Dmitriy Rogulin/AP
Dmitriy Rogulin/AP

Partido de Putin sofre revés em eleições legislativas em Moscou 

Resultado se segue a um verão de protestos contra o governo severamente reprimidos pela polícia após a exclusão de alguns dos principais candidatos da oposição

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2019 | 18h11

MOSCOU - Nenhum terremoto, como era previsível, mas a maioria silenciosa dos russos, cansada do status quo, deu sinais de vitalidade nas eleições municipais deste domingo, 8. O caso mais célebre foi o da capital, Moscou, onde o partido do presidente Vladimir Putin, o Rússia Unida, perdeu 12 assentos para a oposição no Parlamento local, passando de 38 para 26, de um total de 45. 

O resultado, apesar da participação modesta (pouco superior a 21%), se segue a um verão de protestos contra o governo - severamente reprimidos pela polícia - após a exclusão de alguns dos principais candidatos da oposição.   

As manifestações, que reuniram milhares de pessoas, levaram a quase 2,7 mil detenções, algo jamais visto desde a onda de protestos em 2011-2012, que precedeu o retorno de Vladimir Putin à presidência depois de um mandato como primeiro-ministro.

O principal opositor russo, Alexei Navalni - cujos aliados foram excluídos dessas eleições locais - havia convocado os eleitores a "votar de forma inteligente" e apoiar os candidatos em melhor posição para derrotar os do Kremlin. Navalni cumpre pena por convocar manifestações sem permissão. 

O Rússia Unida chegou até a tirar seu símbolo das cédulas eleitorais para tentar conter a queda de popularidade na capital, e seus candidatos se apresentaram como independentes. O partido também é protagonista de escândalos de corrupção e perdeu popularidade por causa das dificuldades econômicas enfrentadas pelo país.    

Alianças políticas asseguram maioria 

Ainda assim, o partido deve ter o controle do Legislativo de Moscou, já que duas legendas de oposição, o Partido Comunista (13 assentos) e o Rússia Justa (3), frequentemente votam alinhadas com o governo.   

O porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, preferiu destacar o sucesso dos partidários de Putin no restante da Rússia, afirmando que os resultados foram um grande êxito para o governo. 

Essas eleições foram "talvez as mais emocionantes e competitivas da história recente", considerou, por sua vez, o prefeito de Moscou, Serguei Sobianine, em seu blog.

Já o pró-Ocidente Partido Democrático Unificado Russo (Jaboklo), cujo líder havia sido impedido de participar das eleições, sentença posteriormente revertida, garantiu as três cadeiras restantes e outra foi obtida por uma candidata independente que era apoiada pela formação.

O partido Rússia Justa, opositor "tolerado" pelo Kremlin, entra no Parlamento com três deputados.

"Batalhamos juntos para conseguir isso. Obrigado a todos por sua contribuição", declarou Navalni no Twitter, enquanto a advogada Liubiv Sibil, uma das líderes dos protestos, disse que o resultado "entrará para a história de Moscou".

De acordo com a agência de notícias Interfax, nove deputados do Rússia Unida não foram reeleitos, incluindo o líder moscovita Andrei Matelsky, que era eleito sem interrupção desde 2001.

Partido enfrenta queda na popularidade

Diante da queda da popularidade da Rússia Unida, as autoridades não apresentaram nenhum candidato sob essa bandeira e tentaram buscar personalidades da sociedade civil.

Mas foi uma missão fracassada, com algumas derrotas retumbantes, como o da vice-reitora da prestigiada Escola de Estudos Superiores de Ciências Econômicas (HSE), Valeria Kasamara, oficialmente independente, mas apoiada pelo poder e beneficiária de uma grande campanha pré-eleitoral.

A HSE foi um dos principais centros das manifestações, a maioria não autorizada e severamente reprimida. 

Nesta segunda-feira, a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, pediu uma investigação sobre o "uso excessivo" da força pela polícia russa na repressão das manifestações durante as semanas que antecederam essas eleições.

Putin confirma força no interiro do país 

No restante da nação, no entanto, Putin confirmou sua força. Nas 16 regiões que renovaram seus governadores, todos os candidatos apoiados pelo Kremlin venceram sem problemas. Segundo o secretário do conselho-geral do Rússia Unida, Andrei Turchak, o partido ainda tem "60%" do eleitorado, dado que fez o governo cantar vitória.    

No total, mais de 5 mil eleições foram realizadas no domingo. Uma das regiões onde houve votação foi a Crimeia, a península ucraniana anexada pela Rússia em 2014. 

Em São Petersburgo, segunda maior cidade do país e antiga capital imperial russa, o candidato do governo venceu a eleição para governador, anunciou a Comissão Eleitoral nesta segunda-feira, rejeitando as denúncias de fraude da oposição.

"Alexandre Beglov, o governador interino, recebeu 64,57% dos votos", anunciou a Comissão Eleitoral após a apuração de 97% dos votos.

Beglov, nomeado governador interino em 2018, superou dois candidatos pouco conhecidos, Nadejda Tijonova e Mikhail Amosov, que obtiveram 16,84% e 15,93% dos votos, respectivamente.

Seu principal rival, o candidato comunista e conhecido diretor de cinema Vladimir Bortko, retirou-se da eleição alguns dias antes da votação alegando "fraudes".

No domingo, a oposição transmitiu entrevistas de eleitores que disseram ter recebido dinheiro para votar e vídeos em que indivíduos eram vistos enchendo as urnas. / AFP e Ansa 

 

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