AFP PHOTO/CRIS BOURONCLE
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Partido fujimorista terá maioria no Congresso do Peru

Força Popular terá entre 65 e 68 cadeiras de um total de 130; resultado traz à memória período em que ex-ditador assumiu o poder, em 1990

Rodrigo Cavalheiro ENVIADO ESPECIAL / LIMA, O Estado de S. Paulo

13 Abril 2016 | 05h00

O partido fujimorista Força Popular terá entre 65 e 68 cadeiras no próximo Congresso do Peru, de um total de 130. Da última vez que uma legenda teve maioria, o Parlamento virou apêndice do governo do ex-ditador Alberto Fujimori. Ele assumiu em 1990, fechou o Congresso em 1992, reelegeu-se em 1995 e terminou o mandato em 2000. Está preso há 11 anos por violação dos direitos humanos e, com câncer, pede um indulto. 

A candidata Keiko Fujimori, vencedora do primeiro turno de domingo, comprometeu-se a não soltá-lo, mas é pressionada a admitir crimes no governo do qual, na adolescência, foi primeira-dama. Aos 40 anos, ela passou os últimos cinco em campanha para se desligar da imagem autoritária do pai. Afastou quatro caciques fujimoristas das listas para o Parlamento, prometeu ceder comissões no Congresso à oposição, mas o histórico do sobrenome pesa contra.

“Um Legislativo com maioria absoluta do fujimorismo traz más recordações dos anos 90. A partir de 1992, a oposição era uma pintura na parede. Isso não é bom para a democracia”, disse o parlamentar Víctor Andrés García Belaúnde, sobrinho do ex-presidente Fernando Belaúnde Terry (1980-1985). Vários líderes antifujimoristas deram declarações semelhantes ontem.

As más lembranças são tão fortes que a ampla votação fujimorista é vista por parte dos analistas políticos peruanos como um ponto contra Keiko em um segundo turno contra o economista liberal Pedro Pablo Kuczynski. “Pode ser um discurso eficaz para Kuczynski dizer que ela não pode dominar tudo. O ideal para ela seria não alcançar a maioria das cadeiras e contar com outro partido que pudesse lhe dar esses votos, caso chegue à presidência”, opina o consultor político Arturo Maldonado, da consultoria 50 + 1. 

Depois que Fujimori fechou o Congresso, mudou, em 1993, a Constituição, ainda vigente. Ao obter uma reeleição, em 1995, com 64% dos votos em primeiro turno, ele manteve o controle sobre o Parlamento, com 67 das então 120 cadeiras. O atual presidente, Ollanta Humala, começou seu governo com 47 parlamentares e termina com 27.

Segundo Eduardo Dargent, professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru, Keiko tem se mostrado moderada em suas declarações para baixar uma rejeição de 45%, mas isso não convence. “Ela está acompanhada de gente muito perigosa, que nunca se envergonhou de chamar de terrorista quem pensava diferente. Pode haver um revanche do fujimorismo, que nunca aceitou o nível de corrupção que lhe foi atribuído.” O ex-ditador responde a processos e já foi condenado por desvios de verbas públicas.

O parlamentar mais votado no domingo foi Kenji Fujimori, irmão mais novo de Keiko. Embora esteja cotado para presidir a Casa, o mais provável é que um fujimorista moderado exerça o cargo, pois é necessário consenso entre as bancadas. A votação dá a Kenji o direito tomar o juramento do próximo presidente, pois o comando do Parlamento ainda não estará definido. Caso Keiko vença, os dois irmãos apareceriam no dia da posse no controle dos dois poderes. 

Embora não haja uma confirmação matemática, todas projeções apontam para o confronto entre Keiko e Kuczynski no dia 5 de junho. Apuração oficial da manhã de ontem, com base em 95,3% dos votos, mostrava a filha do ex-ditador com 39,7%. O ex-ministro de Economia e de Energia tinha 21% e a líder de esquerda Verónika Mendoza, 18,7%. A Justiça eleitoral teria de avaliar a impugnação de 3,6% dos votos e ainda faltavam ser processados 4,6%. 

Ambos seguem linha conservadora em temas de comportamento, mas têm visões diferentes sobre o tamanho do Estado. Fujimori fez reformas liberais no início de seu mandato, mas é lembrado pelo gasto público em educação e obras. Kuczynski defende uma redução do papel do Estado em áreas não essenciais e promete pedir a libertação de presos políticos na Venezuela e em Cuba.

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