Partidos britânicos agem para evitar secessão da Escócia

Partidos britânicos agem para evitar secessão da Escócia

Líderes políticos detalharam ontem um projeto que oferece mais autonomia aos escoceses em caso de vitória do "não"

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / EDIMBURGO, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2014 | 02h01

Líderes dos três principais partidos políticos da Grã-Bretanha, conservadores, trabalhistas e liberais, detalharam ontem um projeto que oferece mais autonomia para a Escócia em caso de vitória do "não" à independência no plebiscito de amanhã. A proposta tenta convencer cerca de 500 mil eleitores indecisos e conter as possibilidades concretas de secessão do país.

A oferta feita em uma carta aberta publicada ontem no jornal escocês Daily Record foi assinada pelo primeiro-ministro, David Cameron, líder conservador, pelo vice-primeiro-ministro, Nick Clegg, chefe dos liberais, e por Ed Miliband, que comanda os trabalhistas e chefia a oposição.

No documento, inédito e histórico, os parlamentares se comprometem a iniciar, na sexta-feira, um dia após a votação, negociações para um projeto de lei que devolveria, em 2015, ao Parlamento escocês poderes para definir investimentos em políticas sociais, como o sistema público de saúde (NHS, na sigla em inglês), que passaria a ser blindado de políticas de austeridade, muito criticadas pelos escoceses.

Reforma política. Os líderes se comprometem também a transformar a legislação em "parte permanente e irreversível" da Constituição britânica. As medidas, ainda imprecisas, vinham sendo discutidas havia 10 dias, desde que pesquisas indicaram um empate técnico entre a campanha separatista e a unionista. Ambos os campos chegam à véspera do plebiscito com 52% (unionistas) e 48% (separatistas) da preferência, segundo pesquisas publicadas ontem pelos institutos Opinium e ICM.

Um dos maiores defensores das medidas, o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown, nascido na Escócia, advertiu ontem mais uma vez que pode haver um caos político após a eventual secessão da Grã-Bretanha.

"Se você votar 'sim', o efeito do 18 de setembro será romper cada vínculo restante que nós temos, com amigos, vizinhos ou parentes", disse Brown.

Ameaças. Nas ruas de Edimburgo, porém, a estratégia de ameaças contra a secessão adotada pela campanha unionista não parece mais surtir efeito. Frequentemente, o resultado é contrário.

"Vivo há três anos em Edimburgo como doutorando em Direito Constitucional. Minha posição era de não votar, mas simpatizava com a campanha separatista pelo profundo senso de autodeterminação", explicou ao Estado Jean-Paul Kajip, nigeriano que tem direito a voto por fazer parte da Commonwealth (Comunidade Britânica de Nações) e está inscrito nas listas eleitorais escocesas. "O que me fez ir às urnas é a campanha de chantagem, intimidação e de ataques dos políticos de Westminster (Parlamento britânico)."

Para Kajip, as propostas de devolução dos poderes para Edimburgo não passam de cortina de fumaça em meio a uma disputa eleitoral crucial e apertada. "Os partidos que têm mais a perder estão desesperados para manter o poder", afirma.

Primeiro-ministro escocês e líder da campanha pela independência, Alex Salmond, também se valeu dos mesmos argumentos para desacreditar as propostas de mais autonomia.

"É totalmente inadequado e insuficiente", respondeu Samond. "Não é nada comparado aos poderes que a Escócia precisa para criar empregos, salvar o sistema público de saúde e construir uma sociedade melhor."

Diante da incerteza sobre o resultado da eleição, os ânimos entre os dois campos começam a se exaltar com a proximidade do plebiscito. Ontem, em visita a Edimburgo, Ed Miliband foi cercado por partidários do "sim" e hostilizado com palavrões. "Temos visto um lado feio de parte da campanha separatista", criticou o líder trabalhista.

Embora o futuro da Escócia e da Grã-Bretanha esteja em jogo, sondagens realizadas na Inglaterra e no País de Gales indicaram ontem que quase 30% dos ingleses não ligam para o plebiscito de amanhã.

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