Partido de premiê o contraria, rejeita deixar poder e agrava crise na Tunísia

O partido islamista Ennahda, que lidera a coalizão no poder na Tunísia, rejeitou a decisão do primeiro-ministro Hamdi Jebali, integrante da legenda, de dissolver o governo e convocar novas eleições. A medida do premiê foi tomada em meio aos protestos que se espalharam pelo país após o assassinato do líder da oposição, Chokri Belaid, na quarta-feira. Os manifestantes prometem voltar às ruas hoje, durante o funeral de Belaid.

TÚNIS, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2013 | 02h04

A crise pode se agravar com a convocação pela União-Geral de Trabalhadores Tunisianos, o maior sindicato do país, de uma greve geral também para hoje, em protesto contra o governo.

Ontem, milhares de manifestantes tomaram a cidade de Gafsa, no sul da Tunísia, onde a Frente Popular, aliança de partidos de esquerda que era liderada por Belaid, tem forte apoio. Na capital, Túnis, manifestantes voltaram à frente do prédio do Ministério do Interior, mas foram dispersados pela polícia.

Dois anos após os protestos em massa que levaram à deposição do presidente Zine al-Abidine Ben Ali, estopim da Primavera Árabe, a Tunísia volta a viver dias de tumulto e instabilidade política, além da crise econômica que se aprofunda no país.

A recusa do Ennahda em aceitar a decisão do primeiro-ministro mostra uma divisão entre os governistas - com moderados de um lado e radicais de outro - e não apenas entre os islamistas no poder e a oposição laica.

Jebali anunciou na quarta-feira que formaria um gabinete provisório, composto por tecnocratas apartidários, para conduzir o país até as novas eleições, cedendo às demandas da oposição. Mas os dirigentes do Ennahda rejeitaram a decisão, alegando ser um ato unilateral do premiê.

"O primeiro-ministro não pediu a opinião do seu partido", disse Abdelhamid Jelassi, vice-presidente do Ennahda. "Nós, do Ennahda, acreditamos que a Tunísia precisa de um governo político agora. Vamos continuar as discussões com outros partidos sobre a formação de uma coalizão de governo."

Mas a oposição quer não só o fim desse governo como a renúncia de Jebali. "Todo o governo, incluindo o primeiro-ministro, deveria renunciar", disse Beji Caid Essebsi, ex-premiê e líder do partido laico Nida Touns.

O Ennahda é acusado por opositores e pela família de Belaid de envolvimento no assassinato do líder de esquerda. Advogado de 48 anos, Belaid era um dos principais críticos dos salafistas ultraconservadores, que ampliaram sua influência após a queda do regime secular de Ben Ali, e dos islamistas no poder. "Foi o Ennahda e ninguém mais quem o matou", disse ontem o pai de Belaid, Salah.

Nos 23 anos em que Ben Ali esteve no poder, os islamistas eram alvo de repressão. Com a queda do ditador, em janeiro de 2011, o Ennahda, então um movimento organizado, formou a coalizão que conquistou a maior bancada - dois terços dos 217 assentos da Assembleia Nacional - nas primeiras eleições livres do país, em outubro de 2011.

"A posição é de que a troika (a coalizão de três partidos) continuará liderando o país, mas está aberta a trocas ministeriais", disse o porta-voz do Ennahda, Abdallah Zouari. / AP e REUTERS

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