tinham em torno de 13 anos e as mais velhas não mais de 15. Nos três anos seguintes,  ela notaria que essas esposas sírias nunca tinham mais de 18 anos – uma ilustração de como os novos senhores de Raqqa, na maioria, estrangeiros, haviam dominado os moradores locais.

Samira não se lembra de quantos bebês trouxe ao mundo durante a ocupação do EI, mas de um parto em particular ela se recorda bem. Os pais eram um militante somáli e uma jovem iemenita. A mulher estava com a cabeça enfaixada e sangrando, segundo o marido, por ter caído da motocicleta em que fugiam de um bombardeio americano. O marido ordenou a Samira que fizesse o parto, mas quando ela quis tratar da mulher ferida, ele proibiu. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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