Partido ultranacionalista deixa governo Sharon

Um partido ultranacionalista anunciou hoje que estava abandonando o governo do primeiro-ministro Ariel Sharon, enquanto o comandante militar e o ministro da Defesa de Israel se envolveram numa áspera disputa pública - sinais do aprofundamento da divisão, em vista dos esforços liderados pelos Estados Unidos para consolidar um trégua no Oriente Médio. O radical Partido da União Nacional afirmou ter decidido deixar a coalizão depois que o governo Sharon implementou uma de suas promessas de trégua - uma retirada de tropas, hoje, de duas vizinhanças palestinas na cidade de Hebron, na Cisjordânia. Israel capturou as áreas 10 dias atrás, numa tentativa de acabar com disparos contra enclaves de colonos judeus. O União Nacional, que tem sete cadeiras no Parlamento de 120 membros, é um grande patrocinador do movimento de colonos judeus. O líder do partido, Avigdor Lieberman, que servia como ministro da Infra-Estrutura, disse que sua facção iria deixar o governo para protestar contra o que considera uma pressão dos EUA sobre Israel, para fazer gestos conciliatórios aos palestinos. Autoridades palestinas confirmaram na semana passada que os EUA estavam trabalhando em iniciativas de paz que pedem pelo eventual estabelecimento de um Estado palestino com presença em Jerusalém. Autoridades americanas não têm feito comentários sobre detalhes, mas afirmam que o plano pode ser tornado público durante a Assembléia Geral da ONU, em novembro. Os EUA tentam conquistar o apoio de Estados árabes e muçulmanos para suas respostas aos atentados terroristas de 11 de setembro contra Nova York e Washington. Vários líderes árabes têm dito que é importante para eles ver progressos na resolução do conflito israelense-palestino. Em seu discurso ao parlamento, Sharon tentou afastar dúvidas sobre sua política de direita. "Não estou sujeito a qualquer pressão e não tenho a intenção de assumir qualquer compromisso que coloque em perigo a segurança de Israel", afirmou. O líder israelense alertou também para o fato de, na última década, a debandada de partidos de linha dura de governos de direita ter resultado na chegada ao poder de partidos de esquerda - levando a mais concessões de Israel aos palestinos. "Pergunto a vocês, meus amigos, o que desejam: uma campanha contra o terror ou uma campanha eleitoral?", perguntou Sharon em seu discurso. A saída do Partido da União Nacional não significa que Sharon perdeu sua maioria parlamentar - sua ampla coalizão controla confortáveis 78 das 120 cadeiras no Parlamento. Entretanto, a deserção serve como uma advertência de que o governo Sharon pode rapidamente desmoronar, caso retome conversações de paz com os palestinos. Sharon pode ter agora que se apoiar cada vez mais em seu maior parceiro de coalizão, o centro-esquerdista Partido Trabalhista, o que pode causar novos problemas com os eleitores. "Quem quer que tenha votado em Ariel Sharon nas últimas eleições, em grau não pequeno, registrou um protesto contra os acordos (interinos de paz) de Oslo", avaliou Lieberman. Defesa A disputa entre o comandante do Estado-Maior, tenente-general Shaul Mofaz, e seu superior, o ministro da Defesa Binyamin Ben-Eliezer, também teve início tendo como pano de fundo a questão de Hebron. Pouco antes da reunião ministerial de domingo, Mofaz emitiu um comunicado dizendo que se opunha à retirada de tropas, porque ela poderia colocar em risco as vidas de civis e soldados israelenses. Comandantes das Forças Armadas são rotineiramente consultados pelo governo sobre questões de segurança, mas não têm a permissão de emitir críticas públicas a decisões ministeriais. Sharon e Ben-Eliezer tomaram conhecimento do comunicado de Mofaz durante a reunião ministerial e ficaram furiosos, segundo notícias da mídia israelense. Um irritado Ben-Eliezer dirigiu-se a Sharon e murmurou: "Vou demiti-lo, aquele Mofaz", escreveu o diário Yediot Ahronot. Sharon esmurrou a mesa e disse: "O que ele está planejando, uma carreira política?" segundo o jornal. Na noite de domingo, Ben-Eliezer anunciou que havia reprimido severamente Mofaz, que ainda tem de completar nove meses de seu mandato de quatro anos. Vários comentaristas de jornais e políticos pacifistas, incluindo o parlamentar trabalhista Yossi Beilin, exigiram a renúncia de Mofaz. "Eu renunciaria porque um comandante do Estado-Maior não pode operar numa situação na qual o primeiro-ministro o acusa, numa reunião ministerial, de conluio político", escreveu o comentarista militar Alex Fishman no Yediot. Mofaz disse hoje que não iria renunciar, apesar da reprimenda, vista por muitos como uma grande humilhação. Ele disse que as palavras que escolheu em seu comunicado foram infelizes, e que não pretendia desafiar a autoridade do governo. Alguns comentaristas especularam que Mofaz irá entrar na política ao fim de seu mandato, possivelmente unindo-se ao ex-premier Benjamin Netanyahu, que liderou o direitista Partido Likud antes de ser derrotado nas eleições de 1999. Netanyahu está trabalhando para retornar à vida política e é visto como a maior ameaça a Sharon, que agora lidera o Likud. Mofaz vem sendo criticado há meses por pacifistas israelenses e muitos árabes, que dizem que as Forças Armadas fizeram uso excessivo da força contra os palestinos nos primeiros dias da intifada (levante) palestina, inflamando paixões e ajudando a enterrar esforços de paz feitos pelo ex-primeiro-ministro Ehud Barak.

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