Ahmed Gomaa / AP
Ahmed Gomaa / AP

Partidários de Morsi atacam prédios públicos e governo autoriza uso de munição letal

Número de mortos no massacre de quarta-feira no Egito chega a 623, segundo governo

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2013 | 08h13

(Atualizado às 22h40) Um dia depois de ordenar o massacre de mais de 600 islamistas que reivindicavam a volta de Mohamed Morsi ao poder, o Exército egípcio defendeu a ação, ampliou a prisão do líder deposto por 30 dias e afirmou que munição letal voltará a ser usada contra "terrorismo" e "sabotagem". O temor de que o país entre em guerra civil aumenta, uma vez que defensores de Morsi desafiam o toque de recolher e organizam novos protestos.

No interior do país, ataques a igrejas de minorias cristãs e a prédios públicos se multiplicaram nesta quinta, levando o governo a defender a necessidade de conter distúrbios durante o estado de emergência decretado na quarta-feira, após o massacre. "Todas as forças usarão munição real contra qualquer ataque, de acordo com as normas de legítima defesa", afirmou o Ministério do Interior, em comunicado.

De acordo com dados divulgados na quinta pelo Ministério da Saúde, 623 pessoas morreram na ofensiva da polícia e do Exército sobre a concentração da Irmandade Muçulmana em Nasr City.

A amplitude da ação, que chocou a comunidade internacional, pode ser muito maior. Segundo o porta-voz do grupo islamista, Gehad al-Haddad, o número real de vítimas estaria sendo omitido pelo regime golpista e chegaria a 4,5 mil em todo o país. Nesta quinta, os corpos estavam espalhados por mesquitas, hospitais e mortuários, tornando impossível qualquer contagem independente.

No Cairo, os dois pontos nos quais os militantes da Irmandade se concentravam desde o fim de junho, na Praça de Nahda e em Rua Nasr, foram esvaziados. Tropas do Exército em veículos blindados e carros da polícia tomaram os lugares e expulsaram os manifestantes.

Embora tenham abandonado os dois postos, islamistas voltaram a se concentrar em um novo ponto de Nasr City, junto à mesquita de Imam, onde, na tarde desta quinta, o Estado contou centenas de corpos. Entre as palavras de ordem havia apelos à jihad - a guerra santa - e gritos de "A paz está morta".

Mohamed al-Beltagy, um dos membros da direção da Irmandade, acusou o general Abdel Fattah al-Sisi, chefe do Estado-Maior e Ministro da Defesa, de estar levando o país para a guerra civil. "Peço, pelo bem do Egito, que vocês tomem as ruas para declarar o golpe nulo. Se vocês escolherem permanecer em suas casas, darão a Sisi a chance de transformar o Egito em outra Síria."

Na quinta, o governo acelerou o julgamento de membros da Irmandade acusados de terrorismo. Segundo a TV estatal, 84 foram levados a júri em Suez, no litoral, acusados de assassinatos e de participação em ataques a igrejas coptas.

Ameaças e ofensiva judicial não intimidaram os egípcios que se juntaram aos islamistas. Um deles foi Imad Ahmad, gerente de banco que ontem auxiliava as famílias das vítimas na mesquita de Imam, no Cairo. "Não fiquei concentrado em Nasr. No entanto, agora, estou aqui pela justiça, pela liberdade e pela democracia", disse, garantindo não ser militante da Irmandade. "Se só quero que os meus direitos, a minha voz e o meu voto sejam respeitados, devo ser chamado de terrorista?"

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.