'Partido vencedor na Tunísia nega divisão religião-Estado'

Eleito na votação do dia 23, Ennahda é 'contraditório' sobre papel do Islã e está longe do modelo turco, diz analista

Entrevista com

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2011 | 03h06

O partido islâmico Ennahda (Renascimento) venceu as primeiras eleições democráticas da Tunísia, no dia 23, mas sua votação não foi tão grande quanto se supõe. Isso por causa do sistema proporcional e porque metade dos tunisianos com direito a votar nem sequer se inscreveu - um dado que o comparecimento de 90% não revela. O Ennahda está longe de ser tão moderado quanto o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) da Turquia, com o qual tem sido comparado. Ele não aceita a separação entre religião e Estado e suas declarações sobre o papel do Islã são contraditórias. A análise é de Hamadi Redissi, professor de Ciência Política da Universidade de Túnis e presidente do Observatório Tunisiano para uma Transição Democrática, em entrevista ao Estado.

Como se explica a vitória do Partido Ennahda?

A vitória foi, com razão, celebrada, mas, do ponto de vista técnico, o sucesso não foi tão grande: 7,8 milhões de pessoas tinham idade para votar, mas apenas 4 milhões se inscreveram e 3,7 milhões compareceram. O Ennahda teve 1,5 milhão de votos, o que representa 40% do total, enquanto que 1,3 milhão foram perdidos e não atribuídos a nenhuma das listas por causa das regras eleitorais. A representação proporcional prejudica as listas menores. Mas o sucesso é notável e surpreendente o bastante para ser levado a sério.

Em primeiro lugar, as pessoas votaram em um movimento histórico que lutou contra a ditadura durante décadas e foi duramente reprimido. Segundo, as pessoas votaram por razões religiosas, o que lhes deu vantagem quando comparados aos esquerdistas e secularistas que também resistiram contra (o ex-ditador Zine al-Abidine) Ben Ali, mas no fim foram punidos pela votação. A combinação de resistência e religião os torna mais fortes nos bairros populares e mesmo entre a classe média. Em terceiro lugar, as pessoas votaram em uma mudança efetiva e em uma ruptura com o velho sistema. Ele é tão odiado que qualquer acordo com seus representantes ou aliados tem sido considerado tentativa de restaurá-lo com nova embalagem. O Ennahda fez muitas concessões para ir além de suas raízes, conquistar a classe média alta e até ex-adeptos do velho regime. Quarto, as pessoas confiaram neles, acharam que são capazes de governar e quiseram lhes dar uma chance de pôr em prática suas enormes promessas de resolver os problemas econômicos, criar empregos e erradicar a pobreza. Resta saber até que ponto o Ennahda será capaz de atender demandas tão grandes.

Qual será o grau de interferência da religião no novo governo?

Diferentemente do turco AKP, o Ennahda recusa vigorosamente a separação entre Estado e religião e entre religião e política. Mais que isso, eles fizeram campanha para manter o Artigo 1.º de nossa antiga Constituição, de 1959, que estipula que o Islã é a religião do Estado. Os secularistas aceitam esse artigo, mas rejeitam usar a religião para objetivos políticos. Portanto, o Estado continuará a administrar os cultos e interferir nos assuntos religiosos. O novo governo manterá, e provavelmente reforçará, esse papel clássico.

Por agora, as pessoas continuarão podendo beber álcool, andar nas ruas sem véu e usar biquínis nas praias da Tunísia?

O Ennahda fez declarações contraditórias, tanto antes quanto depois da eleição. Seus líderes declaram respeitar as liberdades individuais, mas fizeram campanha contra qualquer tentativa de criticar a religião publicamente. Eles fingem que não mudarão à força o estilo de vida tunisiano e insistem que estão comprometidos em respeitar o Código sobre o Status das Mulheres, de 1956, que proíbe a poligamia. Mas, ao mesmo tempo, o Ennahda está planejando incentivar hotéis livres de álcool e bancos que não cobram juros. Eles adorariam sobretaxar bebidas e limitá-las a algumas áreas. Desejam 'moralizar' o estilo de vida tunisiano e provavelmente criar aos poucos uma sociedade alternativa convivendo com a atual. Mas não avançarão por causa da forte resistência a seus planos. Os tunisianos votaram em um movimento islâmico, não em uma plataforma islâmica. Essa será uma das grandes questões no próximo ano.

A partir do que observou nessa eleição, o sr. acha que a democracia criará raízes na Tunísia?

Com certeza. Os tunisianos ficaram muito orgulhosos de votar livremente em uma eleição honesta e transparente. Desde 14 de janeiro (início da rebelião), foram criados milhares de movimentos e associações fortemente comprometidos com a defesa da democracia. As eleições foram supervisionadas por um órgão independente formado por militantes e voluntários. Os islâmicos representam um componente forte da vida política, nada mais. Entretanto, o processo em curso é complicado. Até que ponto os partidos políticos permanecerão coesos e o governo será capaz de superar os problemas econômicos são os verdadeiros desafios no curto prazo.

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