Gilles SabriZ/The New York Times)
Gilles SabriZ/The New York Times)

O segredo do Partido Comunista da China para chegar aos 100 anos

Severidade, agilidade ideológica e crescimento econômico o mantiveram no poder contra todos os prognósticos

The Economist, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2021 | 05h00

Em 1.º de julho, o Partido Comunista da China celebrará seu 100.º aniversário. Ele sempre se definiu como “grande, glorioso e correto”. E, iniciando seu segundo século, tem bons motivos para se gabar. Não apenas sobreviveu muito mais do que seus muitos críticos previram, mas também parece estar em alta. Quando a União Soviética implodiu, em 1991, muitos analistas pensaram que a outra grande potência comunista seria a próxima.

Para ver o quanto eles estavam errados, basta observar que o presidente americano, Joe Biden, em uma cúpula no dia 13, sentiu a necessidade de declarar não apenas que os EUA estavam em desacordo com a China, mas também que grande parte do mundo questionava “se as democracias podem competir ou não”.

Um único partido governou a China por 72 anos, sem mandato dos eleitores. Não é um recorde mundial. Lenin e seus tristes herdeiros mantiveram o poder em Moscou por um pouco mais de tempo, assim como o Partido dos Trabalhadores na Coreia do Norte.

Mas nenhuma outra ditadura foi capaz de transformar um desastre devastado pela fome, como a China estava sob Mao Tsé-tung, na segunda maior economia do mundo, cuja tecnologia e infraestrutura de ponta envergonham as decadentes estradas e ferrovias dos EUA. Os comunistas da China são os autoritários mais bem-sucedidos do mundo.

O Partido Comunista da China conseguiu manter o controle por três motivos. Primeiro, é implacável. Sim, o partido hesitou antes de esmagar os protestos na Praça Tiananmen, em 1989. Mas acabou respondendo aos megafones com balas, aterrorizando o país até a submissão.

Os atuais líderes chineses não mostram nenhum sinal de terem quaisquer dúvidas sobre o massacre. Pelo contrário, o presidente, Xi Jinping, lamenta que a União Soviética tenha entrado em colapso porque seus líderes não foram “homens o suficiente para se levantar e resistir” no momento crítico. Leia-se: ao contrário de nós, eles não tiveram coragem de metralhar manifestantes desarmados.

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Uma segunda razão para a longevidade do partido é sua agilidade ideológica. Alguns anos após a morte de Mao, em 1976, um novo líder, Deng Xiaoping, começou a desmantelar as “comunas populares”, que haviam destruído a produtividade, e a colocar as forças do mercado para trabalhar no campo.

Os maoistas estremeceram, mas a produção disparou. No rastro de Tiananmen e da queda da União Soviética, Deng lutou contra os obstinados maoistas e abraçou o capitalismo com fervor ainda maior. Isso levou ao fechamento de muitas empresas estatais e à privatização da habitação. Milhões foram demitidos, mas a China prosperou.

No governo Xi, o partido mudou mais uma vez, para se concentrar na ortodoxia ideológica. Seus predecessores recentes permitiam uma certa dissensão; ele a sufocou. Mao voltou a ser elogiado.

Os quadros do partido obedecem ao “pensamento de Xi Jinping”. A burocracia, o Exército e a polícia sofreram expurgos de funcionários corruptos. Grandes empresas estão sendo colocadas na linha. Xi reconstruiu as bases do partido, criando uma rede de espiões de bairro e injetando quadros em empresas privadas para vigiá-las. Desde a época de Mao, a sociedade não era tão controlada.

A terceira causa do sucesso do partido é que a China não se transformou em uma franca cleptocracia em que a riqueza é sugada exclusivamente pelos bem conectados. A corrupção se tornou galopante e as famílias mais poderosas são de fato super-ricas.

Mas muitas pessoas sentiram que suas vidas também melhoraram, e o partido foi astuto o suficiente para reconhecer suas demandas. Aboliu os impostos rurais e criou um sistema de bem-estar que fornece pensões e assistência médica subsidiada a todos. Os benefícios não foram abundantes, mas são apreciados.

Ao longo dos anos, os observadores ocidentais encontraram muitas razões para prever o colapso do comunismo chinês. Certamente, o controle exigido por um Estado de partido único seria incompatível com a liberdade exigida por uma economia moderna.

Um dia, o crescimento econômico da China perderia força, acarretando desilusão e protestos. E a vasta classe média criada por esse crescimento inevitavelmente exigiria maiores liberdades – especialmente porque muitos de seus filhos conheceram a democracia em primeira mão, quando estudaram no Ocidente.

Essas previsões se viram confundidas pela contínua popularidade do Partido Comunista. Muitos chineses atribuem ao partido a melhoria de seus meios de subsistência.

É verdade que a força de trabalho da China está envelhecendo, encolhendo e acostumada a uma aposentadoria ridiculamente precoce, mas esse é o tipo de dificuldade que todo governo enfrenta, autoritário ou não. O vigoroso crescimento econômico parece que continuará por algum tempo.

Muitos chineses também admiram a mão forte do partido. Veja, dizem eles, a rapidez com que a China esmagou a covid-19 e acelerou sua economia, enquanto os países ocidentais tropeçavam.

Eles valorizam a restauração do orgulho e do peso da China no mundo. Trata-se de um nacionalismo que o partido alimenta. A mídia estatal confunde o partido com a nação e sua cultura, ao mesmo tempo em que faz uma caricatura dos EUA como uma terra de motins raciais e massacres de armas. A alternativa ao governo de um partido só, sugerem eles, é o caos.

Quando surge alguma dissidência, Xi usa a tecnologia para enfrentá-la antes que cresça. As ruas chinesas estão cheias de câmeras operadas por um software de reconhecimento facial.

A mídia social é espionada e censurada. As autoridades resolvem os problemas de pronto ou perseguem os cidadãos que os criaram. Aqueles que compartilham o pensamento desviante podem perder seus empregos e liberdade. O preço do sucesso do partido, em sua brutal repressão, é horrível.

A ameaça mais perigosa a Xi não vem das massas, mas de dentro do próprio partido. Apesar de todos os seus esforços, o partido sofre com divisões, deslealdade e lassidão ideológica. Rivais acusados de conspirar para tomar o poder foram presos. A política chinesa está mais opaca do que décadas atrás, mas os intermináveis expurgos de Xi sugerem que ele vê ainda mais inimigos ocultos.

O momento de maior instabilidade, provavelmente, será a sucessão. Ninguém sabe quem virá depois de Xi, nem mesmo quais regras governarão a transição.

Quando eliminou os limites do mandato presidencial, em 2018, sinalizou que deseja se agarrar ao poder indefinidamente. Mas isso pode deixar a transferência final ainda mais instável. Embora o perigo para o partido não leve necessariamente ao regime que os amantes da liberdade desejam, em algum momento até mesmo esta dinastia chinesa chegará ao fim. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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