Luciano Spinelli/ Estadão
Luciano Spinelli/ Estadão

Partidos extremistas buscam eleitor jovem 

Eurocéticos e nacionalistas tentam se livrar da imagem de líderes velhos e xenófobos para avançar uma agenda soberanista contra a União Europeia

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2016 | 06h00

PARIS - Além da rejeição à União Europeia (UE, partidos neopopulistas de extrema direita ou de esquerda radical têm outra preocupação em comum na Europa: conquistar o eleitorado jovem. Para penetrar em uma fatia da população mais liberal e integrada à globalização, eles buscam uma nova imagem.

Em junho, em Roma, a eleição de Virginia Raggi, de 37 anos, como nova prefeita da capital, transformou-a em novo símbolo do crescimento do Movimento Cinco Estrelas. Na Frente Nacional (FN), da França, esse papel cabe a jovens como Florian Philippot, vice-presidente, e Gaëtan Dussausaye, diretor nacional da juventude do partido.

Gaëtan, de 22 anos, é o que se pode chamar de uma vítima da globalização. Estudante de filosofia na Sorbonne - hoje com matrícula trancada -, ele nunca perdeu o emprego em razão da crise do euro, tampouco foi substituído por um imigrante. Mas seu pai, diretor de marketing de uma multinacional francesa, foi viver na China a trabalho, efeito da globalização. Desde então, o contato entre pai e filho é escasso.

A contingência, porém, não parece abalar o futuro promissor de Gaëtan, guitarrista de uma banda, a Bursting Creepy. Ele diz ter vivido uma “transformação natural” até se tornar símbolo daquele que é um dos maiores partidos de extrema direita da Europa.

“Não cresci em um ambiente politizado, nem minha família, nem meus amigos estavam engajados em um partido político ou eram eleitores fiéis de um partido político em particular”, diz. “Grande democrata que sou, li os programas e discursos de todos os partidos e cheguei à Frente Nacional.”

Militante da FN desde 2011, foi promovido ao cargo de diretor nacional da juventude do partido em 2015. Desde então, é a imagem do jovem bem comportado que serve de modelo. Sua função é atrair outros jovens e ajudar a legenda a superar a imagem de um partido de velhos xenófobos, como seu fundador, Jean-Marie Le Pen.

O tema preferido de Gaëtan é a UE. “Temos um projeto europeu que não responde a nenhuma das temáticas que estão colocadas aos povos da Europa, seja imigração, luta contra o terrorismo ou em matéria econômica e social”, diz. “A UE não aporta respostas às múltiplas crises que se encadeiam diante de nós, o que conforta o voto soberanista e patriota na França.”

Para Gaëtan, a força do “soberanismo” na Europa foi vista no referendo britânico - o Brexit -, mas também aparece em todos os partidos como a FN. “Há muitos partidos soberanistas ou eurocéticos”, explica. “É normal que haja um movimento europeu, porque no seio dos membros da UE nos demos conta de que esse projeto de apagar as fronteiras e criar um enorme mercado comum sem regra nacional, sem proteção, que centraliza o poder monetário, legislativo, econômico, é um projeto que é cada vez mais rejeitado.”

Pelo programa da FN, Marine Le Pen negociará durante seis meses o desmonte dos marcos da UE - moeda única, livre circulação de pessoas e retorno das fronteiras - se for eleita presidente, em maio de 2017. Caso as negociações fracassem, um referendo definirá o “Frexit” - a saída da França da UE. Para Gaëtan, seria o fim do bloco. “Se a França sair, não haverá mais UE, porque a Alemanha não vai continuar sozinha”, afirma.

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