Peruvian Presidency / AFP
Peruvian Presidency / AFP

Partido contrário à saída de Vizcarra e articulações levaram à escolha do novo presidente do Peru

Sagasti assumiu a presidência com mais apoio popular e político; em posse, pediu desculpa a parentes de jovens mortos em protestos

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 05h00

O novo presidente peruano, Francisco Sagasti, assumiu o cargo na terça-feira 17 com o desafio de unir apoios políticos e acalmar a crise institucional para governar o país em meio à crise econômica e à pandemia de coronavírus. Diferentemente do que ocorreu há uma semana, Sagasti recebeu a faixa presidencial com mais apoio popular e sem os protestos desencadeados desde a destituição de Martín Vizcarra. Mas chegar a essa situação só foi possível depois de muita negociação. 

A crise política começou na semana passada, quando o Congresso destituiu Vizcarra, em um processo contestado por políticos de centro, de esquerda e por juristas.

Em seguida, Manuel Merino - então líder do Congresso - assumiu a presidência, mas manifestantes saíram às ruas contra a decisão e o novo governo. No domingo, após a repressão policial deixar dois jovens mortos, Merino perdeu o apoio e renunciou. Após dois dias sem presidente, Sagasti foi eleito pelo Congresso. 

Apelidado de “Dom Quixote”, pela barba grisalha, ele chegou ao Congresso em março, ocupando um dos nove assentos do partido Morado, de centro, que ajudou a fundar, em 2016. Seu perfil moderado foi decisivo para que ele fosse aceito em votação que definiu o sucessor de Merino. O caminho até a aprovação, porém, não foi simples.

Logo após a saída de Merino, o partido Morado - único que votou de forma unânime contra a destituição de Vizcarra - sugeriu o nome de Sagasti para encabeçar a lista da mesa diretora que deveria ser eleita pelos deputados para substituir os que haviam renunciado.

A negociação entre os partidos contrários à destituição foi difícil e, no fim, a primeira lista foi divulgada com a congressista de esquerda Rocío Silva Santisteban à frente e Sagasti como primeiro vice-presidente. A lista foi rejeitada após receber 42 votos favoráveis e 52 contra. 

Analistas afirmaram ao Estadão que o fato de se colocar como líder uma política de esquerda tornaria difícil a aprovação. Enquanto isso, os partidos Ação Democrática (do ex-presidente Merino) e os fujimoristas articulavam uma estratégia para rejeitar a lista do partido Morado, por simbolizar a volta de Vizcarra ao poder. 

Vitória

Depois de uma madrugada e parte da segunda-feira de negociações, a pressão popular para que o Congresso votasse rapidamente a questão acelerou a vitória de Sagasti. Além disso, a coalizão que votou pela destituição de Vizcarra fracassou em apresentar uma lista alternativa e acabou derrotada.

Com 97 votos a favor e 26 contra, o novo presidente do Peru afirmou que havia muito trabalho e não tinha motivos para festejar. “Não é um momento de festa, temos muitos problemas, tragédias e dificuldades. É um momento para nos perguntarmos onde foi que perdemos o rumo”, disse.

“Dom Quixote Sagasti é o novo presidente do Peru. Agora, vamos trabalhar contra a corrupção e a crise política”, tuitou a deputada Rocío Silva, esquerdista que havia sido derrotada na primeira votação.

“Todos os partidos que votaram pela destituição perderam. Perderam porque entraram em um processo de decomposição. E eles devem participar das próximas eleições, então surge a oportunidade de alguém novo se destacar e quem captar melhor a necessidade dessa população jovem, que busca a renovação da classe política, sairá vencedor”, avalia o constitucionalista peruano Luciano Lopez, que vem acompanhando todo o processo desde a destituição de Vizcarra.

Com 76 anos, Sagasti é o terceiro presidente a assumir o cargo em menos de 10 dias e deve conduzir o país até as eleições de abril de 2021. Ele precisará enfrentar a crise do novo coronavírus que já deixou 930 mil doentes e 35 mil mortos no país.

Em cerimônia no Congresso, Sagasti disse que "fará o possível para não só ganhar a confiança do povo, como devolver a esperança e lutar por um Peru melhor". O novo presidente pediu desculpas aos parentes dos jovens mortos nos protestos de sábado "e a todos os jovens que marcharam para defender a democracia". / AFP, COM FERNANDA SIMAS

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