AFP PHOTO / WANG ZHAO
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PC chinês rompe tradição e apresenta nova cúpula sem indicar sucessor de Xi

Presidente se torna o governante mais poderoso do país em 40 anos, com possibilidade de permanecer no poder por tempo indeterminado; PCC define Zhao Leji como chefe do órgão anticorrupção

O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2017 | 02h28
Atualizado 25 Outubro 2017 | 19h41

PEQUIM -Fortalecido após ter sido elevado ao mesmo nível de líderes históricos como Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping, o presidente chinês, Xi Jinping, apresentou ontem a nova cúpula do Partido Comunista sem a presença clara de um possível sucessor. 

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Desde os anos 90, o PC incluía no Comitê Central uma liderança mais jovem para ser preparada para assumir o país depois de cinco anos no órgão, como foi o caso do próprio Xi e de seus antecessores Hu Jintao e Jiang Zemin. Agora, há sinais de que ou Xi pretende seguir no cargo além dos dois mandatos usuais ou ter mais tempo para escolher um sucessor leal a ele. 

Os seis componentes do comitê estão perto da idade limite, que é de 68 anos. O próprio Xi, que entrou para o órgão aos 54, terá 69 ao fim de seu segundo mandato. Após o Congresso de 2007, que referendou o segundo mandato de Hu Jintao, Xi foi o mais jovem promovido para o a cúpula – um sinal de que assumiria o país cinco anos mais tarde. 

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O presidente chinês apresentou a nova cúpula que comandará o país em uma cerimônia de gala no Grande Palácio do Povo, em Pequim, transmitida ao vivo pela TV. Além de Xi e do premiê Li Keqiang, os outros cinco membros são homens, já em seus 60 anos. “Nos últimos cinco anos, fizemos muita coisa. Parte do trabalho está concluída, outra precisa ser terminada”, disse o presidente. “Uma nova era precisa de uma nova aparência e novos feitos.”

Analistas advertem, no entanto, que a mudança dessas regras não escritas sobre a formação da cúpula podem colocar a política chinesa num terreno novo, que leve a fraturas internas ou a um novo culto à personalidade de Xi. “Se Xi romper essa tradição e não preparar uma sucessão pacífica, poderá colocar um alvo nas costas e fomentar a reação de outros políticos ambiciosos”, disse Susan L. Shirk, do Centro para a China da Universidade da Califórnia. “Xi tem se mostrado mais parecido com Mao do que ele pensava. Está demonstrando poder derrubando instituições.”

Apesar das aparentes aspirações de Xi, o novo comitê terá alguns membros que não são seus aliados próximos, ainda que já tenham trabalhado com ele, como Wang Yang, novo vice-premiê, de 62 anos, e Han Zheng, ex-prefeito de Xangai. Outros membros da cúpula, no entanto, são mais próximos de Xi. Li Zhanshu é amigo e assessor do presidente, assim como Wang Huning, que escreve seus discursos. O último membro é Zhao Leji, que assumirá a agência anticorrupção. 

“Xi parece ter escolhido a cúpula de maneira magnânima”, disse Christopher Johnson, do Centro Estratégico para Estudos Internacionais, de Washington. “E isso é fácil de fazer quando você cumpriu dois objetivos: tornar-se ideólogo do partido e evitar nomear um sucessor.”

Apesar disso, há a possibilidade de nos próximos anos Xi promover um dos componentes do segundo escalão de comando do PC – composto por 25 membros – para o comitê central. Esse movimento, para analistas, sinalizaria a escolha de um sucessor. Caso isso se concretize, o favorito é Chen Min’er, de 57 anos, que trabalhou como propagandista de Xi no começo da carreira. 

Economia

 O foco do segundo mandato de Xi deve ser o desenvolvimento econômico. Após cinco anos focados em reprimir a dissidência e em ampliar o controle sobre o partido e o Exército, o presidente tem o desafio de manter o crescimento chinês e diminuir o endividamento e outros riscos financeiros. 

 

Para isso, ele conta com seu assessor econômico Liu He. Em seu discurso no Congresso do partido, Xi saudou a abertura econômica promovida por Deng Xiaoping e prometeu colocar o socialismo com características chinesas em uma nova era. Especialistas acreditam na possibilidade de reformas liberais pela formação da equipe de Xi. Seu foco deve ser a proteção ao risco financeiro e a otimização de empresas estatais. 

“Ele quer uma equipe que implemente sua visão”, disse Evan Medeiros, ex-assessor de assuntos asiáticos do presidente Barack Obama. “Em questões econômicas, o comitê parece mais reformista que o anterior.”

O primeiro compromisso de Xi depois de sua reeleição à frente do PC chinês deve ser a visita do presidente americano, Donald Trump, à China, no mês que vem. / NYT e WP 

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