Partido liberal deve obter maioria na Líbia

Na contramão de Tunísia e Egito, líbios votam em massa em força política que se opõe a islamistas

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2012 | 03h04

A Líbia está perto de quebrar uma escrita na Primavera Árabe. Diferentemente da Tunísia e do Egito, onde venceu, a Irmandade Muçulmana líbia deve ser superada por um partido liberal, conduzido por intelectuais e empresários e liderado por Mahmoud Jibril, revolucionário e ex-primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição (CNT).

Sua coalizão deve conquistar entre 50% e 60% dos assentos no novo Congresso Nacional, o primeiro desde o fim da era Muamar Kadafi.

A apuração oficial da eleição de sábado ainda não foi concluída pela Comissão Eleitoral, mas prognósticos dos dois maiores partidos do país indicam a vitória arrasadora da Aliança das Forças Nacionais, uma coalizão de centro formada por grupos moderados e progressistas. Em segundo lugar deve ficar o Partido Justiça e Construção (Al-Adala Wal-Bina), braço político da Irmandade Muçulmana, mas também moderada e centrista. O grande derrotado tende a ser o Wattan (Nação), partido radical islâmico liderado pelo rebelde Abdelhakim Belhadj.

A eleição teve adesão próxima de 70% dos eleitores inscritos pela Comissão Eleitoral, segundo o órgão. Realizada sob tensão, a votação foi considerada um sucesso por observadores internacionais da ONU, da UE e de ONGs como a National Democratic Institute. "Do ponto de vista da organização e da transparência, foi um grande sucesso", disse Ian Martin, coordenador dos observadores da ONU.

Os incidentes envolveram cerca de cem urnas em Benghazi, Ajdabiyah - onde um homem foi morto - e Derna. Eles foram causados por milícias federalistas, que não reconhecem a legitimidade da eleição. Em Trípoli, porém, a população invadiu a Praça dos Mártires e celebrou até a madrugada a primeira eleição livre desde o fim da monarquia.

Ontem à tarde, as primeiras projeções vieram a público. De acordo com prognósticos obtidos pelo Estado nos dois principais partidos, a Aliança Nacional deve obter sozinha a maioria do Congresso, com quase o triplo dos votos do segundo colocado. Caso se confirme, o sucesso terá sido obtido com o amplo apoio feminino, 45% do eleitorado. As eleitoras tinham receio de que o Justiça e Construção representasse um recuo na igualdade dos sexos.

"Nossas projeções indicam que vamos somar de 100 a 120 dos 200 assentos do Congresso Nacional. É um verdadeiro milagre", disse ao Estado Mohamed Othman, um dos coordenadores da Aliança Nacional. "Estamos trilhando um caminho diferente da Tunísia e do Egito, que escolheram a Irmandade. Tínhamos fé na vitória, mas não esperávamos tamanho sucesso."

A vitória iminente da aliança foi reconhecida pelos principais opositores. "Nós devemos eleger entre 20% e 25% dos deputados", disse Faissal Safi, dirigente do partido islâmico Justiça e Construção. "O mais importante não é quem venceu, mas o fato de que trabalharemos juntos por uma Líbia melhor."

Em tom conciliador, Jibril convocou um "diálogo nacional". Ex-líder da oposição no exílio, Jibril pode optar por não ser o primeiro-ministro, esperando as eleições presidenciais a serem realizadas em 18 meses. Em seu lugar, pode ser nomeado o diplomata Mohamed Shalgham, chefe da missão da Líbia na ONU em Nova York.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.