Partido de Mandela é favorito nas urnas hoje

Nova oposição, porém, ameaça supremacia do CNA no Parlamento

Reuters, JOHANNESBURGO, O Estadao de S.Paulo

22 de abril de 2009 | 00h00

O líder do governista Congresso Nacional Africano (CNA) e franco favorito nas eleições de hoje, Jacob Zuma, conclamou em seu último comício, ontem, os eleitores a comparecer "em massa" às urnas. Confiante, Zuma disse que a população "mais uma vez dará ao CNA um mandato robusto e decisivo".Os sul-africanos votam hoje na mais disputada eleição desde o fim do apartheid, com a maioria de dois terços no Parlamento do CNA ameaçada por uma revitalizada oposição.Cercado de escândalos - entre eles um suposto estupro de uma mulher HIV positivo -, Zuma deve se tornar o quarto presidente escolhido democraticamente, mas terá trabalho para assegurar aos investidores que seu governo manterá as políticas que criaram o maior período de crescimento econômico da história da África do Sul.Um membro do CNA que pediu anonimato disse ontem à Reuters que Zuma manterá o ministro das Finanças, Trevor Manuel, no cargo. Manuel conquistou investidores internacionais com suas políticas fiscais austeras. A fonte afirmou que o ministro permanecerá por "pelo menos dois anos".Mais de 23 milhões de eleitores estão registrados para votar nas eleições nacionais e provinciais da maior economia da África. A votação tem como base um sistema proporcional no qual os partidos apresentam listas de candidatos para preencher as 400 cadeiras da Assembleia Nacional e para os parlamentos locais das nove províncias da África do Sul. Os resultados oficiais devem ser divulgados apenas na sexta-feira.Analistas dizem que a maioria de 70% que o CNA tem hoje na Assembleia Nacional pode ser reduzida para entre 60 e 65%. Se o partido obtiver menos de dois terços do Parlamento, dependerá de acordos com os outras legendas para aprovar qualquer emenda na Constituição.A opositora Aliança Democrática, que ressurgiu sob a liderança da candidata branca Helen Zille, e o novo Congresso do Povo (Cope) - formado por dissidentes do CNA - devem tirar votos do partido governista. A Aliança Democrática deve obter mais de 15% dos votos e, apesar de a ameaça do Cope ter sido reduzida desde sua criação, em dezembro, o novo partido pode ter mais de 10% dos votos."O Cope decaiu muito em relação às expectativas iniciais. Eles fracassaram por causa da má organização e falta de dinheiro, mas principalmente por causa do conflito de liderança que eles tentaram resolver escolhendo uma figura desconhecida como candidato presidencial", disse o analista político Allister Sparks.O candidato do Cope para presidente, Dvume Dandala, é um bispo metodista que foi escolhido após desentendimentos entre os cofundadores do novo partido, o ex-ministro da Defesa Mosiuoa Lekota e o ex-premiê da Província de Gauteng Mbhazima Shilowa.Em comunicado ontem, a Aliança Democrática fez um último ataque ao CNA: "Esta eleição determinará se nosso país será uma democracia de sucesso ou se continuará seu trajeto em direção a um Estado falido."QUESTÕES INTERNASO CNA, fundado pelo líder Nelson Mandela - no poder desde 1994 -, ainda dominará o Parlamento. Analistas não esperam uma repentina mudança para a esquerda para recompensar os sindicatos e o Partido Comunista Sul-Africano por seu apoio a Zuma. Além de atrair investidores, o novo governo terá de lidar com uma série de problemas internos. Milhões de negros ainda vivem em barracos, o desemprego é de 30% e o país tem uma das maiores taxas de violência do mundo. Mais de 12% da população está infectada com HIV e cerca de mil pessoas morrem diariamente de doenças relacionadas à aids.Em entrevista no mês passado, Zuma disse que a pobreza é o maior problema na África do Sul, com estatísticas mostrando que o número de pobres cresceu desde 1994.OS CANDIDATOSJacob ZumaCNAEx-guerrilheiro, 67 anos, nunca foi à escola, mas é muito carismático, um dos poucos que conseguem falar para negros e brancos ao mesmo tempo. É favorito e deve vencer com facilidadeFRASE"O povo nos dará um mandato robusto e decisivo"Mvume DandalaCopeBispo metodista, ganhou fama lutando contra o apartheid. Seu maior problema é ser identificado com o impopular ex-presidente Thabo Mbeki. Deve chegar em segundo, bem atrás do CNAFRASE"O Cope foi criado para barrar os abusos do CNA"Hellen ZilleAliança DemocráticaPrefeita branca de Cidade do Cabo, é chamada de ''Godzille'' por falar grosso com rivais. Sua popularidade é restrita à Província de Western Cape e seu partido ainda sente o peso de ter sustentado o apartheidFRASE"Decidimos entre a democracia ou um Estado falido"Mangosuthu ButheleziInkhataAos 80 anos, ainda é muito identificado com o nacionalismo zulu. Vinha mantendo o controle da Província de KwaZulu-Natal, mas como Zuma também é zulu, pode perder o poder em seu redutoFRASE"CNA fez um governo arrogante e incompetente"DESAFIOSCrime - Apesar de estar em queda desde o fim do apartheid, a África do Sul ainda tem uma das mais altas taxas de criminalidade do mundo - quase o dobro da brasileira Pobreza - Um quarto da população vive em barracos e cerca de 1,3 milhão de casas não tem acesso a serviços básicos, como águaencanada Aids - Cerca de 5,7 milhões de pessoas estão infectadas com o vírus do HIV, 12% da população. São 500 mil novas infecções todos os anos, incluindo 100 mil crianças. Diariamente, 1.000 pessoas morrem de doenças relacionadas à aidsDesemprego - Segundo dados oficiais, o índice de desemprego é de 30% - mais de 4 milhões de pessoas -, mas economistasestimam que 40% dos sul-africanos não tenham trabalho regularCorrupção - A prática tem minado a credibilidade dos políticos sul-africanos, principalmente do partido governista, o CNA. Nalinha de frente está Jacob Zuma, que foi acusado de corrupção, sonegação e lavagem de dinheiro. As acusações foram retiradas, mas muitos acreditam que ele esteja envolvido em esquemas ilegaisEconomia - A maior economia da África caminha para sua primeira recessão em 16 anos. A indústria decresceu 15% em fevereiro, quando a inflação anual atingiu 8,6%Zimbábue - O governo sul-africano é acusado de conivência com o ditador zimbabuano, Robert Mugabe. O CNA teve apoio de Mugabedurante o apartheid. Por isso, hesita em pressionar pelo fim do regime Energia - Em janeiro do ano passado, o sistema de geração de energia do país quase entrou em colapso, levando a estatal Eskom a racionar eletricidade para a indústria. O caos éresultado da falta de investimentos no setorImigração - As leis sul-africanas e a política do CNA são bastante liberais e transformaram o país em um paraíso dos imigrantes. A crise no Zimbábue só agravou a situação: 3 milhões dezimbabuanos vivem na África do Sul, aumentando as tensões sociais e os ataques xenófobosPolítica de inclusão racial - O CNA disse que continuacomprometido com uma política de inclusão dos negros em uma economia ainda dominada por brancos. Mas os críticos acusamo governo de enriquecer apenas um pequeno grupo de correligionários

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