Partidários de coronel silenciam, mas seguem em Trípoli

Mesmo intimidados, admiradores do regime defendem os 42 anos de ditadura na ausência de rebeldes armados

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

Entre o cerco realizado pelo regime de Muamar Kadafi a cidades como Misrata e Zintan, ao longo do primeiro semestre, e a reversão do quadro, com a vitória dos rebeldes na batalha por Trípoli, o número de admiradores do regime foi minguando até quase desaparecer. Mas kadafistas aproveitam as oportunidades que têm para defender o regime.

O Estado teve a prova da "resistência" dos líbios leais ao regime em duas oportunidades. A reportagem procurou por partidários de Kadafi ao longo de vários dias, sem encontrar declarações enfáticas de apoio. Quando não procurava, encontrou.

Na quinta-feira, no bairro de Abu Salim, o maior reduto kadafista da capital líbia, dois homens defenderam ardentemente o regime. O primeiro, de cerca de 50 anos, rejeitou se identificar após hostilizar o motorista que acompanhava a reportagem do Estado. "Por que você está com esse jornalista? Não sabe que eles atiravam na gente?", questionou, exaltado, referindo-se aos bombardeios da Otan. "Se querem a revolução, por que não atiram em Kadafi? Por que atiram no povo? Kadafi era o único que nos defendia", disse, aos gritos.

Hakim Ali, de 40 anos, funcionário de uma gráfica, foi mais contido. "Gostava de Kadafi antes da revolução", disse. "É verdade que o dinheiro da Líbia ia para ele e sua família. Poucos se beneficiavam. Mas as pessoas não morriam como agora."

Segundo Ali, Kadafi sabe que conta com o apoio de uma fatia da população que está em silêncio no momento do triunfo dos insurgentes. "Kadafi pensava que todos o apoiavam. Não era verdade. Mas, até hoje, há muitas pessoas a seu favor. Só não falam porque têm medo."

Kahlid Midhat, estudante de 24 anos, conta que grande parte das adesões à insurgência em Trípoli foi tardia. "Um de meus melhores amigos era kadafista. Chegamos a romper a amizade por isso. Após a batalha de Trípoli, eu o encontrei, com uma AK-47 em um ponto de inspeção rebelde em Trípoli", conta Midhat. "Em Abu Salim, as pessoas são como camaleões. Apoiaram Kadafi até o último momento, mas, agora, são revolucionários."

Comboio no Níger. Ainda ontem, uma fonte militar francesa disse que um comboio com mais de 200 veículos militares da Líbia chegou à cidade de Agadez, norte do Níger, levando oficiais de alto escalão. A fonte disse ter recebido informações de que Kadafi e seu filho Saif al-Islã teriam considerado integrar o comboio que, aparentemente, segue para Burkina-Fasso.

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