Esteban Felix/AP
Esteban Felix/AP

Partido que dirigiu México por sete décadas deve retomar hegemonia

Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional, pode ser eleito neste domingo

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial a Atlacomulco, México, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h06

ATLACOMULCO - Quando o candidato Enrique Peña Nieto votar hoje em uma esquina do centro de Atlacomulco, a 50 metros do colégio católico Plancarte, onde costumava ajudar o padre na missa, será ovacionado por uma multidão de concidadãos à espera do cumprimento de uma profecia.

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Nos anos 40, uma vidente do local a serviço de caciques políticos do Partido Revolucionário Institucional (PRI) disse que daquela cidade, que cresceu e hoje tem 27 mil habitantes, sairiam seis governadores do Estado do México e um presidente. Peña Nieto foi o sexto governador nascido em Atlacomulco. A cidade nunca teve um presidente da república.

Uma vitória do favorito "pequeño Peña" - o resultado deve sair na noite de hoje - estaria carregada de um simbolismo ainda maior para o restante do país. Devolveria ao Partido Revolucionário Institucional (PRI) o poder ao qual se apegou durante 71 anos - de 1929 a 2000. Há 12 anos na oposição, o grupo político que nunca deixou de ter a maior máquina eleitoral do México pretende se beneficiar da controvertida ofensiva iniciada pelo presidente Felipe Calderón em 2006 contra o narcotráfico.

O resultado do ataque aos cartéis com as Forças Armadas foi 47,5 mil mortos e, segundo analistas, um disparo certeiro na campanha do governista Partido Ação Nacional (PAN) por um terceiro mandato. "Calderón fez certo ao agir, mas errou como agir. Ao atacar os capos dos cartéis, provocou a pulverização da criminalidade. Criminosos médios dentro da estrutura criminosa formaram seus próprios grupos e multiplicaram a criminalidade percebida pela população", avalia o especialista em segurança Eduardo Guerrero.

Pelo contraste com "os anos do PAN", Peña Nieto conviveu durante a campanha, a seu favor e contra, com a insinuação de que o PRI foi, durante décadas, condescendente com o narcotráfico. A seu favor porque parte da população tem saudade do tempo em que "o tráfico podia trabalhar em paz".

"As pessoas me dizem: se o PRI ganhar teu filho vai virar um viciado. Mas quem quer entrar nas drogas entra de qualquer jeito. Antes o tráfico trabalhava livre e nem todos eram viciados. Estamos perdendo empregos e investimentos", afirma o eleitor do PRI Tito González, sem filhos, residente em Toluca, capital do Estado do México.

Foi em Toluca, na quarta-feira, que Peña Nieto encerrou a campanha como um artista, alternando rápidas corridas sobre o palco com pausas repentinas nas quais aplaudia a plateia. "Luis Miguel da política" é o título do perfil que o jornalista Ignacio Rodríguez Reina, ex-diretor de alguns dos principais jornais mexicanos, escreveu sobre ele. A personalidade e os trejeitos que justificam a alusão ao cantor romântico Luis Miguel, que arrasta multidões de mulheres aos shows, também parece ter ajudado Peña Nieto a chegar como favorito ao final da campanha, teria pelo menos 6 pontos de vantagem, apesar de várias gafes - a mais usada contra ele, esquecer o nome de autores em uma feira do livro.

Entre as milhares de testemunhas de seu último discurso, havia os que admitiam ter sido atraídos pelo lanche pago pelo PRI. Mas havia quem, questionado sobre o que Peña Nieto havia feito pelo Estado do México, começava a resposta com "eu gosto do 'cara de bebê'."

A resposta, da dona de casa Regina Luz, recebeu o sorriso de aprovação de suas amigas, por sua vez mais interessadas na roupa da primeira-dama do que na fala de Peña Nieto. Acusado de ser um produto da mídia, o candidato casou-se logo após ficar viúvo com uma das mais famosas artistas de novelas mexicanas, Angélica Rivera, conhecida simplesmente como "Gaivota", nome de seu personagem mais famoso na TV.

Quando votar hoje em Atlacomulco, acompanhado da mulher, Peña Nieto também estará sujeito a vaias. A cem metros de sua urna, na praça da catedral, onde ele costumava jogar bola - segundo sua irmã, sem dispensar o gel e o topete, aparência pela qual também foi atacado -, estudantes enchem uma calçada com denúncias de corrupção contra ele. "Temos de alertar para o perigo que ele representaria como presidente. As pessoas nos elogiam por termos coragem de ir contra os poderosos", diz Hugo Misael Sánchez, estudante de medicina legal.

Sánchez faz parte do movimento "anti-Peña Nieto e pela moralidade", o Yosoy132, nascido na Cidade do México durante uma visita do candidato do PRI à Universidade Iberoamericana. Vaiado, ele disse ter sido alvo de infiltrados com interesses políticos. Em vídeo na internet, 131 estudantes então mostraram suas credenciais acadêmicas. Ganharam o apoio de milhares que se apresentaram como o "132" e reuniram marchas classificadas por intelectuais de esquerda como a "primavera mexicana".

O movimento luta para manter a imagem de apartidário, embora sua aparição tenha coincidido com uma ascensão nas pesquisas do candidato da esquerda, Andrés Manuel López Obrador (PRD).

Peña Nieto nunca negou a proximidade "dos poderosos" a que se refere o estudante de medicina. Dois dos seis governadores que a vidente colocou no caminho de Atlacomulco eram seus tios por parte de mãe. Outro governador, seu padrinho político, Arturo Montiel, era um dos favoritos para chegar à presidência em 2006. Um escândalo de corrupção tirou-lhe a chance de ser "o homem da profecia". Essa raiz comum de tantos governadores tornou o chamado Grupo de Atlacomulco um sinônimo nacional de projeto de poder.

Localizada a 120 quilômetros da Cidade do México - onde o candidato do PRI tem 16% das preferência, contra 48% de López Obrador -, a cidade parece ter orgulho do sobrenome Peña. Melensio Sánchez, dono da papelaria em que o candidato costumava comprar quando criança, não considera a proximidade da elite um problema. "Sempre foram ricos. Mas tenho um amigo que diz: um rico no poder rouba menos", diz, dando pistas sobre quem levará seu voto hoje.

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