REUTERS/Jorge Silva
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Partido italiano é acusado de receber dinheiro do governo Chávez em 2010

Jornal conservador diz que Maduro, na época chanceler, enviou € 3,5 milhões por meio de uma correspondência diplomática ao Movimento 5 Estrelas

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2020 | 17h29

ROMA - O Movimento 5 Estrelas (M5E, antissistema) teria recebido em 2010 financiamento oculto do governo venezuelano de Hugo Chávez, afirma um jornal espanhol, um tema que gera grande impacto na Itália e poderia enfraquecer a coalizão de governo. 

O jornal conservador ABC, que cita um documento confidencial do serviço de inteligência da Venezuela com data de 25 de julho de 2010, do qual publica uma foto, afirma que o atual presidente Nicolás Maduro, na época ministro das Relações Exteriores de Hugo Chávez (que morreu em 2013), enviou € 3,5 milhões (US$3,9 milhões) à Itália por meio de uma correspondência diplomática.

O dinheiro teria sido entregue a Gianroberto Casaleggio (morto em 2016), fundador do M5E com o humorista Beppe Grillo.

O M5E, que governa o país em uma coalizão com o Partido Democrata, ao qual está vinculado o primeiro-ministro Giuseppe Conte, desmentiu categoricamente a notícia.

"É uma 'fake news' simplesmente ridícula e imaginativa", comentou o atual líder do Movimento, Vito Crimi, que afirmou "estudar a possibilidade de iniciar uma ação na justiça".

O chefe do governo apoiou o Movimento. "Os responsáveis do M5E já asseguraram que se trata de uma notícia falsa e, desse ponto de vista, acredito que não há nada para explicar", declarou.

A Embaixada da Venezuela em Roma também rebateu a informação, que chamou de "falsidade fabricada pela extrema direita", ao mesmo tempo que mencionou a possibilidade de um processo, segundo a agência italiana AGI.

Os supostos recursos ocultos, entregues em espécie, teriam sido usados para financiar o movimento de protesto e populista italiano fundado em 2009, e que reivindicava algumas ideias próximas da esquerda radical.

A mala de dinheiro teria sido enviada "de forma segura e secreta por malote diplomático", segundo o ABC, que cita um documento do serviço de inteligência venezuelano, comandado na época por Hugo Carvajal.

Procedia de "fundos reservados administrados pelo ministro do Interior da época", hoje ministro do Petróleo e vice-presidente Tareck El Aissami, também de acordo com o ABC.

Carvajal, detido em abril de 2019 em Madri e acusado de tráfico de droga, foi liberado em setembro com a proibição de deixar a Espanha. Em novembro, a justiça espanhola autorizou sua extradição aos Estados Unidos, mas desde então ele está desaparecido.

As afirmações do jornal espanhol ganharam destaque na imprensa italiana. O M5E enfrenta há dois anos fortes tensões internas e sua influência política não para de cair.

O movimento, no poder na Itália desde as legislativas de 2018, quando recebeu 32% dos votos e se tornou o maior partido do país, perdeu espaço desde então e as pesquisas mais recentes apontam apenas 15% das intenções de voto.

Primeiro o M5E governou em coalizão com a Liga (extrema direita) de Matteo Salvini, para depois estabelecer uma aliança com o Partido Democrata. 

"A atitude amistosa de alguns setores do M5E com o regime venezuelano sempre me intrigou, mesmo que fosse gratuita", ironizou Salvini.

"Todas as verificações serão efetuadas, mas o interessado (o falecido Casaleggio) não pode se defender" declarou o ex-líder político do M5E e atual ministro das Relações Exteriores, Luigi Di Maio./AFP 

 

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