Partido de De la Rúa não quer dolarização

A União Cívica Radical (UCR), o partido do presidente Fernando de la Rúa, anunciou que não apóia a idéia de dolarização da economia argentina. O anúncio foi feito pelo presidente da UCR, e também governador da província do Chaco, Angel Rozas. "O partido considera que a dolarização é o pior caminho das alternativas que andam por aí", disse Rozas, que em diversas ocasiões, nos últimos meses, entrou em rota de colisão com De la Rúa.Mas o governador, que nesta semana declarou explicitamente sua intenção de concorrer à presidência do país, também sustentou que a atual situação cambial da Argentina não é a ideal: "A conversibilidade econômica (que há dez anos estabelece rigidamente a paridade um a um entre o peso e o dólar) é como um espartilho, que nos permite mexer somente os pés e as mãos".Reunidas hoje na cidade de Córdoba, as principais lideranças do partido repudiaram a possibilidade de dolarização. O governador da província de Entre Ríos, Sergio Montiel, criticou: "Não há dúvida que este é o governo do ministro da Economia, Domigno Cavallo". Segundo Montiel, "temos que defender a moeda argentina, porque isso é defender o país".O analista Rosendo Fraga explicou ao Estado que qualquer alteração da conversibilidade necessitará de maioria simples da Câmara de Deputados e do Senado. Desta forma, o governo precisará, para qualquer tentativa de dolarização ou desvalorização, de amplo apoio tanto do próprio partido do governo como da oposição, concentrada no Partido Justicialista (Peronista), que controla o Senado e é o principal partido da Câmara de Deputados.O debate sobre a dolarização da economia da Argentina, como forma de escapulir da desvalorização da moeda, cresce a cada dia e envolve setores do governo e também da oposição. Na quinta-feira, o presidente Fernando de la Rúa reuniu-se com o ex-presidente Carlos Menem. "El Turco", como é conhecido o antecessor de De la Rúa, recomendou-se uma dolarização imediata da economia. Segundo os assessores de Menem, dentro do governo encontrou-se receptividade à idéia, inclusive por parte do ministro da Economia, Domingo Cavallo, que até pouco tempo era um inimigo declarado da dolarização. Menem é presidente do Conselho Nacional do peronismo.Cavallo, "pai" da conversibilidade econômica, até pouco tempo atrás, não pretendia ver sua criação fenecer. No entanto, a partir de novembro, a fuga de depósitos, de mais de US$ 3 bilhões, colocou a conversibilidade em risco, já que ela se apóia na reserva em dólares.O total de circulante em pesos é de 11 bilhões, enquanto que as reservas internacionais são de US$ 15 bilhões. Se esta situação permanecesse, a conversibilidade não teria problemas. No entanto, os diversos vencimentos da dívida que o país tem que enfrentar nos próximos meses colocariam este respaldo em grave risco, já que obrigariam a Argentina a dispor de parte das reservas para pagar o que deve. As dívidas implicariam no pagamento de US$ 7 bilhões, o que deixaria os 11 bilhões de circulante em pesos somente respaldados por US$ 8 bilhões.Cavallo, preparando os ânimos para uma eventual dolarização, repetiu em diversas ocasiões nos últimos dias que a economia argentina já está "altamente dolarizada" e que quem decide a dolarização "é o povo argentino". O ministro referia-se à avassaladora proporção de depósitos em dólares (67% do total) que os argentinos possuem nos bancos. Além disso, existe um enorme não quantificado de dólares guardados nos lares argentinos, literalmente dentro do colchão. Segundo a Fundação Mercado, 37% das famílias do país escondem dinheiro em casa, preponderantemente em dólares.O ?affaire? dos argentinos com a moeda americana começou no início dos anos 70, quando uma seqüência de desvalorizações e políticas econômicas caóticas provocaram a atração. Ao longo dos anos 80 acentuou-se, por causa da disparada da inflação. Nos anos 90, só passaram a confiar no peso porque ele havia se transformado em uma "representação" dos dólares guardados no Banco Central. Para Cavallo, cada vez mais converso à adoção da moeda americana, "a dolarização é a conversibilidade levada ao extremo".Ontem (sábado), o ex-secretário da Fazenda, Juan Alemann, afirmou que sair da conversibilidade "seria algo ruim". Para o ex-vice-ministro da Economia, Daniel Marx, não adianta "buscar uma saída mágica com uma mudança monetária".

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