Partido de premiê britânico é acusado de trocar doações por influência em decisões políticas

Vídeo divulgado por jornal mostra co-tesoureiro sugerindo que grandes doadores podem jantar com premiê e influenciar o governo.

BBC Brasil, BBC

26 Março 2012 | 11h09

Um escândalo político obrigou o primeiro-ministro britânico, David Cameron, a anunciar nesta segunda-feira a publicação de detalhes sobre os doadores de seu partido que participaram de jantares privados com ele em sua residência oficial.

O caso foi divulgado no domingo, após o jornal The Sunday Times ter divulgado um vídeo que mostrava o co-tesoureiro do Partido Conservador, Peter Cruddas, afirmando que uma doação de 250 mil libras por ano (cerca de R$ 715 mil) daria acesso de "primeira linha" ao premiê e possivelmente a chance de influenciar as políticas do governo.

As afirmações de Cruddas foram feitas a repórteres do jornal que se passaram por possíveis doadores. Ele renunciou ao cargo ainda no domingo.

Cameron, por sua vez, classificou as ações captadas no vídeo como "completamente inaceitáveis" e prometeu uma investigação ampla do caso.

"Esta não é a forma como arrecadamos dinheiro no Partido Conservador. Isso não deveria ter acontecido", afirmou Cameron. "Farei com que haja um inquérito adequado do partido para garantir que isso não aconteça novamente", disse.

Ele negou categoricamente que qualquer doador tenha tido acesso privilegiado para fazer lobby com o governo. "Vou deixar algo claro. Ninguém responsável pelas políticas do governo encontrou qualquer pessoa a pedido de Peter Cruddas", afirmou.

Assessores de Cameron haviam afirmado inicialmente que a lista de convidados para os jantares na residência oficial não seria divulgada, por se tratar de informação "privada", mas o premiê acabou anunciando a divulgação após a reação negativa ao escândalo.

Segundo o premiê, os detalhes de todos os encontros para refeições entre doadores do Partido Conservador e membros do primeiro escalão do governo serão publicados a cada três meses.

Dentro da lei

A lei britânica exige apenas que as doações aos partidos devem vir de cidadãos aptos a votar ou empresas registradas no país e que qualquer quantia recebida acima de 7.500 libras (cerca de R$ 21.500) seja declarada e publicada pela Comissão Eleitoral.

O site do Partido Conservador lista o que cada nível de doação pode esperar. Os maiores doadores - acima de 50 mil libras (R$ 143 mil) ao ano, entram no chamado "Grupo Líder" e "são convidados a encontrar David Cameron e outras figuras importantes do Partido Conservador em jantares, almoços, recepções, eventos eleitorais e lançamentos de campanhas importantes".

Apesar de a troca de doações por convites para jantar com o premiê não ferir nenhuma lei, o escândalo sugere que os doadores eram capazes de pagar para influenciar as políticas do governo.

Uma comissão oficial que analisou no ano passado as práticas de financiamento de campanhas relatou que o público britânico diz suspeitar dos grandes doadores e da ideia de que eles são capazes de comprar influência no governo.

O líder do Partido Trabalhista (oposição), Ed Miliband, afirmou que as acusações contra o Partido Conservador são "preocupantes" e afirmou que o público precisa saber se os doadores pagaram por acesso que poderia ter influenciado as políticas do governo em qualquer estágio.

Os trabalhistas, que oferecem a doadores convites para eventos e recepções do partido, já foram envolvidos no passado em escândalos semelhantes, de troca de doações por influência ou pela indicação a títulos de nobreza, mas as acusações nunca foram comprovadas. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.