Ernesto Arias/AP
Ernesto Arias/AP

Partido de extrema esquerda rompe com Castillo e ameaça estabilidade do governo peruano

O líder do Perú Libre, Vladimir Cerrón, acusa a administração do novo presidente de ter dado uma 'guinada' ao centro-direitismo

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 15h40
Atualizado 14 de outubro de 2021 | 17h38

LIMA - Pouco menos de 100 dias depois do início do governo, o partido Perú Libre, do qual o presidente peruano, Pedro Castillo, fazia parte ao ser eleito, anunciou nesta quinta-feira, 14, que não dará voto de confiança ao novo gabinete, por considerar que houve uma guinada para a centro-direita. Trata-se da maior crise pública dos atritos que têm abalado o partido no poder. 

De acordo com a lei, os 19 ministros do novo gabiente devem comparecer nas próximas três semanas perante o Parlamento - o Peru tem um sistema unicameral - para obter a aprovação ou rejeição dos 130 legisladores. O gabinete deve obter pelo menos 66 votos para permanecer em funcionamento. O Perú Libre tem 37 cadeiras. Com a recusa do partido no poder em conceder seus votos à nova equipe de Castillo, a incerteza política no Peru aparece novamente.

A posição do partido foi divulgada pelo líder da legenda, Vladimir Cerrón, que, em um comunicado, questiona o aumento do número de membros do governo que classificou como "caviar". "Existe uma indisfarçável guinada política do governo e do gabinete rumo ao centro-direitismo", criticou o principal expoente do partido de ideologia marxista. 

Cerrón é investigado pela promotoria em um caso de suposta lavagem de dinheiro e acusado de desvio de dinheiro público durante seu mandato como governador em uma região dos Andes.

"A atual composição tem partidos sem registro, sustentados por ONGs americanas, que co-governaram com os últimos quatro governos e agora, com esse atual", completa a nota. A decisão foi anunciada uma semana depois de o presidente pedir a demissão de seu então primeiro-ministro, Guido Bellido, um importante membro do Perú Libre. 

Para analistas políticos, as mudanças promovidas no novo governo já indicavam um afastamento entre Castillo e o partido que o elegeu, principalmente de Cerrón, que tinha Bellido como homem de confiança.

O comunicado da presidência do Perú Libre critica até a nomeação da nova ministra do Trabalho, Betsy Chávez, e do Desenvolvimento e Inclusão Social, Dina Boluarte - também vice-presidente do país -, ambas integrantes da legenda. De acordo com o texto divulgado por Cerrón, as indicações não representam o grupo político, já que ambos correspondem a decisões individuais. 

A escolha de Chávez foi vista como uma tentativa do presidente de se reposicionar para um caminho moderado. A nova ministra foi escolhida para substituir o ex-ministro Iber Maraví, acusado de ter um histórico de relações com o Sendero Luminoso, guerrilha maoísta que aterrorizou o Peru nos anos 80. 

 


O novo gabinete escolhido por Castillo é chefiado pela advogada ambiental Mirtha Vásquez que, embora seja considerada de esquerda, não pertence ao partido. Vásquez era advogada de camponeses em confrontos com mineradoras multinacionais e contava com o apoio de organizações ambientais internacionais. Ela se tornou legisladora em 2020 e, após uma semana caótica de novembro, na qual o Peru teve três presidentes, assumiu a presidência do Congresso até julho de 2021, quando Castillo iniciou seu mandato.

Novo partido

O texto divulgadon nesta quinta-feira ainda convoca a todos os parlamentares que são filiados ao Perú Libre que recomponham a bancada da legenda no Congresso, e acusou que há uma intenção de criação de partido próprio no entorno de Castillo. 

Em julho, a Federação Nacional de Trabalhadores na Educação do Peru (Fenate Perú), sindicato fundado pelo atual presidente do país, recebeu o registro junto ao Ministério do Trabalho e Promoção Social do Emprego, o que representaria o primeiro passo para a transformação em movimento político. 

Entre os 37 parlamentares eleitos pelo Perú Libre, cerca de 13 têm vínculos mais próximos com Castillo do que com Cerrón, o que indica a formação de um grupo parlamentar independente.

Alguns meios de comunicação locais descreveram o anúncio de Cerrón como uma ruptura do partido com o presidente, embora o líder da legenda tenha notado posteriormente em outra mensagem no Twitter que o Perú Libre não foi para a oposição. "(Partido) permanece ao lado do povo."

A mudança do gabinete ministerial provocou a recuperação da moeda local a patamares semelhantes ao momento em que Castillo assumiu o poder, no fim de julho. Um dia após a posse do novo gabinete, Castillo anunciou a continuação do mandato do presidente do Banco Central, Julio Velarde, economista respeitado pelo mercado financeiro que dirige a instituição há 15 anos. 

Especialistas afirmam que o presidente terá de buscar apoio nas bancadas políticas centristas para que seu novo gabinete ministerial agregue os 66 votos necessários para continuar no cargo. Castillo está programado para governar até 2026. / EFE e AP

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