Partidários lideram sessões de oração após anúncio da cirurgia de Chávez

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi submetido ontem a uma cirurgia em Cuba para retirada de células malignas na área da pélvis - a quarta operação desde que admitiu ter câncer, em junho de 2011. No momento em que o ministro da Comunicação, Ernesto Villegas, confirmava a operação às 17 horas (19h30 em Brasília), centenas de chavistas gritavam "pra frente comandante" na Praça Bolívar, a 500 metros do Palácio Miraflores.

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2012 | 02h04

Orações dos simpatizantes do líder bolivariano ocorreram em vários Estados. No centro da capital, eles vestiam camisetas vermelhas e bonés da campanha vencida por Chávez em eleição presidencial antecipada para novembro - estava originalmente programada para este mês. Parte do público, formado na maioria por senhoras aposentadas e vendedoras ambulantes, empunhava bonecos do líder em diferentes indumentárias, enquanto escutava o boletim oficial. Ao menos 50 integrantes da mílicia bolivariana também participavam.

Uma das chavistas mais emocionadas era Berkis Luna, de 50 anos: "Ele é nosso líder; é um segundo Simón Bolívar. Ele nos fez ver as coisas como elas são".

"O presidente mostrou confiança absoluta de que vencerá os obstáculos", disse Villegas no comunicado em rede nacional de rádio e TV, lido em frente a um presépio e concluído com a frase "Independência ou nada. Viva Chávez". Em um primeiro comunicado, Villegas ressaltou "a lealdade inquebrantável do governo ao presidente".

Mais tarde, Tarek Aissami, um confidente de Chávez, disse que a cirurgia estava ocorrendo sem nenhum problema.

O início da cirurgia foi divulgado no início da tarde não pelo governo, mas pelo presidente do Equador, Rafael Correa, que esteve com Chávez no hospital em Havana. O tom da declaração foi menos otimista do que o adotado nos boletins oficiais: "Um querido amigo e colega, o comandante Hugo Chávez, está sendo operado neste instante", disse o equatoriano, durante um ato na fronteira do Equador com a Colômbia. "É uma cirurgia delicada e ele passa por um dos momentos mais difíceis de sua vida. Ofereço nosso coração e nossa solidariedade a um presidente histórico. Esperamos que ele se restabeleça desse problema de saúde que enfrenta."

No sábado, Chávez tinha regressado de Cuba, onde estava internado desde o fim de novembro, para Caracas. Na Venezuela, anunciou a nova cirurgia e designou seu vice-presidente, Nicolás Maduro, como sucessor.

Segundo o médico oncologista Elmer Huerta, do Instituto do Câncer de Washington, a cirurgia a que se submeteu o presidente é paliativa. "O tumor vai voltar a crescer no caso dele, infelizmente. Se o câncer apareceu pela segunda vez, só nove meses depois da primeira tentativa de retirá-lo, é o começo do que chamamos câncer terminal", disse Huerta à CNN.

Ontem, em um ato de campanha em Miranda, o sucessor indicado de Chávez, Nicolás Maduro, e o candidato ao governo do Estado nas eleições regionais de domingo, Elías Jaua, choraram e juraram lealdade ao presidente. "Chávez tem um povo, e terá a nós para sempre nessa batalha, de vitória em vitória", disse Maduro. "Seremos leais a Chávez até depois desta vida."

No Estado de Trujillo, o candidato chavista Henry Rangel Silva organizou uma missa pela saúde do presidente. O culto foi realizado no Santuário José Gregorio Hernández, médico venezuelano morto em 1919 a quem milagres são atribuídos.

De maneira geral, o clima na Venezuela é um misto de surpresa e comoção com o anúncio do líder bolivariano. "O povo está comovido com o anúncio do presidente. O mistério que envolve a doença acostumou as pessoas a receber as informações a conta-gotas. O discurso de sábado teve um impacto tremendo", disse ao Estado o cientista político Omar Noria, da Univesidade Simón Bolívar. "Os simpatizantes de Chávez estão inundados de tristeza. Os que são críticos a ele foram surpreendidos com a gravidade de suas palavras."

Futuro. Caso Chávez morra ou não tenha condições de tomar posse para seu quarto mandato, em 10 de janeiro, cabe ao presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, convocar novas eleições presidenciais. A incapacidade do presidente teria de ser atestada por uma junta médica indicada pelo Supremo Tribunal de Justiça. Se Chávez se recuperar, tomar posse, mas morrer ou se tornar incapaz de concluir os quatro primeiros anos do mandato, o vice-presidente - no caso, Maduro - assume e convoca novas eleições.

Cabello, um dos subordinados cotados para substituir Chávez juntamente com Maduro e Jaua, é visto com ressalvas por alguns setores do chavismo. "Muitos chavistas consideram Diosdado corrupto e de direita", disse ao Estado o analista Oscar Reyes, consultor do canal estatal TVES. "Maduro tem um perfil ideológico mais próximo ao de Chávez e, por ter sido chanceler, sabe negociar."

Para o analista da USB, o papel central em uma eventual transição será desempenhado pelo Exército. "Se os militares mantiverem sua coesão em torno do projeto chavista, não creio que haja rupturas", disse Noria. "O PSUV está afetado por uma série de tensões internas decorrentes das eleições regionais, mas Chávez, ou a figura dele, ainda manterão a unidade do partido por um tempo."

Antes de embarcar para Cuba, Chávez nomeou o novo ministro da Defesa da Venezuela. O almirante Diego Molero substituiu Rangel Silva, que disputa o governo de Trujillo. Em comunicado, o novo ministro prometeu lealdade a ele ao povo venezuelano e desejou melhoras ao presidente.

Para o analista Vladimir Villegas, a prioridade do chavismo, caso Chávez esteja incapacitado de desempenhar suas funções, será preservar a estabilidade política na Venezuela, em meio a um cenário de deterioração da economia. "O PSUV terá de negociar internamente e também com setores da oposição", disse à agência Associated Press. / COLABOROU LUIZ RAATZ, COM AP

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